Com fé e sem máscaras | Jornal Plural
Clube Kotter
26 mar 2020 - 17h03

Com fé e sem máscaras

Uma pandemia de mensagens via aplicativo expõe o egoísmo nosso de cada dia

Com um vírus que está à solta em toda parte e em parte alguma, o brasileiro é forçado a experimentar o isolamento e conviver consigo mesmo por mais tempo do que o habitual, num ambiente que foi de conforto e proteção, no entanto, agora é igualmente de controle: a sua própria casa.

Diante da séria questão de saúde pública que envolve as castas sociais brasileiras, o WhatsApp transforma-se num regulador permanente da psique de todos. A histeria da comunicação de massa contemporânea não começa com o Covid-19, mas ele é atualmente a cereja do bolo.

O aplicativo é a ferramenta certa para distribuir bondade nesses dias escuros. Com o envio de mensagens de conforto, espiritualidade e positivas, uma “corrente do bem” é formada para o deleite dos envolvidos. Com dicas e orientações médicas sem fim, promovemos uma espécie de “médicos sem fronteiras virtual”. E para diminuir a tensão, os memes chegam em profusão e alegram a vida. O vírus alçou o aplicativo ao status de um CVV.

A pandemia de mensagens ininterruptas trocadas entre milhões de pessoas desde que o coronavírus saiu do interior da China e aportou no Brasil, possibilita, com uma simples e descompromissada observação, traçar perfis de pessoas diante dessa crise.

Os primeiros perfis de usuários pós-Covid 19 são daqueles que acreditam, que somente através de um vírus poderá surgir uma nova consciência, que melhore nossas relações pessoais e profissionais. Um exemplo de nobre altruísmo e bem querer sem dúvida. 

Entretanto, já vividos um século inteiro de guerras, extermínios, pestes, quebras econômicas e brutalidades sociais de diferentes tipos, as crises não fizeram da “boa consciência” a força motriz das mudanças tão desejadas por alguns.

A história demonstra que após dramáticos eventos, a escassez de alimentos, assim como, de trabalho e segurança social, dificultam e muito o sentimento de esperança numa nova relação entre os seres humanos. Raivas e vergonhas são amplificadas, e mais obstinados ficamos para reconstruir o que foi perdido. Para a grande maioria será a hora das revoltas e violência. É a roda sistemática do comportamento dos homens.

O vírus é um dos organismos mais antigos da humanidade e não veio para nos ensinar nada. Ele apenas “é”, simples assim.

O segundo perfil pertence àqueles que replicam obsessivamente todas as informações possíveis sobre o vírus: opiniões de profissionais da saúde, índices de contágio, prognósticos da crise e estudos científicos disponibilizados para “democratização do conhecimento”. Esse perfil é o mais proativo.

Sem pedir licença, propagam de forma incansável verdades e mentiras sem distinção. Esse perfil, todavia, desconhece o efeito da comunicação de massa, propagando rumores que agem como propulsores de preocupações alheias e públicas em grande escala. Falam entre si com o intuito de terem um peso importante na balança do outro, que por sua vez, volta a replicar a mensagem num continuum. Esse é o grupo do pânico e da paranoia.

Quem conta um conto aumenta um ponto… inevitável.

O terceiro perfil é dos que creem na força interior, cósmica, divina e mística, como promotora da dissolução da crise e da melhoria do comportamento social humano.

Essas pessoas se relacionam virtualmente muito bem com os dois primeiros grupos. Sejam vídeos de apoio ao “eu”, “imagens positivas”, paráfrases dos sábios e áudios proferindo força e perseverança nessa “nova jornada do homem”.

Esse pessoal expressa possuir consciência e força elevada diante do mal. Sem dúvida são os mais confiantes na sobrevivência da espécie humana diante da crise. Exaltam a vida, a flor e a positividade, bem como soluções simples para problemas complexos.

A totalidade dos perfis têm um ponto em comum: são jogadores compulsivos da informação de massa. Recebem e rebatem num jogo inconsciente para influenciar o outro da sua importância e conteúdo nesse mundo. São ações de desespero para ter a atenção de alguém, de qualquer um.

Lembra de mim! Pensei em você! Se protejam! Cuide bem da família! Nada mais é que “eu existo”. Freud estava certo… “todo excesso esconde uma falta”.

De boas intenções virtuais o aplicativo está cheio. Agora no mundo concreto perto de nós, todo esse “movimento” não muda em nada o fato de que o vírus está por aí nos esperando. Não muda quem realmente somos como indivíduos e o que queremos como cidadãos.

Um exemplo da hipócrita preocupação com a saúde e segurança dos outros:

De que adianta tantos esclarecimentos de saúde recebidos na palma da mão higienizada e no conforto de casa, se esses não são capazes de mudar uma simples engrenagem de uma mercearia ou de um pequeno condomínio residencial? Deixando de proporcionar aos seus empregados máscaras, luvas e roupas adequadas para terem o mínimo de conforto e segurança em seus afazeres, nenhuma informação do mais alto especialista tem valor.

A iniciativa de educar e proteger seus contratados é do andar de cima e não uma responsabilidade exclusiva do trabalhador, que muito carente de entendimento do seu valor como pessoa, se sujeita a abusos variados. Aonde estão os pregadores da “vida plena” nessa hora?

São sempre os menos favorecidos que retiram o lixo dos prédios, das ruas, da nossa visão. O trágico é que muitas dessas pessoas são participantes dos grupos no WhatsApp feitos pelos seus patrões.

Esse comportamento mesquinho da classe média é um “valor” brasileiro sem dúvida e não será um vírus a mudá-lo, muito menos por um aplicativo…claro. Um dos chavões mais cretinos repetidos no Brasil é “…se cada um fizer a sua parte, sairemos dessa (ou, construiremos um país melhor) …”.

Questão de educação? Politica? Racial? Classe Social? Enfim…

E com essa postura selamos nosso destino como nação subdesenvolvida. Não se enganem, riqueza individual é muito diferente de bem-estar social. O abuso é o nosso “chão da fábrica”.

Aqui no Brasil, Deus deu sim asas à cobra.

Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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