A empresa Risotolândia, que tem contrato de R$ 102.806.738,46 com a Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba, foi alvo de operação do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) recentemente. Foram apreendidos materiais na sede da empresa, em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba (RMC), referente a uma suspeita no fornecimento de merendas escolares na rede pública de Blumenau, cujo contrato foi rescindido pela prefeitura da cidade em abril do ano passado.
Em Curitiba, o contrato milionário com a prefeitura vai até dezembro deste ano e embora não seja alvo de operações do Gaeco, recebe reclamações de pais e mães de crianças tanto por redes sociais, quanto nos canais de denúncia do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais Curitiba (Sismuc).
Uma das mães ouvidas pelo Plural tem a filha de 5 anos como aluna do CMEI Urano, no bairro Xaxim. “Já recebi reclamação de que faltou comida ou de que as crianças não gostam da comida, porque não tem outro tipo de carne, por exemplo, só servem frango. Há falta de variedade, como repetição de mamão com aveia, ou quirera sempre”, contou sob anonimato.
Os problemas na Risotolândia não são de agora. Em 2024 a empresa teve uma multa por inadimplência do contrato de R$ 376.023,50 (de um faturamento de R$ 37,6 milhões) pela prefeitura. Segundo o contrato – o mesmo que ainda está vigente - a multa de 1% do faturamento da empresa nos meses em que foi constatada a irregularidade está prevista em casos graves.
A empresa é fornecedora da prefeitura de Curitiba desde 1998 e, segundo levantamento do Sismuc a partir do Portal da Transparência, os contratos disponíveis a partir de 2009 somam R$ 1.930.091.750,99. Somente de 2022 pra cá, foram feitos 12 aditivos da gestão municipal com a empresa.
Por dentro da Risotolândia
A reportagem do Plural entrou na planta da Risotolândia em Araucária. No local, trabalhadores processam 25 toneladas de carne e preparam 270 mil refeições por dia, além de dez mil quilos de pães feitos todos os dias.
O complexo tem 7 plantas e funciona 24 horas, em turnos diferentes a depender do setor. Neste ano, a empresa começou a internacionalização e fechou contrato para assumir a gestão da alimentação escolar em 12 unidades de Santiago, no Chile.

Segundo a Risotolândia, no Chile, o modelo adotado será o de refeições administradas, com produção realizada dentro das próprias escolas, no local de servimento, “o que garante controle de qualidade, segurança e adaptação aos hábitos alimentares locais”, segundo informou em um texto institucional.
Em Curitiba as refeições saem da sede em Araucária. As crianças que têm alimentação especial – restrições alimentares, alergias ou dietas especiais, recebem o alimento de forma separada das demais. As demais refeições são enviadas por meio de caminhões, em recipientes grandes, que atendem ao cardápio estabelecido pela própria prefeitura de Curitiba.
Este é um dos pontos levantados pela Risotolândia quando questionada a respeito do cardápio – repetitivo segundo os pais. Catiane Zelak Abreu, Gerente Executiva de Operações da Risotolândia Serviços Inteligentes de Alimentação, destacou que as refeições preparadas pela empresa atendem o que está previsto no contrato com a prefeitura e são preparadas seguindo orientações da equipe de nutrição de Curitiba. “Nosso livro mestre é a licitação. Seguimos o que está previsto lá, inclusive com o cadastro de dietas especiais”, explica.
Conforme denúncias encaminhadas ao Sismuc, há relatos de comidas com falta de tempero ou proteínas de difícil mastigação. Nestes casos a empresa explica que é feito o controle de qualidade e quando algum problema é identificado há a correção. A cada refeição preparada, é retirada uma amostra para servir como parâmetro de qualidade.
Às claras
Para o Sismuc, é preciso ter mais transparência na gestão do contrato entre a prefeitura e a Risotolândia, já que há insatisfação também dos trabalhadores – que precisam fracionar os alimentos enviados às escolas antes de servir às crianças. “Muitas vezes a quantidade de comida é insuficiente, aí temos que diminuir toda alimentação para dar para todos comerem”, comentou uma servidora. A quantidade de comida per capita está definida em contrato.
De acordo com o Sindicato, mais transparência no contrato de fornecimento de alimentos evitaria problemas como a da operação do Gaeco de Santa Catarina. Para o CEO da Risotolândia, Carlos Humberto de Souza, a atuação da empresa no atendimento do mercado público faz com que ações como a do Gaeco possam acontecer.




Comida preparada em Araucária, além de escolas de Curitiba, também atende a penitenciária de Piraquara e a prefeitura de São José dos Pinhais | Fotos: Tami Taketani/Plural.
“Eu não tenho conhecimento total do processo, mas entregamos tudo e estamos à disposição para prestar esclarecimentos. Em um contrato privado a gestão é mais fácil, porque você prova, testa, aprova e pode fazer mudanças, diferente do setor público, mas nós escolhemos atuar no setor público e temos o compromisso de melhorar a cada dia”, defendeu.
Para amenizar as reclamações, a proposta do Sismuc é que as refeições voltem a ser preparadas nas escolas, o que garante o controle direto da alimentação das crianças da rede municipal.
O contrato vigente, todavia, prevê a terceirização da alimentação escolar da rede municipal de Curitiba, incluindo a compra dos alimentos, preparo, transporte e distribuição das refeições destinadas a estudantes das escolas municipais, unidades de educação integral e centros de atendimento especializado, mas não obriga que elas sejam preparadas nos locais de distribuição, diferente do que vai acontecer em Santiago.

