Pular para o conteúdo

Curitiba simula invasor armado em escolas e CMEIs desde 2005

A rede municipal de ensino de Curitiba inclui o cenário de invasão armada nos simulados de emergência de escolas e Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) desde 2005, ano em que o Programa Defesa Civil na Educação — Conhecer para Prevenir (CPP) foi criado

Curitiba simula invasor armado em escolas e CMEIs desde 2005
Alunos participam de simulação de emergência em escola. Foto: Luiz Costa/SMCS

A rede municipal de ensino de Curitiba inclui o cenário de invasão armada nos simulados de emergência de escolas e Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) desde 2005, ano em que o Programa Defesa Civil na Educação — Conhecer para Prevenir (CPP) foi criado, com 22 unidades-piloto, pela Defesa Civil do município. O programa foi ampliado a toda a rede ao longo dos anos — em outubro de 2019 já cobria as 404 unidades da época, segundo registro oficial da Prefeitura de Curitiba, com o protocolo de permanência segura para "tiroteios, invasões e outras situações de emergência" convivendo com os exercícios de abandono previstos para incêndio e inundação. A invasão desta sexta-feira (9) ao CMEI São Braz, na Rua Genauro Ferreira de Almeida, 79, encerrada quando a equipe de negociação da Polícia Militar matou o agressor e libertou as 13 crianças mantidas reféns, é a primeira ocorrência real com agressor armado dentro de uma unidade da rede municipal em 21 anos de programa.

O CPP foi criado em 2005 pela Defesa Civil do município, com 22 unidades-piloto, e desde o início abrigou o cenário de invasão armada entre as situações previstas pelo protocolo — a Lei Municipal 11.095/2004, que criou a Compdec, abriu a porta para que a Defesa Civil tratasse de emergências não meteorológicas em escolas. A estrutura normativa do programa foi consolidada depois: autorizado pela Lei Municipal 14.579/2014 e regulamentado pelo Decreto Municipal 852/2019. O decreto obriga cada escola e cada CMEI da rede a manter um Plano de Preparação para Emergência Local (PPEL) — documento interno com rotas de fuga, pontos de abrigo, lista de brigadistas e contatos de emergência. Também determina que o Grupo Gestor do programa, composto por representantes da SME, da Defesa Civil, da Guarda Municipal e da Coordenadoria do Sistema Integrado de Defesa Civil (COSEDI), se reúna a cada três meses.

Em outubro de 2019, segundo a própria prefeitura, o CPP já estava implantado nas 404 unidades da rede municipal e começava a ser estendido a instituições privadas, com treinamentos pela equipe da Defesa Civil. O registro oficial daquele ano cita expressamente a orientação para "a necessidade de permanência na unidade como em caso de tiroteios, invasões e outras situações de emergência" — oposta à evacuação prevista para incêndio e inundação.

O que mudou em abril de 2023

O cenário de invasor armado nos simulados não é novidade de 2023 — está no desenho do CPP desde a criação do programa. O que entrou naquele mês foi um pacote de investimentos em infraestrutura e vigilância, anunciado pela Prefeitura, então sob gestão de Rafael Greca (PSD), em resposta aos ataques a escolas em Blumenau (abril de 2023) e, antes, em Suzano (março de 2019). Em 20 de abril de 2023, cada escola e cada CMEI recebeu uma cota extra de R$ 2 mil pelo Fundo Rotativo para comprar ou manter itens de segurança — interfone, cadeado, portão, câmera.

O pacote incluiu ainda a ampliação da Muralha Digital, sistema de videomonitoramento integrado da Guarda Municipal; contrato da SME com a empresa G5 para monitoramento interno das unidades por sensores; colares de identificação para funcionários; e a criação de um Comitê Permanente para a Cultura da Paz na SME. Também reforçou a periodicidade e a abrangência dos simulados, embora o módulo de permanência segura em caso de invasão já estivesse em vigor desde a implantação do CPP.

