Entidades de descendentes de imigrantes da Polônia no Paraná não se manifestaram sobre a perseguição a duas eleitoras que declararam seus votos no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Dominik Tarcyński, deputado no Parlamento Europeu, ameaçou deportar as brasileiras por “disseminar o comunismo” e pediu para extremistas enviarem informações sobre elas nas redes sociais. Ele pertence ao partido de extrema direita PiS (Direito e Justiça) e apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência.
O Paraná tem o maior número descendentes do Brasil – cerca de 1,2 milhão de pessoas (300 mil delas em Curitiba), segundo estimativa do governo do estado. O Plural entrou em contato com o Consulado-Geral da Polônia em Curitiba, a Casa da Cultura Polônia Brasil e a Braspol (Representação Central da Comunidade Polono-Brasileira), mas não houve retorno até a noite desta sexta-feira (8). O espaço fica à disposição.
O Itamaraty confirmou que duas brasileiras procuraram a embaixada do Brasil em Varsóvia após a postagem do deputado na rede social X. Ele reproduziu uma foto das mulheres feita no dia do primeiro turno das eleições e pediu informações sobre elas “em caráter de urgência”. Elas usavam broches do PT e faziam o sinal de "L" com os dedos – para o eurodeputado, símbolos do comunismo.
“O Ministério das Relações Exteriores, por intermédio da Embaixada do Brasil em Varsóvia, foi notificado da situação pelas cidadãs brasileiras. O setor consular da Embaixada colocou-se à disposição para prestar assistência consular às nacionais, caso solicitado”, afirmou em nota o Itamaraty.
"Como a Polônia aceita a existência desse partido?"
Dividida pela Alemanha nazista e pela União Soviética na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Polônia tem uma lei que proíbe a disseminação de ideias nazistas ou da ideologia comunista no país. A contradição, aponta o historiador, escritor e jornalista Ulisses Iarochinski, é o partido de Dominik Tarcyński.
"O Partido Comunista foi proibido de existir, mas o fascismo e o nazismo foram proibidos na mesma lei. A pergunta é: como a Polônia aceita a existência desse partido Direito e Justiça? É um partido xenófobo", diz Iarochinski, que viveu dez anos na Polônia, é mestre em Ciências da Cultura e doutor em História, com foco na imigração polaca ao Brasil, pela Universidade de Cracóvia.
Para Iarochinski (que rejeita o gentílico polonês e usa apenas o polaco), a população do país tende a normalizar a extrema direita e repudiar a esquerda em função da grande influência da Igreja Católica – apesar de o país ter sido dividido e ocupado tanto por alemães quanto por soviéticos.
"Diz-se que ser polaco é ser católico. É um país rodeado de protestantes e ortodoxos. E eu diria que 70% da Igreja Católica na Polônia é fascista", afirma o historiador. "O partido tem um pensamento medieval. Eles vivem antes do Renascimento. Por eles, ainda existiriam fogueiras".
Ele destaca que um dos líderes do movimento extremista no país é o padre católico Tadeusz Rydzyk, fundador da emissora Rádio Maryja e da Universidade de Cultura Social e de Mídia em Toruń, na região central do país. "Durante toda a pandemia, a turma do Rydzyk comandou procissões sem máscara, fez o povo frequentar a igreja sem máscara e disse para não se vacinarem. O Rydzyk mantém eles no cabresto".
O PiS foi fundado em 2001 e esteve no poder em duas oportunidades, de 2005 a 2007, quando o primeiro-ministro foi Jarosław Kaczyński (cofundador do partido), e de 2015 a 2023, com três primeiros-ministros. Em dezembro de 2023, o Parlamento elegeu Donald Tusk, líder de uma aliança pró-União Europeia. O PiS é conservador, nacionalista, favorável a restrições na imigração e crítico do que considera como poder excessivo da União Europeia.