A falta de um revisor pode dar ‘pobrema’... | Plural
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22 jun 2020 - 17h21

A falta de um revisor pode dar ‘pobrema’…

Com o corretor ortográfico, a alta tecnologia ajuda, mas é bom, sempre, ter um editor de texto de olho na crase e outras armadilhas da palavra escrita

Lançamento da Campanha do Agasalho e Cobertores 2020, com coordenação da Fundação de Assistência Social (FAS). A prefeitura espalhou por Curitiba cartazes convocando a população para colaborar com doações – roupas, cobertores e calçados para a população carente. Mas, por conta do coronavírus, foi acrescentado um alerta no pé da mensagem:

– Abrace à distância.

Ou seja, é preciso manter uma distância de 1,5 m entre as pessoas para driblar o contágio. Alguém, um jornalista dos tempos do jornal papel, concordou com a recomendação, mas lamentou o emprego da crase. Afinal, a crase só deve ser empregada quando a distância estiver especificada. Ele estava à distância de 100 metros do táxi. Já ensino a distância não leva crase.

E, é claro, recorreu ao poeta Ferreira Gullar, para quem “a crase não foi feita para humilhar ninguém”. Por conta disso, lembrou que os jornais, para não atropelar o português e dar outras mancadas, sempre contavam com uma (ótima) equipe de revisores.

Em Curitiba, tínhamos entre os excelentes revisores Adamastor Marques, Ruy Staub, seu Fontes e muitos outros cobras no domínio do português – e do jornalismo.

Uma letrinha faz diferença

Hoje, com a alta tecnologia, temos o corretor ortográfico, mas as mancadas ainda marcam presença: dias atrás, na internet, um jornal publicou que certa secretaria do governo paranaense estava emprenhada na aprovação de uma medida…

E, sobre a prisão de dois envolvidos num assassinato, em outra edição saiu que eles teriam confessaram

Já na página de esportes, que um dos times da capital anunciaram a data para a volta aos treinamentos normais.

Nem o imperador escapou

Não é de hoje a importância de uma boa revisão: o episódio envolve Dom Pedro II. Aclamado segundo imperador do Brasil quando tinha 6 anos de idade, assumiu o trono aos 15 anos (18 de junho 1841), um ano depois de ser declarado maior de idade.

Durante um passeio, ao cair do cavalo, provocou uma onda de boatos na Corte e na cidade do Rio de Janeiro. Para demonstrar que estava bem, resolveu dar um passeio pelo Paço Imperial, apoiado em duas muletas. Aí, o jornal Aurora Fluminense publicou que o Imperador reapareceu sorridente e foi visto amparado por duas maletas. Isso mesmo: maletas. Para consertar a mancada, o jornal fez a correção na edição seguinte, desculpando-se pelo “lamentável equívoco”.

Pior a emenda do que o soneto: Dom Pedro II estaria amparado não em duas maletas, mas em duas mulatas

Se viver é muito perigoso, como dizia Guimarães Rosa, escrever também traz algum perigo.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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