Em 18 de dezembro de 2025, o prefeito Eduardo Pimentel recebeu em seu gabinete a direção do Hospital XV para o que a Prefeitura chamou de "ato simbólico": a entrada da tradicional unidade ortopédica, fundada na década de 1950, na rede pública de urgência e emergência para casos de trauma leve. Depois de meses de investigação, o Plural descobriu que o "simbolismo" de Pimentel era maior do que o Hospital e a Prefeitura revelaram: de acordo com os contratos entre a Prefeitura e a Pro-Vitta e entre a Pro-Vitta e o Hospital, o Hospital XV nunca foi contratado para ser parte do SUS curitibano.
O comunicado oficial, publicado no site da Prefeitura, tratou o hospital como o novo parceiro do Município no SUS — "a entrada do Hospital XV no SUS curitibano", nas palavras do prefeito reproduzidas no texto. O contrato real da Prefeitura era, no entanto, com a Pro-Vitta, tratada no release oficial como "mantenedora" do hospital.
A realidade, porém, é que a Pro-Vitta nunca foi mantenedora do Hospital XV. No dia 1º de dezembro de 2025, um dia antes de celebrar o contrato com a Prefeitura, a Pro-Vitta assinou com o Hospital XV um contrato de "locação de espaço físico e equipamentos". O documento (confira a íntegra abaixo) estabelece que, para usar o prédio do hospital — incluindo um centro cirúrgico, além de outras instalações —, a Pro-Vitta paga ao Hospital R$ 100 mil por mês.
O documento também diz que a locação é "estritamente operacional, destinando-se exclusiva e especificamente a fornecer a infraestrutura física necessária para que a LOCATÁRIA possa executar e atender aos contratos administrativos de prestação de serviços de saúde firmados junto a Entes Públicos". No dia seguinte, 2 de dezembro de 2025, o Município de Curitiba, pela Secretaria Municipal da Saúde, assinou o Contrato nº 1174-FMS — o credenciamento para atendimento de trauma leve ao SUS — não com o Hospital XV, mas com a Pro-Vitta Associação Beneficente de Assistência Social e Saúde — Filial XV. Valor: até R$ 1.249.135,30 por mês.
Nove semanas depois, em 19 de fevereiro de 2026, o Hospital XV pediu ao juízo da 2ª Vara de Falências de Curitiba a decretação da sua própria falência, admitindo não ter condições de honrar o plano de recuperação judicial ao qual estava submetido desde 2019. A falência foi decretada em 17 de março de 2026.
E, em 30 de junho de 2026, a administradora judicial responsável pela massa falida revelou, em resposta a uma credora que cobrava explicações sobre o convênio com a Prefeitura, algo que o release de dezembro não deixava claro: o Hospital XV nunca foi parte do contrato com o Município. Quem assinou o credenciamento junto à Secretaria Municipal da Saúde foi a Pro-Vitta Associação Beneficente de Assistência Social e Saúde — Filial XV, uma entidade juridicamente distinta que, segundo os próprios autos, passou a ocupar o centro cirúrgico e o pronto-atendimento do Hospital XV pagando aluguel de R$ 100 mil por mês.
O que a Prefeitura anunciou
Segundo o release oficial, desde 9 de dezembro de 2025 o Hospital XV vinha atendendo pacientes encaminhados pelas UPAs de Curitiba, somando mais de 300 atendimentos até a data da cerimônia. A Prefeitura anunciou uma capacidade de 60 a 80 pacientes por dia — entre 1.800 e 2.400 por mês — em casos de trauma leve, aliviando a sobrecarga dos três hospitais que até então concentravam os encaminhamentos da rede de urgência (Hospital do Trabalhador, Hospital Cajuru e Hospital Mackenzie).
A secretária municipal da Saúde, Tatiane Filipak, foi fotografada ao lado do prefeito e do diretor do Hospital XV, José Lazzarotto, na cerimônia de assinatura. Entre os presentes, o release cita Ricardo Moreira Rego como "diretor da Associação Beneficente de Assistência Social e Saúde Pró-Vitta, mantenedora do Hospital XV" — uma única linha que, lida hoje à luz dos autos da falência, resume a confusão que se repetiria mais tarde na Justiça.
Ou seja: dezesseis dias antes do "ato simbólico" fotografado no gabinete do prefeito, o instrumento que a Prefeitura celebrou publicamente como a assinatura do credenciamento já estava assinado — e não pelo Hospital XV.
