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De dez estrelas na Rua XV ao Mickey no Barigui: como o Natal virou um dos maiores gastos de evento da Prefeitura de Curitiba

Em 2017, a Prefeitura alugava dez estrelas para a Rua XV e procurava patrocinador para o resto. Em 2025, o Natal custou ao município R$ 20,6 milhões, R$ 4,2 milhões deles para ser cidade-sede da Disney.

De dez estrelas na Rua XV ao Mickey no Barigui: como o Natal virou um dos maiores gastos de evento da Prefeitura de Curitiba
Árvore de Natal iluminada em frente ao Prédio Histórico da UFPR, na Praça Santos Andrade, no Natal de 2025. A locação de árvores e da decoração custou ao Instituto Municipal de Turismo R$ 9,3 milhões naquele ano. Foto: Tami Taketani/Plural
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Em 2017, a Prefeitura de Curitiba abriu licitação para dez Estrelas de Belém na Rua XV de Novembro, por R$ 168,5 mil, e procurou uma empresa privada para bancar o resto da decoração. Oito anos depois, o Natal de 2025 custou ao município pelo menos R$ 20,6 milhões. Desse total, R$ 4,2 milhões foram pagos só para Curitiba ser "cidade-sede" de um espetáculo da Disney. Em 2026 o título custa R$ 4,8 milhões, e a conta deste Natal, a pouco mais de duas semanas da abertura, marcada para 24 de novembro, já passa de R$ 6,7 milhões sem incluir a decoração.

A história começa num aviso de licitação de poucas linhas. No Diário Oficial do Município de 31 de outubro de 2017, o Instituto Municipal de Turismo (IMT) anunciou um pregão para "confecção e instalação de estruturas metálicas (Estrelas de Belém), com iluminação para decoração natalina da Rua XV de Novembro". O contrato saiu nove dias depois por R$ 168.500. Uma semana depois, um suplemento do Diário trouxe a outra metade do modelo: um chamamento para escolher uma empresa que quisesse patrocinar o "Luz dos Pinhais – Natal de Curitiba 2017", com a obrigação de cuidar da "promoção, organização, decoração e iluminação". A parte artística ficou com uma organização social, o Instituto Curitiba de Arte e Cultura (ICAC), contratado pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC) com dispensa de licitação por R$ 293.748.

Era esse o desenho do Natal curitibano no fim da década passada: a decoração era paga por patrocinadores privados em troca de publicidade, a programação era comprada por contrato com a organização social e a Prefeitura punha dinheiro em pedaços pontuais. Em 2018, o contrato do ICAC subiu para R$ 815.374, e o IMT contratou por R$ 323 mil o aluguel de árvores e contornos iluminados, dividido entre duas empresas: a Estelar Iluminação e a S. Almeida Eventos. Guarde o segundo nome.

A virada: o município passa a pagar a conta

Em 2020, primeiro Natal da pandemia, o modelo começou a mudar. Só em pregões de decoração, o IMT contratou R$ 137 mil em rosáceas iluminadas, R$ 98.900 e depois mais R$ 455.539 em árvores de Natal alugadas. Os dois contratos de árvores ficaram com a S. Almeida.

De 2021 em diante há dados para todos os anos, e a curva é de subida contínua. Somados o que o IMT efetivamente pagou pela decoração e pelas atrações e o que a FCC contratou de artistas e espetáculos, o Natal custou à Prefeitura:

Natal deInstituto Municipal de TurismoFundação Cultural de CuritibaTotalTotal corrigido pela inflação (set/2026)
2021R$ 1,37 milhãoR$ 0,42 milhãoR$ 1,79 milhãoR$ 2,25 milhões
2022R$ 2,46 milhõesR$ 1,24 milhãoR$ 3,70 milhõesR$ 4,40 milhões
2023R$ 4,91 milhõesR$ 1,77 milhãoR$ 6,68 milhõesR$ 7,59 milhões
2024R$ 4,44 milhõesR$ 4,45 milhõesR$ 8,89 milhõesR$ 9,64 milhões
2025R$ 13,50 milhõesR$ 7,12 milhõesR$ 20,62 milhõesR$ 21,44 milhões
2026 (até 6/11)R$ 4,80 milhõesR$ 1,98 milhãoR$ 6,78 milhões—

Em valores nominais, o Natal de 2025 custou 11,5 vezes o de 2021. Descontada a inflação do período (o IPCA subiu 21% entre dezembro de 2021 e dezembro de 2025), o gasto ficou 9,5 vezes maior. Em cinco anos, de 2021 a 2025, foram R$ 41,7 milhões, ou R$ 45,3 milhões em valores de setembro de 2026.

