O aluguel residencial no Centro de Curitiba fechou maio de 2026 em R$ 51,00 o metro quadrado, segundo o Índice FipeZap de Locação Residencial — um valor 6,9% mais alto que um ano antes. Mas o número que chama atenção é a trajetória: em junho de 2025, a alta acumulada em 12 meses no bairro batia 18,1%, mais que o dobro dos 10,03% registrados para a cidade inteira no mesmo mês. O ritmo vem caindo desde então — 9,5% em maio de 2026 —, mas o Centro segue como um dos bairros mais caros para alugar em Curitiba, com um prêmio estável de cerca de R$ 3 por metro quadrado sobre a média da cidade.
Foi nesse cenário que, em 2 de setembro de 2026, a Prefeitura de Curitiba anunciou — com participação do prefeito Eduardo Pimentel — uma parceria entre as incorporadoras Invespark e Blue com o Airbnb para operar cinco prédios no Centro Histórico, com a meta declarada de atrair entre 6 mil e 10 mil pessoas para a região central. A nota oficial celebra o acordo como parte da revitalização da área. O que ela não menciona é que a própria expansão do Airbnb é, segundo a literatura acadêmica, um fator já documentado de pressão sobre o aluguel — justamente o tipo de alta que o Centro já vem registrando.
A parceria foi uma adesão de peso ao programa Curitiba de Volta ao Centro, que tenta revitalizar a área. O foco número um da iniciativa é atrair moradores para a área, como o próprio prefeito registrou: “O Centro é o coração da cidade e nós vamos devolvê-lo para as famílias curitibanas”. A ação da Airbnb, porém, adiciona pressão ao custo de locação na área.
Um padrão que a ciência já documentou em outros lugares
A pergunta óbvia — será que a expansão do Airbnb empurra o aluguel comum para cima? — já tem resposta na literatura acadêmica, com um mecanismo específico identificado: não é o turista que paga mais aluguel indiretamente; é o imóvel que sai do mercado de longo prazo para entrar no de curta temporada, reduzindo a oferta disponível para quem quer morar no bairro.
O estudo mais citado nos Estados Unidos, de Kyle Barron, Edward Kung e Davide Proserpio (Marketing Science, 2021), usou dados do país inteiro com uma variável instrumental para isolar causalidade: um aumento de 1% nos anúncios do Airbnb elevou o aluguel em 0,018% e o preço de venda em 0,026%, efeito mais forte em bairros com menos imóveis próprios — exatamente onde há mais estoque "realocável". Em Barcelona, a associação chega a 1,9% no aluguel e 4,6% no preço de venda.
No Brasil, um estudo da FGV especificamente sobre o Rio de Janeiro — usando dados do Airbnb cruzados com anúncios da QuintoAndar, em painel com efeitos fixos — encontrou um efeito cerca de quatro vezes maior que o americano: 1% a mais de anunciantes ativos no Airbnb associado a 0,08% de alta no aluguel, pelo mesmo mecanismo de transferência de imóveis entre os dois mercados. Reportagem do Brasil de Fato publicada em 3 de setembro de 2026 cita que a oferta de aluguel de longo prazo no Rio caiu 32% entre 2023 e 2026, e traz pesquisadores do Observatório das Metrópoles descrevendo o padrão de "construção de prédios em áreas centrais destinados exclusivamente a esse tipo de locação".
Um cruzamento feito pelo Plural entre a série mensal de oferta do Airbnb em Curitiba (jun/2025 a mai/2026) e o Índice FipeZap não encontra, na cidade inteira, uma correlação forte entre o número de anúncios ativos e o aluguel (0,52, numa escala de -1 a 1) — o número de anúncios cresceu só 4,9% no período, contra 7,9% do aluguel. Já a diária média cobrada no Airbnb subiu 18% no mesmo intervalo, e essa série anda muito mais junto com o aluguel (correlação de 0,88): os dois mercados parecem responder à mesma pressão de custo, mais do que um "roubar oferta" direto do outro.
