Pela metade

Se em um término de relação, a gente sente falta do outro, num AVC a gente sente falta da gente

Existem muitas coisas que sinto falta da minha primeira vida: a dimensão de tempo, o andar apressado, a visão completa e sentir o meu lado esquerdo. O AVC me tirou a sensibilidade de uma parte meu corpo. Agora, literalmente me sinto pela metade.

A primeira coisa que sinto falta quando acordo é de sentir o meu braço esquerdo. Em um dos acidentes vasculares cerebrais perdi a sensibilidade de toda a metade esquerda do meu corpo, e consequentemente a do meu braço esquerdo. É esquisito, não nego, principalmente porque consigo mexê-lo. Então, às vezes eu o apoio sobre a minha cabeça enquanto durmo e, imediatamente, acordo assustada com o peso dele. A insensibilidade é uma das minhas sequelas “invisíveis”, porque ninguém enxerga o que eu sinto ou deixo de sentir, somente eu. Então, ou você acredita nas minhas palavras, ou acha que eu estou inventando. E quem sai perdendo nessa conversa novamente sou eu.

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Enquanto todos enxergam o meu braço, inclusive eu, o meu cérebro não o enxerga mais, porque para ele (o órgão), os nervos responsáveis pelo meu membro superior se foram com o acidente. Então, para o meu cérebro, perdi toda a metade do meu corpo esquerdo naquele dia. Para o miolo, é como se fosse uma extensa amputação que ninguém vê. Apenas ele, quem manda e desmanda no meu corpo e nas minhas vontades.

Além da falta de movimento e de sensibilidade, o cérebro reclama, de muitos outros modos, a parte que lhe falta. A gente sofre de um vazio terrível depois do AVC, e não sabe dizer o porquê. É o luto pelos neurônios perdidos. Eu sei, não faz muito sentido, mas no fundo faz. Todo mundo lida com um vazio e tenta preenchê-lo a qualquer custo, colocando uma outra peça no lugar. Não precisa ter o cérebro machucado para entender do que estou falando, não é mesmo?

Quem já teve o coração partido sabe que mesmo o coração estando inteiro há aquela sensação de dor e falta de ar. É o vazio sensitivo do órgão, que mesmo sendo diferente, é muito parecido com o cérebro, com seus fluxos e válvulas. Se quando a gente parte o coração, sentimos um vazio no meio do peito, quando a gente parte a cabeça, o vazio pode preencher a metade do corpo (hemiplegia), da cintura para baixo (paraplegia), ou até mesmo do pescoço para baixo (tetraplegia). Uma dor terrível toma conta da alma. Se em um término de relação, a gente sente falta do outro, num AVC a gente sente falta da gente.

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E o luto também é similar: não sentimos mais fome ou atacamos qualquer tipo de comida, ficamos tristes e recolhidos e passamos o tempo todo lembrando do passado. Do tempo em que corríamos atrás das horas e reclamávamos das coisas cotidianas da vida. Se fosse possível ter uma trilha sonora triste para embalar o nosso desmiolo, com certeza a ouviríamos sem parar. Mas, não existe música para cérebro machucado, só para coração. Seria cômico, se não fosse trágico, até em nossa perda estamos solitários.

Há quem diga que ninguém morre de coração partido. Discordo. Aprendi que há muitos jeitos de se morrer, um deles é fingir que a dor não é importante ou simplesmente não está lá. Só que ela fica ali, escondidinha, feito uma bomba prestes a explodir no primeiro toque. Parece que temos medo de encarar o vazio e ele nos sugar. Talvez sugue, mesmo, ou nos corroa por dentro, como uma ferrugem interna.

Em determinada parte da reabilitação, somos obrigados a sair da nossa zona de conforto e fazer a coisa mais estranha do mundo: andar, falar e mexer uma parte do corpo considerada perdida pela própria cabeça. É claro que nunca é a mesma coisa (quem já se decepcionou para valer, não cai com a mesma facilidade no mesmo papinho mole). E então, com muito esforço, a gente começa a fazer as coisas como pode, tentando dar confiança a um membro fantasma, que existe e não existe ao mesmo tempo. Nunca é a mesma coisa, todo mundo sabe disso.

E como adoramos nos agarrar aos fantasmas, principalmente as pessoas mais medrosas. Como a gente se apega às coisas sem sentido ou que são apenas platônicas, é quase um talento! Como a gente finge amar pessoas e coisas que não sentimos mais afeto, apenas para dizer a nós mesmos que somos completos. Com um cérebro machucado, não existe essa oportunidade de fuga. Ele não deixa, apesar das evoluções, ele sempre nos lembra da parte que nos falta.

E como preencher este imenso vazio? Nem cientistas, tampouco terapeutas sabem responder. Eles só dizem para seguirmos em frente. Também pudera, assim como todo mundo, eles não enxergam o que perdermos, não sentem o que sentimos. Assim como tem coisa que é só da gente, existe coisa que só a gente não tem. Só a gente sabe que não mais tem.

Um AVC nos obriga a encarar esse vazio, não tem saída, ele é refletido no marcar, na falta de palavras, na mão encurvada e fechada. Não tem como fugir, nem esconder. Ele está lá. Para enfrentá-lo é preciso se olhar no espelho e se lembrar todo dia de quem se é, de como se chegou ao status de sobrevivente, não apenas de um acidente vascular cerebral, mas da própria vida. Afinal, todos nós também sobrevivemos a ela.

É preciso recordar das batalhas vencidas na primeira vida para ganhar força e encarar as lutas diárias da segunda. É preciso chorar pelo mínimo motivo, porque se tem coisas difíceis de conter após uma lesão do cérebro, são a dor e as lágrimas. Dá até raiva do transbordar de emoção. E se a raiva vier com força, choramos de novo! Parece que todas as nossas falhas vêm à tona, e são justamente elas que nos levam à nossa maior prova de coragem: a aceitação.

Para aceitar a vida após AVC é preciso aprender a se aceitar inteiramente com afeto, por dentro e por fora. É preciso entender que não há como voltar no tempo e não tem como ter o cérebro inteiro de volta, assim como um coração partido nunca é mais o mesmo. Por mais cicatrizada que esteja uma ferida, não tem como negar que ela existiu. Nem o corpo, muito menos a alma, deixam existir esse esquecimento.

Independentemente das sequelas, o AVC nos deixa marcados para sempre. E não apenas porque sobrevivemos a ele, mas porque simplesmente somos humanos. E pessoas quando sobrevivem são assim, cheia de cicatrizes. Sempre procurando, de todas as maneiras, lidar com a parte que lhes foi arrancada, aquela que sempre fará falta.

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