A Prefeitura de Curitiba fechou, sem licitação, um novo contrato de aluguel do Edifício Royal Business, na Avenida Senador Souza Naves, 312, no Alto da XV, sede da Secretaria Municipal de Defesa Social e Trânsito (SMDT): R$ 210 mil por mês, R$ 5,04 milhões em 24 meses (Diário Oficial do Município nº 204, de 4 de novembro de 2026). O valor é 26% maior do que os R$ 166.675,35 pagos até outubro; a inflação medida pelo IPCA de novembro de 2025 a setembro de 2026 foi de 4,5%.
Até aqui, o aluguel do prédio tinha sido corrigido todo ano pelo IPCA, e só por ele. O salto de agora veio de uma negociação registrada no processo administrativo do contrato: a própria Prefeitura propôs manter os R$ 166,7 mil; a dona do prédio pediu R$ 245 mil por mês por cinco anos; a Comissão de Avaliação de Imóveis do Município respondeu, no dia seguinte ao pedido, que o valor de mercado estava "entre R$ 203.500,00 e R$ 210.000,00"; e o contrato saiu pelo teto da faixa.
A reportagem leu os extratos dos contratos no Diário Oficial do Município (DOM) desde 2016, os processos administrativos da locação de 2022 e da de 2026, a certidão de matrícula do imóvel e os empenhos do contrato, e comparou os valores com o IPCA do IBGE.
O contrato: 24 meses, sem licitação
O Contrato nº 28.319 foi assinado em 29 de outubro de 2026 com a Lopes Administração e Locações Ltda. e publicado no DOM nº 204, de 4 de novembro (p. 116). Vale de 1º de novembro de 2026 a 30 de outubro de 2028. O imóvel tem 3.603,05 m² de área construída num terreno de 783 m², e a finalidade, segundo o extrato, é a "instalação da Sede da Secretaria Municipal de Defesa Social e Trânsito". O processo descreve o prédio como sete andares e três subsolos que atendem "aproximadamente 240 (duzentos e quarenta) servidores, em regime de escalas e turnos".
A contratação foi feita por inexigibilidade de licitação. O secretário municipal de Defesa Social e Trânsito, Rafael Ferreira Vianna, autorizou em 27 de outubro a Inexigibilidade nº 109/2026 (DOM nº 200, pp. 14–15), com base no artigo 74, inciso V, da Lei federal nº 14.133/2021, que torna inexigível a licitação na locação de imóvel "cujas características de instalações e de localização tornem necessária sua escolha". O ato cita também o § 5º do artigo, que exige avaliação prévia do imóvel, certificação de que não há imóvel público vago que atenda à necessidade e justificativa da escolha. No processo, a Secretaria Municipal de Administração e Tecnologia da Informação (SMATI) informou que não havia imóvel público disponível com as características pedidas.
Pelo novo contrato, a Prefeitura paga R$ 58,28 por m² de área construída ao mês, contra R$ 40,24 em 2022 e R$ 46,26 até outubro de 2026.
A negociação: R$ 166,7 mil, R$ 245 mil, R$ 210 mil
O processo nº 01-168147/2026 foi aberto pela SMDT em 24 de junho. O Estudo Técnico Preliminar, documento que justifica a contratação, estimou o aluguel em R$ 166.675,35 por mês, o valor então em vigor. O estudo considerou desnecessário o "levantamento de alternativas no mercado", porque se tratava de "migração e continuidade de locação de imóvel onde a Administração já se encontra plenamente instalada e operante". E registrou que o prédio foi adaptado sob encomenda para a secretaria — no modelo chamado built to suit — e que "os valores de adaptação da edificação foram diluídos na contratação" de 2022.
Em 9 de setembro, a Gerência de Locação de Imóveis da SMATI propôs à empresa manter os R$ 166.675,35 por mais 12 meses. Em 15 de setembro, o sócio Calixto Lopes Ferreira respondeu com uma contraproposta de R$ 245 mil por mês, por 60 meses, apoiada num laudo da Câmara de Valores Imobiliários do Paraná contratado pela locadora. Na tarde do mesmo dia, a gerência pediu à Comissão de Avaliação de Imóveis (CAI) que avaliasse o prédio. Às 11h23 de 16 de setembro, a comissão respondeu, em duas linhas, que o valor de locação mensal "está entre R$ 203.500,00 (duzentos e três mil e quinhentos reais) e R$ 210.000,00 (duzentos e dez mil reais)".
