“O homem branco não é intelectual, quem é intelectual é a mulher preta, que tem criatividade para sobreviver, é produtora de conhecimento”. A fala da pesquisadora Carla Akotirene arrancou aplausos de uma plateia formada majoritariamente por mulheres negras, em Curitiba, durante o Seminário Pretas Acadêmicas, sediado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e organizado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Akotine, doutora em Estudos Feministas pela Universidade Federal da Bahia, é autora do livro “O que é interseccionalidade?”, da coleção Feminismos Plurais, organizada por Djamila Ribeiro e, e na capital paranaense conversou com o Plural sobre sua militância e suas pesquisas nas áreas da saúde e segurança pública.
No que diz respeito à intelectualidade, a autora cita Milton Santos, bell hooks, e outros pesquisadores justamente para questionar o conceito de intelectualidade. “Intelectual é aquele que assume compromisso de desafiar as estruturas, sim. Então intelectuais somos nós, mulheres negras, que hoje estamos aqui, em um seminário para desafiar as estruturas”, defende.
Para Akotirene, a estrutura da academia é conservadora, por vezes racistas, capacitista, lgbtfóbica e até facista. Isso faz com que intelectuais não-brancos sejam “apedrejados”. “Como fizeram com as obras de Carolina Maria de Jesus, como fizeram, por anos, com Conceição Evaristo (...). A gente [mulheres negras] insiste em ocupar esse espaço como água, se infiltrar e conseguir aos poucos mudando. Porque quando a gente consegue fazer um seminário de pretas acadêmicas, é porque a gente já minou parte da estrutura racista”.
O Seminário Pretas e Acadêmicas reuniu dezenas de pesquisadoras de diversas áreas do conhecimento durante dois dias em Curitiba. Para além da ciência, o evento aproveitou o Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, celebrado no próximo dia 25, para integrar a programação do “Julho das Pretas”.
A ideia de reuniu pesquisadoras pretas – cujos espaços na academia foram ampliados muito recentemente em virtude da lei de cotas – para Akotirene, é dar continuidade às lutas ancestrais. “Nossas ancestrais não ficaram de braços cruzados (...) Eu sou uma pessoa. Que eu acordo, deito almoço pensando na ancestralidade, pensando nas pessoas que me antecederam”.
Misturar ancestralidade e até espiritualidade com conhecimento científico, para a pesquisadora é uma maneira de demonstrar que existem saberes diferentes daqueles produzidos por homens brancos. Segundo Akotirene, trata-se de contra-hegemonia, uma espécie de “aquilombamento” acadêmico, que dialoga com o conceito de interseccionalidade, criado por Kimberlé Crenshaw em 1989 e revisitado por Akotirene no Brasil.
“Podemos dizer que a interseccionalidade produz deslocamentos epistêmicos de África para a diáspora em decorrência de nem sempre nós, pesquisadoras negras, dedicarmos o trabalho intelectual amplo e aprofundado de reflexão acadêmica”, defende em seu livro.
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