Permanência segura, não evacuação

A orientação do CPP para o caso de invasão é a permanência segura — ficar dentro da unidade, trancado, em local protegido, até a resposta policial. É o oposto da evacuação, que vale para incêndio, enchente e vendaval. Foi esse o protocolo acionado no CMEI São Braz nesta sexta-feira: as crianças permaneceram no interior da unidade até a chegada da equipe de negociação da Polícia Militar, que entrou no imóvel, neutralizou o agressor por volta das 18h15 e libertou os 13 reféns, segundo informou a tenente Letícia Donadello.

A SME declarou, em 2025, que foram realizados 1.075 simulados em 440 unidades da rede municipal e em 16 instituições particulares conveniadas, com periodicidade mínima semestral e sem aviso prévio à direção. Depois de cada simulado, o PPEL da unidade é ajustado.

Um simulado de invasor documentado pela própria prefeitura ocorreu em 3 de abril de 2025 na Escola Municipal Julia Amaral di Lenna, no bairro Barreirinha, com acompanhamento do então prefeito Eduardo Pimentel (PSD). Participaram equipes da Defesa Civil, da Guarda Municipal e do Núcleo Regional de Educação.

As camadas da Polícia Militar

O CPP convive com outras duas camadas de prevenção, operadas pela Polícia Militar do Paraná: o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), aplicado a alunos do 5º ano em período integral — a SME anunciou a retomada da parceria com a PMPR — e a Patrulha Escolar Comunitária (BPEC), que faz patrulhamento ostensivo em escolas estaduais e aplica o Curso de Segurança Escolar Avançado, usado em treinamento conjunto com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) em março de 2024 no Colégio Estadual Cívico-Militar Ermelino de Leão.

A legislação em vigor é curta

A legislação municipal direta sobre o tema é curta. Além da Lei 14.579/2014 e do Decreto 852/2019, há a Lei Lucas (federal 13.722/2018 e municipal 15.346/2018), que exige profissionais com curso de primeiros socorros em cada unidade de ensino.

Dos projetos de lei apresentados na Câmara Municipal depois de Blumenau, nenhum virou lei. Entre os arquivados estão a Guarda Municipal Escolar Comunitária (Professor Silberto, 2019), a regulamentação da ronda escolar (Toninho da Farmácia, 2019), o monitoramento eletrônico em salas de creches (Zezinho Sabará, 2020), a autorização para moradia de guarda municipal dentro de escola (Sargento Tania Guerreiro, 2021), o totem da Muralha Digital com botão de pânico (Osias Moraes, 2023) e as câmeras com reconhecimento facial em CMEIs (Delegada Tathiana Guzella, 2025).

O que ainda tramita

Em análise na Câmara estão três projetos que mexem no protocolo em vigor: a Política Municipal de Proteção e Capacitação em Segurança Escolar (Lorens Nogueira, 005.00078.2026), a capacitação em primeiros socorros e resposta a emergências nas unidades de ensino (Delegada Tathiana Guzella, 005.00213.2026) e as diretrizes de protocolos de segurança nos cuidados íntimos de crianças nos CMEIs (Sargento Tania Guerreiro, 005.00161.2026).

Episódios recentes na rede

Nos últimos 12 meses, a Câmara Municipal tratou de pelo menos cinco episódios de invasão ou furto em unidades da rede: CMEI Moradias Augusta (CIC, invasão e subtração de equipamentos, setembro de 2026), CMEI Sylvia Orthof (Sítio Cercado, furto recorrente de fiação, setembro de 2026), CMEI Carlos Alberto (Guaíra, furtos de ar-condicionado, abril de 2026), Escola Municipal Rachel Mader Gonçalves (Uberaba, invasão nas dependências, outubro de 2025) e CMEI Maria Cazetta (Uberaba, furto de utensílios, janeiro de 2024).

No próprio bairro São Braz, o CMEI Nelson Buffara recebeu pedido de patrulhamento urgente do vereador Colpani em 2016, após "constantes assaltos", conforme o requerimento 044.11981.2016.

