Criatividade causa inveja na comédia francesa “Um brinde ao sucesso”

Piadas de “Um brinde ao sucesso” têm como ponto de partida uma mulher que, para a surpresa do marido e dos amigos, decide escrever um livro

Dois casais de amigos jantam num restaurante. Nesse ambiente, o filme “Um brinde ao sucesso” apresenta o esqueleto da história em poucos minutos. A conversa começa com Karine, que enumera as coisas boas de sua vida profissional e também na pessoal. Todo mundo fica feliz por ela, ainda mais Francis, o marido, que é louco por ela.

O outro casal, Marc e Léa, parece um pouco mais discreto e simples. Marc, que trabalha no ramo de alumínio, diz estar animado com a chance de conseguir uma promoção na empresa e Léa, a figura mais modesta dos quatro, não tem muito o que dizer. Porque o emprego como vendedora numa loja de roupas vai bem. Talvez ela também seja promovida. 

Sobremesa?

Com as vaidades e humildades expostas, chega o garçom. “Sobremesa?”, pergunta ele. Léa, a primeira a se manifestar, diz sim. Mas depois dela cada um dos outros três diz não, não e não. O que faz Léa mudar de ideia. Se ninguém mais vai comer sobremesa, ela não vai pedir uma para comer sozinha.

Em seguida, tem início uma longa discussão a respeito de sobremesas, pedidos são feitos e cancelados, pessoas mudam de ideia e tudo isso dura bastante tempo. O suficiente para ficar desconfortável para todo mundo.

Nesse ponto da história – ainda são os primeiros minutos de filme –, fica claro que Léa é um saco de pancadas. Marc não poupa a esposa de críticas, reclamando primeiro de sua pouca ambição (por ser vendedora de roupas num shopping), depois de sua indecisão (influenciada pelos outros, ela não sabe se quer sobremesa).

Um livro

Apesar de todos os buracos pelo caminho, o mal-estar da sobremesa é contornado e a conversa continua. É quando Léa, um pouco chateada com o andamento do jantar, faz uma revelação ao marido e aos amigos: ela está escrevendo um livro.

Os três ouvem a notícia meio incrédulos. Como assim, um livro? Eles mal conseguem disfarçar a surpresa e, tão logo se recuperam do susto, ficam entre incentivar a amiga/esposa ou dispensar a ideia do livro como um delírio vindo de alguém que nunca escreveu nada na vida.

Acontece que Léa, vivida por Bérénice Bejo, tem uma capacidade espetacular de sacar as pessoas. Ela é uma observadora sensível. Na loja onde trabalha como vendedora, por exemplo, Léa conversa com as clientes de maneira absolutamente franca. Tanto que seu chefe reclama disso. Afinal, sinceridade pode atrapalhar as vendas. (Um detalhe curioso: o chefe é interpretado por Daniel Cohen, o diretor e roteirista do filme.)

Porém, na prática, há pessoas que gostam da vendedora terrivelmente sincera e acabam gastando mais dinheiro do que planejavam gastar. Porque sabem que, se Léa diz que tal vestido ficou bonito, é porque ele ficou mesmo. Assim o chefe não tem do que reclamar.

Papéis

O bom argumento de “Um brinde ao sucesso” é o fato de Léa desestabilizar o marido e o casal de amigos porque, simplesmente, decide abandonar os papéis que tinham atribuído a ela. O da esposa boazinha, indecisa e sem ambição. O da amiga boba e frágil.

Além disso, o interesse de Léa por literatura faz as pessoas ao seu redor se questionarem. O marido se acha um tosco (e ele é, de fato). Já o casal de amigos, quando volta para casa depois do famigerado jantar, começa a conversar sobre como eles também têm criatividade e talentos a serem explorados (quando, na verdade, não têm).

Em vez de admirarem a criatividade e o talento de Léa, eles se sentem ameaçados. Eles a invejam. Mesmo com amiga/esposa mostrando que continua a mesma pessoa atenciosa e carinhosa que sempre foi. Mas com uma diferença: agora, ela curte escrever livros.

Superficial

É claro que “Um brinde ao sucesso” é uma comédia e essas questões mais profundas não são exploradas a sério. Elas servem mais para embalar as várias situações engraçadas da história, principalmente as que envolvem Karine, a amiga, e o marido Francis. Em algum momento, depois de ter experimentado bonsais e música eletrônica, ele decide virar escultor e comete barbaridades. Ajuda muito o fato de Francis ser interpretado pelo carismático François Damiens, o pai surdo de “A família Bélier” (2014), produção francesa que deu origem a “No ritmo do coração”, o vencedor do Oscar 2022 de melhor filme.

No papel de Karine, a atriz Florence Foresti é mais chata do que engraçada. Bérénice Bejo (“O artista”) e Vincent Cassel (“Gauguin”) como Léa e Marc parecem apagados e um pouco fora do lugar. Como se estivessem desconfortáveis com seus personagens mais ou menos caricatos.

O diretor Daniel Cohen teve uma ideia legal e a chance de fazer uma “comédia psicológica”, capaz de divertir enquanto analisa o comportamento humano. Porém, ele não foi tão longe e acabou entregando só mais uma comédia divertidinha. O que tem lá o seu mérito.

Onde assistir

Você pode comprar ou alugar “Um brinde ao sucesso” em várias plataformas de streaming.

Sobre o/a autor/a

1 comentário em “Criatividade causa inveja na comédia francesa “Um brinde ao sucesso””

  1. Gostei da leveza do filme, dei boas risadas com o casal nada criativo e invejosos!! Acho que o autor trata com sutileza sobre pessoas tóxicas que estão ao nosso redor, e por fazerem parte da nossa vida, não percebemos. Amei!!!

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