O ano em que os números não batiam

Montar essa tabela exigiu juntar duas fontes oficiais que, cada uma sozinha, contam histórias diferentes. A primeira é o conjunto de dados de licitações e contratações do Portal de Dados Abertos da Prefeitura, que mostra cada processo de compra e quanto foi empenhado, liquidado e pago em cada um. Ali aparecem 174 processos de 2021 a 2025 com o Natal no objeto. A segunda é o próprio Diário Oficial, onde sai cada contrato assinado.

De 2021 a 2023, as duas fontes contam a mesma história com poucas diferenças. Em 2024, deixam de contar. Nos dados abertos, a FCC aparece com apenas R$ 201 mil gastos no Natal daquele ano. No Diário Oficial, separados um a um os extratos de contrato que citam o Natal, são 622 contratos que somam R$ 4,45 milhões. A diferença tem explicação: a partir de 2024 a Fundação passou a contratar atores, músicos, bailarinos e técnicos por um credenciamento geral (o Edital 097/2024), cujo objeto não menciona o Natal. O dinheiro continuou saindo para a festa, mas os processos deixaram de dizer para quê. Um único contrato de dezembro de 2024, com a Paideia Produções Artísticas, para maestros e músicos, foi de R$ 638.650. Em 2025, pelo mesmo caminho, a FCC chegou a 647 contratos e R$ 7,12 milhões.

Por isso, nesta reportagem, a coluna da FCC vem do Diário Oficial (valor contratado) e a do IMT, dos dados abertos (valor efetivamente pago).

2025: o Natal da Disney

O salto de 2025 tem nome e endereço. Em 29 de julho daquele ano, o IMT ratificou no Diário Oficial uma inexigibilidade de licitação, a modalidade usada quando só um fornecedor pode entregar o serviço, para comprar "o título de Cidade-sede (Host City), à cidade de Curitiba, para o evento Disney Celebra: um Natal Inesquecível". O extrato do contrato com a Air Marketing e Entretenimento Ltda., a AirPromo, saiu em 1º de setembro: R$ 4,2 milhões, pagos com a ação orçamentária "Promoção e apoio a grandes eventos geradores de fluxos turísticos". O espetáculo foi montado no Parque Barigui. Em novembro, um termo publicado no Diário registrou o repasse gratuito de 3 mil ingressos, cedidos por uma empresa parceira ligada à Disney, a alunos da rede municipal.

A Disney não foi o único gasto grande daquele Natal. Pelo aluguel de árvores, artigos natalinos e contornos iluminados, o IMT pagou R$ 9,3 milhões em três pregões. A FCC contratou sem licitação a Labirinto Produções, por R$ 979.911,91, para dois espetáculos de projeção mapeada, "A Fantástica Fábrica de Emoções" e "Homenagem a Poty Lazzarotto e Loops de Natal". Também contratou a Paraná Cultura, por R$ 730 mil, para cinco dias do balé "O Quebra-Nozes" nas Ruínas de São Francisco.

E a empresa daquelas árvores de 2018 continuou no centro da festa. De 2021 a 2025, a S. Almeida Eventos recebeu R$ 13,7 milhões da Prefeitura em dez processos ligados ao Natal, quase todos de aluguel, montagem e desmontagem de árvores e decoração. É de longe a maior fornecedora do período, à frente da própria AirPromo (R$ 4,2 milhões) e da Estelar Iluminação (R$ 3,7 milhões).

2026: mais caro, e a conta ainda aberta

Neste ano o Mickey ficou mais caro. A nova inexigibilidade, publicada em 17 de setembro de 2026, e o contrato de 23 de setembro fixam R$ 4,8 milhões para a mesma AirPromo, R$ 600 mil a mais que em 2025, como o Plural mostrou em setembro. O contrato vale até 22 de março de 2027.

A FCC já está contratando o resto da programação. Entre 18 de setembro e 5 de novembro, o Diário publicou 12 autorizações de contratação sem licitação para o "Natal de Curitiba 2026", que somam R$ 1.975.050. Só o elenco e os técnicos do Parque Tingui, de 16 de novembro a 23 de dezembro, custam R$ 374.640. Os do Largo da Ordem, R$ 256.230.