O contrato foi fechado por R$ 210 mil, o valor mais alto da faixa, com prazo de 24 meses — o dobro do que a Prefeitura propôs e menos da metade do que a empresa pediu. O extrato cita o Laudo de Avaliação nº 166/2026, da CAI, mas a íntegra do laudo, com o método e a memória de cálculo, não está nos documentos do processo consultados pela reportagem nem foi publicada no Diário Oficial.
Corrigidos pelo IPCA de novembro de 2025 a setembro de 2026, último mês divulgado pelo IBGE, os R$ 166.675,35 chegariam a cerca de R$ 174,1 mil. O mesmo valor se obtém corrigindo os R$ 145 mil do contrato original, de 2022, pela inflação acumulada desde então (20,1%). O novo aluguel fica 20,6% acima disso.
Quatro anos de reajuste pela inflação
O aluguel começou com o Contrato nº 25.026, assinado em outubro de 2022 com a Construtora Lopes Ltda. (DOM nº 206, de 31 de outubro de 2022, p. 160), por 36 meses, a R$ 145 mil por mês. Também foi sem licitação: o então secretário Péricles de Matos ratificou a dispensa com base no artigo 24 da Lei nº 8.666/1993 (DOM nº 202, de 25 de outubro de 2022, p. 10). O contrato obrigava a locadora a entregar o prédio adaptado ao layout da secretaria — piso elevado, divisórias, forro, iluminação, rede elétrica e de telefonia, ar-condicionado nas salas da direção, banheiro acessível, entre 20 itens — e previa que o aluguel só seria devido a partir da entrega das chaves. A vistoria de entrada no imóvel é de 24 de janeiro de 2023, e os atos da secretaria passam a indicar o prédio como sede em maio de 2023.
Os empenhos do contrato mostram que o valor foi reajustado a cada 12 meses exatamente pelo IPCA de novembro a outubro: 4,82% em 2023, 4,76% em 2024 e 4,68% em 2025. O aditivo publicado em outubro de 2025 (DOM nº 202, de 24 de outubro de 2025, p. 66) prorrogou o contrato por mais um ano com o valor já reajustado, R$ 159.223,68, e registrou a troca do nome da empresa; o reajuste seguinte, para R$ 166.675,35, foi formalizado por apostila em fevereiro de 2026, com pagamento retroativo a novembro de 2025.
| Período | Valor mensal | Variação | Ato |
|---|---|---|---|
| nov/2022 a out/2023 | R$ 145.000,00 | — | Contrato 25.026 (DOM 206/2022) |
| nov/2023 a out/2024 | R$ 151.989,00 | +4,82% (IPCA) | reajuste anual (empenhos) |
| nov/2024 a out/2025 | R$ 159.223,68 | +4,76% (IPCA) | reajuste anual; Aditivo 25.026/01 (DOM 202/2025) |
| nov/2025 a out/2026 | R$ 166.675,35 | +4,68% (IPCA) | apostila de fevereiro de 2026 |
| nov/2026 a out/2028 | R$ 210.000,00 | +25,99% | Contrato 28.319 (DOM 204/2026) |
Ou seja: a inflação dos quatro anos já tinha sido repassada ao aluguel. Os 26% de agora são aumento além dela, sobre um prédio cuja adaptação, segundo a própria Prefeitura, já estava paga no valor de 2022.
Somados os valores contratados, o aluguel do Royal Business terá custado R$ 12,51 milhões de novembro de 2022 a outubro de 2028, se o novo contrato for cumprido até o fim — R$ 7,47 milhões até outubro de 2026 e R$ 5,04 milhões nos próximos dois anos.
Em 2022, a Prefeitura ofereceu R$ 134 mil
O processo de 2022 (nº 01-157848/2022) mostra que a negociação começou antes da pandemia. Segundo e-mail da Imobiliária Freitas Godoi, que representava a construtora, a primeira proposta, de 2020, era de R$ 149 mil por mês. Em março de 2022, a Prefeitura ofereceu R$ 134 mil; a imobiliária respondeu com R$ 145 mil, citando a inflação, a alta do material de construção e o "investimento que a Locadora fará" para adaptar o prédio. Em junho, a negociação foi suspensa porque a SMDT "não apontou disponibilidade orçamentária e financeira"; foi retomada em agosto, e a secretaria aceitou os R$ 145 mil em 5 de setembro de 2022.
O laudo da CAI daquele ano, o nº 133/2022, saiu em 19 de setembro, depois do acordo. Descreve o método de cálculo — comparação com dados de mercado para o terreno e custo de reposição para a construção — e chega a R$ 148 mil por mês, R$ 41,10 por m². O contrato ficou 2% abaixo do laudo. Em 2026, ficou no limite máximo da faixa informada pela comissão.