Essa correlação fraca não contradiz os estudos internacionais — ela mede algo mais grosseiro. Os estudos citados acima usam painéis de vários anos por bairro ou CEP, com uma estratégia para separar causa de coincidência; o cruzamento do Plural tem apenas 12 meses de dados agregados para a cidade inteira, sem isolar o Centro nem controlar outros fatores que também afetam a região, como o programa municipal "Curitiba de Volta ao Centro", que reúne incentivos fiscais para atrair moradores e negócios à área.
O Centro, além disso, não é um bairro qualquer nessa história: levantamento do Censo IBGE mostra que ele já era, em 2000, o bairro com a maior proporção de aluguel entre os grandes bairros de Curitiba — 39,6% dos domicílios alugados, subindo para 44,1% em 2010, o dobro do ritmo de alta da cidade inteira no mesmo período (que foi de 17,5% para 21,2%). O perfil de aluguel alto no Centro é estrutural, de décadas — o que faz da chegada de um fator adicional de pressão, se a hipótese da literatura se aplicar ali, algo a ser observado com atenção.
Há também um estoque disponível para esse tipo de conversão: o Censo 2022 registra cerca de 3 mil domicílios vagos entre os quase 30 mil do Centro — uma vacância em torno de 10%, abaixo da de bairros premium como o Batel (20,2%, o maior índice da cidade), mas relevante em termos absolutos. Checar se essa vacância caiu nos anos mais recentes — o teste mais direto de que estoque ocioso estaria migrando para a curta temporada — não é possível com os dados públicos disponíveis: o Censo é uma foto de 2022, e o próximo levantamento comparável do IBGE só sai em 2030.
Quem são os parceiros do Airbnb no Centro
A Invespark é uma incorporadora com presença consolidada no Centro Histórico, onde mantém nove empresas de propósito específico ("SPEs") batizadas com nomes de ruas da região — Cavalcanti, José Loureiro, Carlos de Carvalho, Amintas de Barros, República, entre outras. A rede societária por trás da marca — reconstruída pelo Plural na base pública de CNPJ da Receita Federal — soma 55 empresas ativas ou baixadas, com capital social somado de R$ 168,8 milhões, sob o controle de Cláudio Roth e Karin Fleischfresser Roth. O CEO público da companhia, segundo a nota da Prefeitura sobre a parceria com o Airbnb, é Luiz Augusto Brenner Rose, que aparece como administrador em parte dessas empresas desde 2023.
Segundo a própria Invespark e a Prefeitura, a empresa e a Blue — a outra incorporadora da parceria — já atuam juntas desde 2023 no segmento de imóveis compactos e hoje lideram cerca de 35% desse mercado na cidade.
Como o Plural apurou
Os preços de aluguel do Centro e de Curitiba vêm dos doze informes mensais do Índice FipeZap de Locação Residencial (jun/2025 a mai/2026), extraídos pelo Plural das tabelas "Comportamento recente" (aluguel da cidade) e "Zonas, distritos ou bairros mais representativos" (aluguel do Centro) de cada relatório. Os dados de oferta e preço do Airbnb são da própria plataforma, mesma janela temporal. A rede societária da Invespark foi reconstruída na base local de CNPJ da Receita Federal, cruzando nome e CPF mascarado de Cláudio Roth e Karin Fleischfresser Roth com o cadastro de empresas. Os dados de condição de ocupação e vacância por bairro vêm do Censo IBGE (2000, 2010 e 2022), consolidados por bairro. A nota sobre a parceria Invespark-Blue-Airbnb é da Prefeitura de Curitiba, de 2 de setembro de 2026. Os estudos acadêmicos citados são de Barron, Kung e Proserpio (Marketing Science, 2021) e da FGV sobre o Rio de Janeiro; a citação sobre a queda de 32% na oferta de aluguel do Rio e a fala do Observatório das Metrópoles vêm de reportagem do Brasil de Fato de 3 de setembro de 2026.