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José Mao fala sobre a Revolução Cubana durante programação do Outubro Vermelho, em Curitiba

Vocalista da banda punk Garotos Podres é doutor em História Social Econômica pela USP e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo

José Mao fala sobre a Revolução Cubana durante programação do Outubro Vermelho, em Curitiba
O vocalista da banda punk Garotos Podres esteve no Manifesto Café | Foto: Aline Reis/Plural.

No domingo, 1 de novembro, véspera do feriado do Finados, o Manifesto Café, na avenida Iguaçu, em Curitiba, estava – como de praxe – lotado. Além dos cafés especiais e s pães artesanais, o público aguardava a chegada de José Mao, vocalista da banda punk Garotos Podres, doutor em História Social Econômica e palestrante do dia. Ele falou sobre a Revolução Cubana e integrou a programação do Outubro Vermelho, organizado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Mao falou por quase uma hora, para uma plateia atenta formada por membros do partido, mas também por pessoas que não têm nenhuma filiação. Ele fez um apanhado sobre a revolução cubana e a luta pela soberania da ilha.

1959

A fuga do ditador Fulgêncio Batista, em 1º de janeiro de 1959, marcou a vitória da Revolução Cubana, mas o movimento que levou Fidel Castro ao poder começou muito antes. A luta contra a influência dos Estados Unidos, a concentração de terras, a desigualdade social e a sucessão de governos autoritários formaram o cenário de uma revolta que mobilizou estudantes, trabalhadores e camponeses.

Para o historiador José Mao, a compreensão da revolução exige olhar para a própria formação histórica de Cuba e para as disputas em torno de sua independência. Cuba permaneceu sob domínio espanhol mesmo depois de boa parte da América Latina conquistar a independência, no início do século 19. A emancipação da ilha foi tardia e marcada por conflitos que envolveram diferentes setores da sociedade. Uma das razões apontadas por Mao para essa demora foi o receio da elite escravista cubana de que uma revolta pela independência desencadeasse um processo semelhante ao da Revolução Haitiana, que aboliu a escravidão e rompeu com o domínio colonial francês.

A primeira guerra de independência cubana começou em 1868. O processo foi retomado em 1895, sob a liderança de José Martí, intelectual e símbolo do nacionalismo cubano. A guerra contra a Espanha terminou com a intervenção dos Estados Unidos, em 1898. No ano seguinte, as tropas norte-americanas passaram a administrar a ilha.

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Embora Cuba tenha conquistado formalmente a independência em 1902, a influência dos Estados Unidos permaneceu presente na política e na economia do país. Um dos mecanismos dessa interferência foi a Emenda Platt, incorporada à Constituição cubana, que autorizava os norte-americanos a intervir militarmente na ilha sob determinadas justificativas. Os Estados Unidos também mantiveram uma base naval em Guantánamo.

Na avaliação de Mao Júnior, esse período consolidou uma relação de dependência econômica. Empresas norte-americanas passaram a controlar grandes extensões de terra e parte expressiva da produção açucareira, enquanto acordos comerciais dificultavam a diversificação da economia cubana.

A situação se agravou com a volta de Fulgêncio Batista ao poder. Depois de governar constitucionalmente entre 1940 e 1944, ele retornou ao país e, em 1952, liderou um golpe militar que impediu a realização das eleições previstas para aquele ano. A ditadura foi marcada pela repressão aos opositores, pela corrupção e pela violência.

Do quartel Moncada à Sierra Maestra

A resistência armada ganhou força em 26 de julho de 1953, quando Fidel Castro, então um jovem advogado, liderou uma tentativa de tomada do quartel Moncada, em Santiago de Cuba. A ação fracassou, e dezenas de participantes foram mortos ou executados depois de capturados. Fidel e seu irmão Raul Castro foram presos.

Durante o julgamento, Fidel assumiu a própria defesa e denunciou a violência do regime. Seu discurso ficou conhecido como A história me absolverá, frase que se tornou uma das principais referências políticas do movimento. A pressão pública contribuiu para que Batista concedesse anistia aos presos políticos em 1955.

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Libertado, Fidel seguiu para o México, onde reorganizou o grupo revolucionário. Foi nesse período que se aproximou de Ernesto Che Guevara, médico argentino que se incorporou à preparação da luta armada. O grupo passou a se chamar Movimento 26 de Julho, em referência à data do Assalto ao quartel Moncada.

Em dezembro de 1956, 82 integrantes do movimento desembarcaram em Cuba a bordo do iate Granma. A expedição foi atacada pelo Exército de Batista, e apenas um pequeno grupo conseguiu sobreviver e alcançar a região montanhosa de Sierra Maestra.

A partir dali a guerrilha começou a se reorganizar. Um dos elementos decisivos para sua sobrevivência foi o apoio dos camponeses, que conheciam o território e ajudavam a proteger os combatentes. Mao Júnior destaca a atuação de lideranças locais, como Celia Sánchez, na articulação entre os guerrilheiros e a população rural.

A região de Sierra Maestra concentrava comunidades que resistiam ao avanço dos latifúndios e à expulsão de pequenos ocupantes de terras. A guerrilha encontrou, portanto, uma população que também tinha motivos para enfrentar a estrutura política e econômica vigente.

Entre 1957 e 1958, o movimento ampliou sua presença territorial e passou a conquistar apoio em diferentes regiões. O Exército de Batista, apesar da superioridade numérica e militar, encontrou dificuldades para derrotar os revolucionários.

Mao Júnior chama atenção para a dimensão popular dessa resistência. Ao comentar a ofensiva do governo contra os guerrilheiros, ele resume a diferença entre a força militar do regime e o apoio social conquistado pelo movimento: "Se por um lado eram 10 mil que cercavam os 300, por outro lado eram cerca de 7 milhões que cercavam esses 10 mil", destaca.

A vitória e a transformação socialista

No fim de 1958, as forças revolucionárias intensificaram as ofensivas. As colunas comandadas por Che Guevara e Camilo Cienfuegos avançaram pelo território cubano, enquanto Fidel Castro liderava operações no leste da ilha.

Em 1º de janeiro de 1959, Batista deixou o país. A fuga abriu caminho para a tomada do poder pelos revolucionários. A vitória foi celebrada em diferentes cidades, e Fidel chegou a Havana dias depois.

A mudança de governo, entretanto, foi apenas o início de uma profunda transformação. Em 1959, o novo governo iniciou a reforma agrária, desapropriou grandes propriedades e nacionalizou setores da economia, incluindo bancos e empresas estrangeiras. As medidas atingiram especialmente grupos empresariais norte-americanos e provocaram o agravamento das relações com Washington.

Em 1961, após a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, organizada com apoio dos Estados Unidos, Fidel declarou o caráter socialista da revolução. A aproximação com a União Soviética aprofundou o conflito com os norte-americanos, que romperam relações diplomáticas com Cuba e ampliaram as medidas de pressão econômica.

A tentativa de invasão também reforçou a mobilização interna em defesa do novo governo. Na avaliação apresentada por Mao, a resistência à intervenção estrangeira e o sentimento de soberania nacional foram elementos centrais da identidade política construída pela revolução, que há 67 anos levou o socialismo para a ilha.

Show

Depois da palestra, José Mao se apresentou no Basement Cultural com os Garotos Podres (ouça aqui a playlist da banda), com ingressos esgotados.

 

 

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Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

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