Arte de emergência | Plural
10 jul 2019 - 8h00

Arte de emergência

A arte e os artistas foram perseguidos, denunciados, proibidos, banidos e executados por diferentes instituições de poder governamentais e religiosas

A resiliência da arte e dos artistas tem uma uma história que atravessa os séculos. A arte e os artistas foram perseguidos, denunciados, proibidos, banidos e executados por diferentes instituições de poder governamentais e religiosas. A arte e os artistas enfrentaram resistência, censura e recusa em momentos-chave da história da humanidade. Portanto, embora seja preocupante, não é de se estranhar que em tempos de mudanças bruscas e aceleradas como os que vivemos agora, haja um retorno da desconfiança de parte da sociedade com a arte e com os artistas.

Segundo a teoria de Marshal McLuhan, – filósofo canadense que se debruçou sobre o estudo dos meios de comunicação – toda era cria uma visão nostálgica de si mesma, o que ele chamou de visão de retrovisor. De acordo com ele, tempos passados são projetados como uma imagem falsa do nosso presente. Sendo assim, cabe aos artistas contemporâneos reconhecerem os novos padrões do mundo de hoje e revelar do que este mundo é feito. Talvez, por essa razão, os artistas sejam constantemente rechaçados, pois criam um atrito entre a imagem projetada do passado e a realidade presente, uma fissura na nossa zona de conforto de percepção.

A Mostra Emergente surgiu como uma maneira de reverberar os novos padrões reconhecidos por novos artistas de Curitiba. Chegando à terceira edição, o evento promove uma constante rotação das companhias envolvidas a cada ano, sendo grupos de artistas ou artistas-solo que realizam alguns de seus primeiros trabalhos e processos de criação. A ideia em torno da Mostra é a de abrir espaços para novos nomes e sua construção não poderia ser mais democrática: desde o primeiro ano, a produção e os grupos se organizam de forma horizontal. Eles se reúnem para discutir todas as decisões sem haver uma única figura hierárquica dentro do coletivo. Os participantes da segunda edição foram convidados pelos participantes remanescentes da primeira e os da terceira, pelos remanescentes da primeira e da segunda. Léo Moita, um dos organizadores presente desde o início, diz que é “algo que não se pode deixar de fazer” e que a possível quarta edição deverá contar com participantes das três primeiras.

Sem aporte financeiro de patrocínios ou leis de incentivo, os apoios com que seus organizadores contam são oriundos de pequenas empresas privadas que cederam vouchers de seus produtos ou serviços para serem rifados e, com a soma das rifas, faz-se a divisão dos custos de produção. As apresentações que começam nesta quinta-feira, dia 11 de julho, não cobram um ingresso fixo. Numa prática cada vez mais comum, o sistema é o do pague quanto rola, ou seja, cabe ao público determinar qual valor é viável para ele contribuir ao final. As entradas serão distribuídas uma hora antes de cada sessão no próprio Teatro Novelas Curitibanas – Claudete Pereira Jorge, que abriga o evento novamente.

Além dos espetáculos, que compõem um quadro heterogêneo de linguagens e temas (confira a programação abaixo), a Mostra Emergente também oferece cinco oficinas gratuitas – cada uma ministrada por um dos grupos – que acontecerão dentro do Prédio Histórico da UFPR. O diretor de Artes Cênicas da UFPR, Rafael Lorran, se irmana no discurso da intenção de “abrir espaços para a comunidade”. Recém chegado ao posto, demonstra a vontade de que mais pessoas ocupem os locais públicos e vivenciem novas experiências artísticas juntas.

“Pensar diferente juntos” é como o produtor Guilherme Mendes Muniz define o espírito da coisa toda. Ele diz que a Mostra é também um exercício da própria “produção como processo criativo”. O esforço para todas as atividades acontecerem tem como recompensa o próprio acontecimento, sem que nenhum dos envolvidos receba mais do que uma modesta ajuda de custo pelo trabalho. 2019 tem sido um ano desafiador para os amantes da arte e seus artistas, mas a julgar por iniciativas como esta, não será fácil suprimi-los. A arte e os artistas resistem.

 

Programe-se

PERIFERIA – Estreia de espetáculo protagonizado por jovens da periferia

Título: A bala alojada na arte

Gênero: Espetáculo-poesia manifesto da quebrada

Dias: 11 a 14 de julho

Horário: 20h

Sinopse: O circo de horrores é a boca do povo. Os jovens proclamam em poesia. O tempo de ser criança outrora se perdeu. O drama tá na rua, a dor no corpo. O amigo não voltou pra casa, a mãe agoniza desviando a bala perdida. O tapa doeu, o abandono prendeu. A sociedade cuspiu e ninguém viu. Mas, os jovens, sim os jovens, mudam a realidade do Brasil.

 

 GAL FREIRE

Título: Barbie Precipício

Data: 18 a 21 de julho

Horário: 20h

Sinopse: Uma dança a partir de suas ambiguidades. Vulnerabilidades emergem no limite entre o deboche e a violência, a verticalidade e a tortura, o salto alto e a queda, o pornô e o terror, a carne e a prótese, a boneca sexual e a boneca vodu. Distorções que produzem desobediência, camadas de hackeamento do design da violência.

 

 ARVOREDO

Título: Opa, Beleza! – Festa do Pijama

Data: 25 a 28 de julho

Horário: 20h

Sinopse: O “Opa, Beleza! – Festa do Pijama” é um espetáculo onde o teatro vira uma casa decorada para uma grande festa do pijama e o público é o convidado. As histórias são contadas por meio de estruturas de jogo, em uma sequência de jogos curtos de improviso, a partir de sugestões dadas pela plateia. O Mestre de Cerimônias é o anfitrião e dono da festa, pronto para receber todos os convidados e coordenar as brincadeiras. “Opa, Beleza! – Festa do Pijama” é uma peça teatral para todas as idades, que leva a diversão e o aconchego de uma festa do pijama ao público.

 

TEATRO SECALHAR

Título: lepAp.

Data: 01 a 04 de agosto

Horário: 20h

Sinopse: lepAp. um papel que cai? uma cena de base gestual? uma coreografia falada? dança- teatro? teatro coreográfico? percebendo a violência e a guerra como plano de fundo dos gestos executados, o grupo tem se voltado à investigação da relação entre guerra e afetação dos corpos, perguntando-se: qual o corpo da guerra? a forma posta de se performar: um tipo de violência, uma ordem da pulsão destrutiva, um prazer na agressividade; um tipo outro, de reiteração da (r)existência, reinventar, redistribuir e contra-por-com.

 

OS VERBOS SUSPENSOS PELO CORAÇÃO

Título: Os Verbos Suspensos Pelo Coração

Data: 08 a 11 de agosto

Horário: 20h

Sinopse: Texto como força de encontro – com as palavras, com o Outro. Verborragia que aciona uma denúncia das angústias. Os desejos dos corpos estão (submersos na presença) e (suspensos pelo coração). Suicídio enquanto risco. bichisse.

incômodo. at(r)aque. Concretar novas formas de estar aqui é também arruinar as antigas.

 

Para conferir a programação completa que ainda conta com cinco debates nos sábados, às 16h, no Teatro Novelas Curitibanas  – Claudete Pereira Jorge, visite o site www.mostraemergente.com

 

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