Quem viu Alceu Valença dominar o palco principal da Virada Cultural de Maringá no último sábado (22) acompanhou o espetáculo de um artista que recém completou 80 anos em julho mantendo a mesma energia e irreverência do início da carreira. Mas foi nos bastidores que a passagem do pernambucano pela cidade ganhou um capítulo ainda mais especial.
Pouco antes do show, Alceu recebeu no camarim o ex-motorista de ônibus Divino Vieira. Nas mãos, Divino levava um violão gasto e uma memória guardada há três décadas.
Em 1996, ele dirigia a viagem que levou um grupo de maringaenses para viver o Carnaval no Recife. Após o desfile dos blocos, os passageiros encontraram Alceu em uma lanchonete. O cantor brincou que tocaria ali mesmo se alguém arrumasse um instrumento. Divino correu até o ônibus, buscou o seu violão e viu o artista improvisar uma apresentação no meio da rua, sem microfone nem palco. Trinta anos depois, o reencontro em Maringá serviu para Alceu autografar o mesmo instrumento e fechar um ciclo que começou na calçada de uma lanchonete recifense há 30 anos.

Essa mesma simplicidade e proximidade com o público deu o tom da conversa que ele teve com a imprensa. Na coletiva, Alceu manteve a postura firme e autêntica que sempre marcou sua trajetória. Revisitou o começo de tudo, lembrando que subiu ao palco pela primeira vez aos quatro anos de idade, no Cine-Teatro Rex, em São Bento e fez questão de reforçar sua recusa em ceder às pressões da indústria fonográfica.
"Eu só canto o que eu quero. Nunca fui atrás do que está fazendo sucesso no momento", afirmou. Questionado sobre os novos caminhos da música, o cantautor reconheceu que a internet abriu espaço para artistas independentes emergirem de forma orgânica, mas criticou abertamente a ascensão da inteligência artificial na composição. Para ele, a tecnologia pode até cruzar dados de grandes nomes como Luiz Gonzaga, Caetano Veloso ou Beatles, mas jamais conseguirá reproduzir a essência do sentimento humano.
A julgar pela entrega no show e pelo carinho no reencontro com seu Divino, é justamente essa essência que continua fazendo a diferença.