A dona do prédio
A certidão da matrícula nº 55.252 do 3º Registro de Imóveis de Curitiba mostra que o Edifício Royal Business foi incorporado e construído pela própria Construtora Lopes Ltda., dona do terreno. A obra foi concluída em 2018 e o condomínio, instituído em 2019. Em 27 de outubro de 2025, a matrícula registrou a mudança do nome da proprietária para Lopes Administração e Locações Ltda. — é a mesma empresa, com o mesmo CNPJ (03.430.807/0001-52). Ou seja: quem construiu o prédio, quem o adaptou para a secretaria e quem o aluga à Prefeitura é a mesma pessoa jurídica.
Pelo cadastro da Receita Federal, a empresa foi aberta em 4 de outubro de 1999 e está ativa, com sede na Rua Doutor Faivre, no Centro. A atividade principal registrada é locação de automóveis sem condutor; entre as secundárias estão incorporação imobiliária, construção de edifícios e aluguel e compra e venda de imóveis próprios. São sócios-administradores, desde a abertura, Calixto Lopes Ferreira e Cecilia Openkoski Lopes Ferreira; Marcus Vinicius Lopes Ferreira e Robson Luis Lopes Ferreira entraram na sociedade em 2024 e 2025.
O que o prédio substituiu
Segundo o processo de 2022, o Royal Business veio para unificar a secretaria, então "pulverizada em diversos locais", e substituiu dois contratos de aluguel. O nº 20.503, de 2012, com a Companhia de Habitação Popular de Curitiba (COHAB-CT), empresa do próprio Município, cobria a Rua Capitão Souza Franco, 13, no Batel, e a Avenida Vicente Machado, 1.396, e custava R$ 33.431,12 por mês em 2022. O nº 21.223, de 2013, cobria o prédio da Rua Benjamin Constant, 157/169, antiga sede da Secretaria de Trânsito, com 1.665 m² construídos, a R$ 42.123 por mês (DOM nº 101, de 27 de maio de 2022, p. 95), ou R$ 25,30 por m².
Juntos, os dois contratos custavam R$ 75.554,12 por mês. O Royal Business começou 92% acima disso e passa agora a custar 2,8 vezes aquela soma. A área total dos imóveis do Batel e da Vicente Machado não consta dos documentos, por isso a comparação por metro quadrado só é possível com o da Benjamin Constant. O contrato da Benjamin Constant foi rescindido a partir de 20 de abril de 2023 (DOM nº 131, de 14 de julho de 2023, p. 100), quase seis meses depois do início do novo aluguel.
Os outros aluguéis da secretaria
O Royal Business não é o único imóvel alugado pela SMDT. Desde 2015, a secretaria aluga da RGB Administradora de Bens Ltda. o imóvel da Avenida Salgado Filho, 374, esquina com a Rua Thomas Edison — 1.599,47 m² construídos num terreno de 5.360 m² —, contratado para o Departamento de Fiscalização da antiga Secretaria de Trânsito (Contrato nº 21.936). O aluguel começou em R$ 77.767,50 e está hoje em R$ 107.810,89 por mês, 38,6% a mais, depois de um aditivo de 2021 que elevou o valor com base em novo laudo da CAI (DOM nº 131, de 7 de julho de 2021, p. 168). O contrato foi prorrogado até 31 de março de 2027 (DOM nº 44, de 9 de março de 2026, pp. 80–81).
Em maio de 2026, a secretaria alugou também, da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, um imóvel de 439,46 m² na Rua Barão do Cerro Azul, 81, no Centro, para a Patrulha de Proteção ao Turista, a R$ 13.125 por mês por cinco anos (Contrato nº 27.647, DOM nº 89, de 18 de maio de 2026, p. 91).
Com o novo contrato, a SMDT passa a pagar pelo menos R$ 330.935,89 por mês em aluguel de imóveis nos três contratos em vigor localizados pela reportagem.
Sem resposta
O Plural enviou à assessoria da Secretaria Municipal de Defesa Social e Trânsito perguntas sobre o laudo que fundamentou o valor, a escolha do teto da faixa da comissão, o aumento acima da inflação num prédio cuja adaptação já foi amortizada, a pesquisa de outros imóveis e o gasto total da secretaria com aluguéis. Até o fechamento desta edição, a secretaria não havia respondido.
