Efeito borboleta e sangue arterial | Jornal Plural
Clube Kotter
10 jun 2020 - 19h39

Efeito borboleta e sangue arterial

Todo sangue derramado até hoje é vermelho, e de um vermelho bem vivo de morte. Por isso, é urgente que os corações daqueles que têm sangue vermelho sigam batendo

A Entropia é uma grandeza física que mede o grau de liberdade molecular, sendo explicada como uma função de Estado. Estado, a despeito das polêmicas, é resumidamente a forma organizacional dentro de um sistema. E o grau de liberdade dentro do sistema é determinante para a reversibilidade e previsibilidade de fenômenos. Assim, sumariamente, graus de liberdade maiores conduzem a maiores chances de mudanças futuras. Essa equação, que faz parte da Teoria do Caos estudada pelo matemático Edward Lorenz, ficou conhecida como “Efeito Borboleta”, que ludicamente diz que o bater de asas de uma borboleta poderia provocar uma tempestade de vento em algum outro lugar distante no mundo. Estudos de questões climáticas e meteorológicas, o mercado financeiro, ou a genética usam de projeções que seguem essa lógica.

E esta também se aplica à nossa presente condição, em vários sentidos. Um exemplo que está bastante evidente nos tempos atuais é o de que o caos está em nossos corações. É o que a ciência diz. É um engano pensar que o coração bate periodicamente, previsível como a mecânica de um relógio que obedece à uma ordem predeterminada. A matemática demonstra que os corações foram evolutivamente selecionados para que funcionassem em sistema caótico. E mais, recentemente um artigo da medicina traz a conclusão que pacientes com corações com comportamentos mais caóticos tendem a prognósticos mais positivos. Isso se deve ao fato de que comportamentos caóticos, e suas múltiplas possibilidades, nos conferem resiliência pela capacidade de resposta rápida e adaptação às condições do meio. A química sanguínea, a sensação de sangue fervendo, como arte érea esculpida com fogo, é a confirmação prática de que nossos corações podem pulsar mais forte se necessário for. Todo coração que bate, bate no ritmo do caos. E, apesar da má reputação, o caos é o fator primordial para organização. Em sistemas caóticos, cabem muitos tipos de organização.

Pois é, é difícil entender o coração. Aprendi na escola sobre circulação sanguínea e lembro-me daquele desenho esquemático, da diferença entre sangue arterial, que é vermelho, e o sangue venoso, que é ilustrado em azul. O sangue arterial é rico em oxigênio, e o venoso, em dióxido de carbono. E há uma membrana vertical que divide o que está à esquerda e à direita, em que o sangue vermelho só circula do lado esquerdo, e o azul somente do lado direito. Esse desenho é metodológico, mas há quem reduza a vida ao esquema e acredite em sangue azul. Talvez seja uma questão de anacronismo daltônico ou, ainda, é possível que esses achem que o lado direito não sangra. A mim, parece que este é mais um daqueles problemas cada vez mais frequentes, aqueles que não são uma questão de opinião. Todo sangue derramado até hoje é vermelho, e de um vermelho bem vivo de morte. Por isso, é urgente que os corações daqueles que têm sangue vermelho sigam batendo. Para que nada seja como antes, que batam como as asas de uma borboleta. Suavidade e subversão. Beleza e balbúrdia. Desordem em progresso. Bem-vindo seja o caos.

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