O céu azul é o mais difícil | Plural
21 ago 2019 - 21h18

O céu azul é o mais difícil

Cezar Tridapalli comenta o mais novo romance de Ian McEwan, Máquinas como Eu

Preste atenção na cena:

O personagem narrador de Máquinas como eu, romance mais recente do inglês Ian McEwan, está transtornado com o contexto (fictício) de Londres, numa hipotética década de 1980. Há o assassinato de um primeiro ministro, uma bomba explodida em um hotel, a cidade está chocada, já existe internet e robôs quase idênticos aos humanos começam a ser vendidos, ainda em edição limitada. Ele tem um: Adão. A inteligência artificial está avançadíssima, os compradores podem programar seus robôs conforme traços de personalidade que lhes convêm. Uma utopia distópica, na contradição dos termos. Em meio a esse arrazoado aterrorizante, o personagem guarda dúvidas a respeito da adoção de um menino, Mark, que a esposa quer muito.

Depois de ler as notícias sombrias que acontecem do lado de fora de sua janela, ele vai até o quarto onde a mulher e a criança montam um quebra-cabeças:

Eles estavam de quatro, montando um quebra-cabeças numa bandeja de chá. Quando entrei, Mark ergueu uma peça azul e anunciou, com ar sério, citando sua nova mãe: ‘O céu azul é o mais difícil’.

Literatura é isso. Não é só isso, mas é muito isso. Retomo essa cena lá no final. Agora, uma pequena reflexão:

Dois modelos consagrados pela lógica são a dedução e a indução. Na primeira, parte-se de uma premissa maior e a partir dela encaixam-se outros pressupostos que nos levam a conclusões irrefutáveis.

Todo o ser vivo é mortal | Eu sou um ser vivo | Logo, eu sou mortal.

Desculpe o spoiler, mas: Todo ser vivo é mortal | Você é um ser vivo | Logo, você é mortal.

Inescapável (#tamojunto).

A indução faz uma espécie de caminho contrário. Por exemplo, percebo que o cobre é bom condutor de eletricidade, aí percebo que o metal x também é, e o metal y, assim como o metal z e todos os metais que submeto ao experimento. A premissa se constrói no fim: todos os metais são bons condutores de eletricidade. É meio que um caminho inverso ao da dedução.

Isso já vem lá de Aristóteles. Algo de que ele falou, e que depois foi retomado pelo semiótico americano Charles Peirce, mas pouca gente ouviu dizer, é sobre o processo nem de dedução nem de indução, mas de abdução, que nada tem a ver com sequestro extraterrestre.

Abdução tem a ver com insights, sacadas que não seguem um processo lógico universalizante, isto é, não nos conduzem todos a uma premissa única. Relaciona-se com o deslize dos significantes que se associam de modo livre-associativo. Unem-se dois quadros conceituais diferentes para fazer emergir daí um sentido novo, costurado pelas subjetividades (o sujeito que fala e ouve, que escreve e lê etc).

Há uma performance (Barbed hula) da artista israelense Sigalit Landau que sempre me chamou muita atenção. Num vídeo em looping, aparece o corpo nu de uma mulher, na praia deserta, e ela tem um bambolê girando ao redor de sua cintura. Só que, veja bem, o bambolê é feito de arame farpado. E marca o corpo da mulher de um jeito cuja dor a gente sente e faz careta e solta um ssss chiado.

Ora, não há um processo dedutivo nem indutivo aí, mas abdutivo, que é em grande parte o processo criativo da arte. Pense no significante bambolê: a que outros significantes ele remete? Pensei aqui, por exemplo, em diversão, ludicidade, brincadeira infantil, alegria, ou, associando ao título do trabalho dela, em hula, dança havaiana que consiste em girar os quadris de forma semelhante a quem brinca de bambolê. Por outro lado, o barbed é o farpado, é o que agride, é o que impõe um limite que, se ultrapassado, pode machucar. Bambolê e arame farpado fazem parte de quadros semânticos distantes entre si e, talvez por isso, nos provoquem o estranhamento, a testa franzida. A junção de dois significantes que remetem a campos tão diferentes não nos permite mais chegarmos todos a uma premissa ou conclusão idêntica.

Nós somos convidados a preencher com os nossos significantes essa união insólita entre bambolê e arame farpado. Se nós vamos entender isso como uma bobagem, ou como uma reflexão sobre a opressão do corpo feminino ou como uma leitura dos muros que separam Israel e Palestina ou como a fronteira entre o eu e o outro, ou sei lá mais o quê, aí é por nossa conta. Quando falamos em abertura da obra de arte, acho que é por aí, o que não significa, no entanto, que qualquer interpretação seja válida. Não posso pensar qualquer coisa, como alguns dizem sobre a arte, mas também não fico preso à pergunta escolar do tipo “o que a autora quis dizer?”, como se houvesse apenas uma resposta certa, como se devêssemos nos valer da dedução e da indução para acharmos a premissa única da conclusão interpretativa. É a nossa vez de trabalhar, somos nós que completamos com sentidos possíveis e os penduramos nesse espaço lacunar e abissal que há entre um bambolê e um arame farpado.

Da mesma forma, veja só, o personagem de McEwan estava com a cabeça transtornada por causa dos eventos acontecidos em seu país. Entra numa sala em que a esposa e o filho prestes a ser adotado montam um quebra-cabeças. E ele apenas ouve a criança dizer: “O céu azul é o mais difícil”.

Ora, podemos passar batidos e seguir a leitura. Mas você não acha que esse céu azul do quebra-cabeças ganha amplitude? Céu azul, céu de brigadeiro, símbolo de céu ideal, sem nuvem, sem turbulência, tudo claro e limpo. O céu sai do plano literal e ganha o terreno da metáfora. Chato seria se o autor nos desse a interpretação, fizesse o personagem refletir e costurar a situação nebulosa do país com a dificuldade em encaixar o céu azul em um quebra-cabeças. Ele coloca esses dois elementos, o resto é com o leitor. Não à toa o Umberto Eco chamava, em tom elogioso, o texto literário de “máquina preguiçosa”. O autor joga uns elementos ali e somos nós que devemos fazê-los trabalhar, engrenando-os, conectando-os, criando novos significantes que deem conta de unir partes aparentemente desencontradas, como o bambolê e o arame farpado, como o contexto político e o céu azul.

Não por acaso, escritores que já tiveram questões a respeito de livros seus em vestibulares “erraram” a resposta. Aliás, errar tem um sentido bonito, a errância é própria de quem se desloca da estabilidade e vagueia, sempre em busca de algo, que muitas vezes nem sabe o que é.

O título completo do romance de McEwan é Máquinas como eu. E gente como vocês. E quanta coisa cabe nessa “gente como nós”.

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