Perguntas rápidas
Quanto a Prefeitura vai pagar pelo aluguel da sede da Defesa Social e Trânsito?
R$ 210 mil por mês, R$ 5,04 milhões em 24 meses, de 1º de novembro de 2026 a 30 de outubro de 2028, pelo Contrato nº 28.319, publicado no DOM nº 204, de 4 de novembro de 2026.
Quanto o aluguel subiu?
25,99% em relação aos R$ 166.675,35 pagos até outubro de 2026. A inflação medida pelo IPCA de novembro de 2025 a setembro de 2026 foi de 4,48%. De 2022 a 2025, o aluguel foi reajustado todo ano apenas pelo IPCA.
Como se chegou a R$ 210 mil?
A Prefeitura propôs manter R$ 166.675,35; a locadora pediu R$ 245 mil por 60 meses; a Comissão de Avaliação de Imóveis do Município informou que o valor de mercado estava entre R$ 203,5 mil e R$ 210 mil, e o contrato foi fechado pelo valor máximo, por 24 meses.
Houve licitação?
Não. A secretaria autorizou a Inexigibilidade nº 109/2026, com base no artigo 74, inciso V, da Lei nº 14.133/2021. O contrato de 2022 também foi feito sem licitação, por dispensa.
Quem é o dono do prédio?
A Lopes Administração e Locações Ltda., antiga Construtora Lopes Ltda., que construiu o Edifício Royal Business, segundo a matrícula nº 55.252 do 3º Registro de Imóveis. Os sócios-administradores são Calixto Lopes Ferreira e Cecilia Openkoski Lopes Ferreira.
Quanto o aluguel terá custado de 2022 a 2028?
R$ 12,51 milhões em valores contratados, se o novo contrato for cumprido até o fim.
Quanto a secretaria gasta com aluguéis?
Pelo menos R$ 330.935,89 por mês nos três contratos em vigor localizados pela reportagem: Royal Business (R$ 210 mil), Avenida Salgado Filho, 374 (R$ 107.810,89) e Rua Barão do Cerro Azul, 81 (R$ 13.125).
Como esta reportagem foi produzida
A reportagem leu no Diário Oficial do Município os extratos dos contratos nº 28.319 (DOM nº 204, de 4 de novembro de 2026), nº 25.026 (DOM nº 206, de 31 de outubro de 2022) e de seu aditivo (DOM nº 202, de 24 de outubro de 2025), a autorização da Inexigibilidade nº 109/2026 (DOM nº 200, de 27 de outubro de 2026), a ratificação da dispensa de 2022 (DOM nº 202, de 25 de outubro de 2022) e os extratos dos contratos de aluguel da secretaria publicados desde dezembro de 2016. Consultou também os processos administrativos nº 01-168147/2026 e nº 01-157848/2022, com os estudos técnicos, as propostas, as trocas de mensagens da negociação, o laudo de 2022 e a certidão de matrícula do imóvel; os contratos originais nº 20.503, 21.223 e 21.936; e a lista de contratos do Portal da Transparência e os empenhos publicados no portal de dados abertos da Prefeitura, de onde vêm os valores mensais de 2023 a 2026. A inflação foi calculada com o número-índice do IPCA do IBGE, com base no mês de outubro anterior a cada período, até setembro de 2026, último mês divulgado. O valor por metro quadrado considera a área construída informada nos contratos. O total de 2022 a 2028 soma valores contratados, não pagamentos. A soma dos aluguéis da secretaria considera apenas os contratos localizados e pode não ser completa. A secretaria foi procurada e não respondeu.
Fontes: Diário Oficial do Município de Curitiba nº 204, de 4 de novembro de 2026 (p. 116); nº 200, de 27 de outubro de 2026 (pp. 14–15); nº 202, de 25 de outubro de 2022 (p. 10); nº 206, de 31 de outubro de 2022 (p. 160); nº 202, de 24 de outubro de 2025 (p. 66); nº 101, de 27 de maio de 2022 (p. 95); nº 131, de 14 de julho de 2023 (p. 100); nº 131, de 7 de julho de 2021 (p. 168); nº 44, de 9 de março de 2026 (pp. 80–81); nº 89, de 18 de maio de 2026 (p. 91); processos administrativos nº 01-168147/2026 e nº 01-157848/2022; matrícula nº 55.252 do 3º Registro de Imóveis de Curitiba; Portal da Transparência e portal de dados abertos da Prefeitura de Curitiba; IBGE, IPCA (tabela 1737); Receita Federal, Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica. Última atualização: 6 de novembro de 2026.