O que ainda não tem preço é justamente a parte que mais pesou em 2025: a decoração do IMT. Estão abertos quatro pregões, e os avisos publicados no Diário não trazem o valor estimado. São eles: um espetáculo cênico de águas no Parque Tingui (Pregão 04/2026), uma atração natalina (06/2026), o aluguel de árvores (07/2026, lances em 17 de novembro) e a decoração iluminada da cidade (08/2026, publicado em 5 de novembro). Por isso, os R$ 6,78 milhões de 2026 são um piso.

O patrocínio privado continua existindo e corre em paralelo. Em 21 de outubro, a comissão do IMT publicou o resultado da seleção de empresas que bancam atrações em troca de "cotas de contrapartida de publicidade". Um dos lotes, o do Passeio Público, foi alvo de impugnação de entidades de proteção animal. Esse dinheiro não passa pelo orçamento e não entra nas contas desta reportagem. O que mudou desde 2017 é que o patrocínio deixou de ser o centro do Natal e virou complemento de uma festa que a Prefeitura paga cada vez mais.

O que fica de fora da conta

Os números acima contam só o que está identificado como Natal nos contratos e nos processos. Não entram as horas de trabalho de servidores e da Guarda Municipal, a limpeza e a energia elétrica dos locais de evento, a publicidade institucional e as compras feitas por contratos genéricos de som, palco ou segurança usados em vários eventos do ano. O contrato de gestão em vigor com o ICAC, hoje de até R$ 2 milhões por mês, cobre a estrutura geral da FCC e não separa quanto vai para o Natal. O custo real da festa, portanto, é maior.

Perguntas rápidas

Quanto a Prefeitura de Curitiba gastou com o Natal de 2025?

Pelo menos R$ 20,6 milhões: R$ 13,5 milhões pagos pelo Instituto Municipal de Turismo, incluindo R$ 4,2 milhões pelo título de cidade-sede da Disney, e R$ 7,1 milhões contratados pela Fundação Cultural de Curitiba.

Quanto Curitiba paga para receber o Natal da Disney?

R$ 4,2 milhões em 2025 e R$ 4,8 milhões em 2026, pagos à Air Marketing e Entretenimento (AirPromo) por inexigibilidade de licitação, pelo título de "cidade-sede" do evento "Disney Celebra: um Natal Inesquecível".

O gasto com o Natal aumentou?

Sim. Passou de R$ 1,79 milhão em 2021 para R$ 20,62 milhões em 2025, 11,5 vezes mais. Descontada a inflação, o aumento é de 9,5 vezes.

Quanto já foi contratado para o Natal de 2026?

Até 6 de novembro de 2026, R$ 6,78 milhões: R$ 4,8 milhões da Disney e R$ 1,98 milhão da Fundação Cultural. A decoração ainda está em licitação, com quatro pregões sem valor publicado.

O patrocínio privado entra nessa conta?

Não. As empresas que bancam atrações em troca de publicidade não passam dinheiro pelo orçamento municipal, por isso não foram somadas.

Como esta reportagem foi produzida

Os valores de 2021 a 2025 do Instituto Municipal de Turismo vêm do conjunto "Licitações e Contratações" do Portal de Dados Abertos da Prefeitura de Curitiba, com processos publicados até 1º de julho de 2026. Entraram os processos cujo objeto cita o Natal ("natal", "natalino", "Luz dos Pinhais", "Papai Noel", "presépio"). Ficaram de fora os que só tinham a palavra por acaso ("neonatal", "pré-natal"), a compra de cartões das linhas Turismo e Natal do transporte e a compra de aves natalinas para o Armazém da Família. O valor usado é o liquidado (o serviço entregue e reconhecido), atribuído ao ano em que o processo foi publicado.

Os valores da Fundação Cultural de Curitiba e todos os de 2026 vêm do Diário Oficial do Município, até a edição nº 206, de 6 de novembro de 2026. Foram contados os extratos de contrato e as autorizações de contratação que citam o Natal, sem repetir os republicados. Contratos publicados de dezembro a março entram no Natal do ano anterior. É valor contratado, não necessariamente pago.

Os anos de 2017 a 2020 vêm só do Diário Oficial e estão incompletos: há contratos citados sem valor localizado. Por isso aparecem no texto como exemplos, não como série.

A correção pela inflação usa o IPCA do IBGE (tabela 1737 do Sidra), de dezembro de cada ano até setembro de 2026.

Fontes: Portal de Dados Abertos da Prefeitura de Curitiba, Diário Oficial do Município e IBGE. Última atualização: 7 de novembro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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