O CMEI São Braz, pelo Censo

Segundo o Censo Escolar 2025 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o CMEI São Braz — código INEP 41356543 — tem 47 crianças matriculadas, todas em creche, com até três anos de idade. O perfil completo da unidade, com indicadores de regularidade docente, estrutura e fundo rotativo, está no especial do Plural.

O que o dado não mostra

O número de simulados declarado pela SME em 2025 (1.075 em 440 unidades) não distingue, no agregado publicado, quantos foram do cenário de agressor armado e quantos foram de incêndio ou enchente, nem a distribuição entre escolas de ensino fundamental e CMEIs. Também não se tornou público o conteúdo do PPEL de cada unidade — por tratar de rotas de fuga e pontos de abrigo, o documento é interno, por desenho. Em 2019, o próprio registro da prefeitura mencionava que cada escola de uma regional recebia dois simulados por ano, de abandono; a frequência semestral declarada pela SME em 2025 é consistente com essa base.

O desfecho da ocorrência no CMEI São Braz também não permite, por si só, afirmar que o protocolo de permanência segura funcionou pelo próprio desenho do programa: a confirmação disso dependerá de o PPEL da unidade estar atualizado, da existência de brigada treinada em serviço no turno da tarde e do tempo entre o acionamento e a chegada da equipe de negociação da PM — informações que a Compdec, a SME e a PM-PR ainda não divulgaram.

Perguntas rápidas

Desde quando Curitiba simula invasão nas escolas?
Desde 2005, ano em que o Programa Defesa Civil na Educação — Conhecer para Prevenir (CPP) foi criado pela Defesa Civil do município, com 22 unidades-piloto. O cenário de invasão armada integra o desenho do programa desde a implantação. Em abril de 2023, após os ataques a escolas em Blumenau (abril de 2023) e em Suzano (março de 2019), a Prefeitura de Curitiba anunciou um pacote de reforço do CPP, com cota extra de R$ 2 mil por unidade no Fundo Rotativo, ampliação da Muralha Digital e contratos de monitoramento.

Qual é o protocolo em caso de invasão?
Permanência segura: ficar dentro da unidade, trancado, em local protegido, até a resposta policial. É o oposto da evacuação, que vale para incêndio, enchente e vendaval.

Quantos simulados foram feitos na rede municipal?
A SME declarou, em 2025, 1.075 simulados em 440 unidades da rede municipal e 16 instituições particulares conveniadas, com periodicidade mínima semestral e sem aviso prévio à direção.

Qual legislação sustenta o programa?
A Lei Municipal 14.579/2014, que autoriza o CPP, e o Decreto Municipal 852/2019, que o regulamenta e obriga cada unidade a manter um Plano de Preparação para Emergência Local (PPEL). Soma-se a Lei Lucas (federal 13.722/2018 e municipal 15.346/2018), que exige profissionais com curso de primeiros socorros em cada escola.

Já havia ocorrido invasão de agressor armado em escola de Curitiba antes de 9 de outubro de 2026?
Não. A invasão ao CMEI São Braz é a primeira ocorrência real registrada em uma unidade da rede municipal em 21 anos de Programa Conhecer para Prevenir (CPP), que inclui o cenário de invasão armada entre suas situações previstas desde a criação, em 2005.

Base: legislação municipal (Lei 14.579/2014 e Decreto 852/2019), comunicados oficiais da Prefeitura de Curitiba, dados declarados pela SME em 2025, tramitação pública da Câmara Municipal de Curitiba e Censo Escolar 2025 do Inep.

Newsletter

Um dado sobre a cidade por semana, explicado

Os números que o Plural apura sobre Curitiba — sem planilha, sem jargão.

Sem spam. Você pode cancelar quando quiser.

Falta um passo

Enviamos um link para o seu e-mail. Clique nele para confirmar o cadastro.

Não conseguimos concluir agora. Tente de novo em instantes.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

Todas as reportagens
Assuntos: Educação Curitiba

Mais em Educação

Ver todos

Mais de Rosiane Correia de Freitas

Ver todos