A distinção só ficou clara nos autos da falência quando a credora Fujicare Cuidados em Saúde pediu, em abril de 2026, que fossem juntados os termos integrais do "credenciamento/contrato firmado com o Município" para entender como um hospital falido continuava operando um serviço público essencial. A administradora judicial respondeu, em junho:
"o Hospital XV Ltda. não celebrou e não é signatário de qualquer contrato administrativo com o Município de Curitiba."
E foi mais longe: os recursos do SUS "não transitam pelo caixa da massa falida", e a única receita que o hospital falido recebe da parceria é o aluguel de R$ 100 mil pago pela Pro-Vitta — não repasse público algum. A verdade é que mesmo antes da falência o Hospital não poderia ser contratado pela Prefeitura, uma vez que a instituição tem uma dívida com o município.
Mas essa separação formal entre as duas empresas não se repete no chão do hospital. Um levantamento do Plural a partir de dados públicos do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde, mostra que a Pró-Vitta e o Hospital XV compartilham, na prática, a mesma equipe. O próprio CNES confirma, campo a campo, a versão da administradora judicial — é a Pró-Vitta (CNES 8044325) quem aparece com contrato administrativo formalizado junto ao poder público, enquanto o Hospital XV (CNES 3005585, que o sistema do Ministério da Saúde ainda cadastra sob a razão social "Hospital XV Ltda Em Recuperação Judicial", sem registrar a falência decretada em março) não tem contrato formalizado nenhum.
Só que, ao cruzar os dois cadastros de profissionais pelo número do Cartão Nacional de Saúde (CNS), identificador único de cada trabalhador da saúde, o Plural encontrou 99 profissionais em comum entre as 161 pessoas cadastradas na Pró-Vitta e as 258 do Hospital XV — quase dois terços de todo o quadro da associação. A coincidência é maior justamente no núcleo histórico do hospital, fundado em 1957: dos 41 médicos ortopedistas e traumatologistas cadastrados na Pró-Vitta, 31 — mais de três em cada quatro — já estavam no quadro do Hospital XV antes de a associação assumir o credenciamento com o SUS. A repetição se estende a enfermeiros, técnicos de enfermagem, anestesiologistas e médicos residentes. Isto é, o paciente que passa pelo Pronto Atendimento do trauma leve é recebido, com poucas exceções, pela mesma equipe médica do Hospital XV de sempre — só a razão social que assina o contrato com a Prefeitura mudou.
A imprecisão não ficou só no release da Prefeitura veiculado em dezembro. Ao decretar a falência, em 17 de março de 2026, a juíza da 2ª Vara de Falências autorizou a continuidade provisória das atividades hospitalares citando, entre os motivos, o "recente convênio firmado com o SUS" e a "celebração de contrato com o SUS por intermédio da Prefeitura" — tratando o vínculo da Pro-Vitta com o Município como se fosse um ativo do próprio Hospital XV, exatamente a mesma imprecisão do comunicado da Prefeitura três meses antes. Só depois, em resposta à petição da Fujicare, a administradora judicial corrigiu a informação.
Essa confusão entre o Hospital XV e a Pró-Vitta passou inclusive pela Câmara Municipal de Curitiba. Em resposta a um pedido de informação da vereadora Giorgia Prates (PT), a Prefeitura informou que o contrato foi firmado com a Pró-Vitta — depois de o Plural ter noticiado esse fato — e incluiu a documentação do edital que resultou na contratação. Entre as quase mil páginas, está uma ata de Assembleia Geral da Pró-Vitta de 21 de maio de 2024 incluindo, entre as filiais da organização, o Hospital XV — antes de a instituição celebrar o contrato de aluguel com o hospital.
Por que isso é importante?
A discussão sobre quem, de fato, tem um contrato com a prefeitura é parte do processo de habilitação de credores da massa falida do Hospital XV. Isso porque a receita e os bens do hospital, por causa da falência, são controlados pela Justiça. E os saques e pagamentos da instituição só são realizados com alvará judicial.
Esse controle todo existe para garantir recursos para honrar as dívidas da empresa falida. No caso do Hospital XV, a lista de quem tem dinheiro a receber da empresa inclui além da Prefeitura de Curitiba e a União, trabalhadores da empresa que não receberam suas verbas rescissórias, pacientes que ganharam processos judiciais contra o hospital por erro médico, além de fornecedores como a Fujicare.
Confira os documentos citados nesta reportagem: