No próximo domingo (15), completa um ano das mortes de Kelvin Willian Vieira dos Santos, de 16 anos, e Wender Natan da Costa Bento, de 20, no Jardim Santiago, zona oeste de Londrina. Moradores da comunidade Nossa Senhora da Paz, a Bratac, os dois jovens foram mortos durante uma ação da Polícia Militar que a corporação classifica como confronto. As famílias, no entanto, sustentam que houve execução e apontam contradições na versão oficial, reforçadas por imagens de câmeras de segurança.
Kelvin e Wender trabalhavam em um lava-jato da Bratac. Na noite daquele dia, saíram do local em um Corsa prata pertencente a um cliente, com o objetivo de comprar cerveja em uma conveniência próxima, no Jardim Santiago. Wender dirigia o veículo e Kelvin estava no banco do carona. Segundo a polícia, o carro teria sido usado em roubos e furtos na cidade nos dias anteriores, o que teria motivado a tentativa de abordagem.
De acordo com a versão da Polícia Militar, uma equipe do Choque avistou o Corsa e iniciou uma perseguição. Ainda segundo a corporação, o motorista teria acelerado, virado uma esquina e parado após colidir com um Golf preto estacionado na via. No momento da abordagem, os policiais afirmam que foram recebidos pelos jovens com armas em punho e que, diante da suposta ameaça, efetuaram os disparos. Wender foi atingido por 12 tiros e Kelvin por 9.

Imagens de câmeras de segurança obtidas e divulgadas pelo jornalista Ricardo Vilches, da RIC TV, colocam em dúvida essa narrativa. Os vídeos mostram o Corsa trafegando em velocidade aparentemente normal e a viatura do Choque emparelhando com o veículo. Segundos depois as imagens registram apenas uma intensa sequência de disparos, sem que seja possível ver reação armada por parte dos ocupantes do carro.
Outro ponto que fragiliza a versão policial diz respeito à suposta colisão. Vilches entrevistou o dono do Golf preto, que negou que seu veículo tenha sido atingido por outro carro naquela noite, contrariando o relato da PM sobre o encerramento da perseguição.

Para a advogada das famílias, Iassodara Ribeiro, as imagens indicam que não houve uma abordagem policial nos moldes previstos pelos protocolos. “As imagens mostram que a polícia não fez uma abordagem normal. Eles já chegam atirando contra os jovens. Nem o giroflex da viatura estava ligado, como é necessário em abordagens”, afirma.

Iassodara atua como assistente de acusação no caso e solicitou uma série de diligências ao Ministério Público do Paraná. Segundo ela, os pedidos vêm sendo acolhidos, com determinações para que a Polícia Civil produza novos laudos. A advogada ressalta que não atua diretamente nos autos, que são de responsabilidade do MP, mas acompanha o andamento do processo.
Atualmente, corre o prazo de 60 dias, concedido pelo Ministério Público a pedido da Polícia Civil, para a conclusão de uma dessas diligências, com término previsto para março. “Estou otimista em relação a isso, porque, se houvesse convicção de que os policiais agiram em legítima defesa, o processo já teria sido arquivado há muito tempo”, diz.
O caso tramita em segredo de Justiça, o que impede a divulgação do conteúdo das diligências em andamento. Ainda assim, a advogada afirma que os pedidos se concentram, principalmente, em novos laudos da Polícia Científica, tanto no local das mortes quanto nos exames dos corpos dos jovens.
Para marcar um ano das mortes, no próximo domingo (15), familiares e amigos dos jovens realizam uma passeata da Bratac até o local onde foi feita a abordagem policial, no bairro vizinho. A concentração será feita na praça da comunidade e a saída está prevista para as 16h30.
