Prefeituras do Paraná gastaram R$ 1,2 bilhão com a contratação de atrações artísticas (cantores, cantores, duplas e bandas musicais) entre o início de 2021 e o primeiro semestre deste ano, segundo dados do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR). Os dados estão disponíveis no Painel de gastos com Eventos Municipais do TCE, criado com base em informações fornecidas pelos próprios municípios.
O Painel lista 10,9 mil empenhos feitos desde 2021, com valores a partir de R$ 20 mil, para despesas classificadas contabilmente como "Festividades e Homenagens e Contratação Artística e Cultural". Só seis das 399 cidades do estado não fizeram contratações deste tipo no período analisado. Foram identificados 1.158 artistas e o valor médio de cada contratação foi de R$ 112,3 mil.
Segundo o Tribunal, há indícios de uso indevido de recursos que deviam ser destinados à saúde, à educação básica, ao Fundo do Idoso, ao Fundo Municipal de Reequipamento do Corpo de Bombeiros (Funrebom) e à iluminação pública. O TCE informou que vai instaurar procedimentos de fiscalização nos casos em que ficar caracterizado o uso irregular de recursos.
Impacto no orçamento
O impacto das contratações no orçamento municipal é maior em cidades menores. Curitiba, por exemplo, é a quarta em valores totais, R$ 9,9 milhões, mais isso representa apenas 0,08% da Receita Corrente Líquida (RCL) da cidade. Em Santo Antônio do Paraíso, no Norte do estado, as contratações representaram 5,91% da RCL.
Além da RLC, o Painel do TCE compara os gastos com festividades aos valores investidos pelas prefeituras em saúde e educação desde 2021. Santo Antônio do Paraíso destinou a shows 30,39% do valor enviado à saúde e 24,63% do investido na educação. Ou seja: desde 2021, a prefeitura destinou à contratação de shows o equivalente a 55,02% do que investiu em saúde e educação.

Contratações de artistas feitas com dispensa de licitação vêm gerando debates em todo o país. Em 2024, a Justiça cancelou uma apresentação do cantor sertanejo Gusttavo Lima em Campo Alegre de Lourdes (PE), que estava em situação de calamidade causada pela seca. O cachê seria de R$ 1,3 milhão. No Paraná, os 14 artistas que ganharam mais de R$ 9 milhões desde 2021 são sertanejos:
Artistas que ganharam mais desde 2021
- Fernando e Sorocaba: R$ 18,1 milhões
- Guilherme e Benuto: R$ 13 milhões
- Ana Castela: R$ 12,6 milhões
- Maiara e Maraisa: R$ 11,2 milhões
- Luan Pereira: R$ 11,1 milhões
- Leonardo: R$ 10,6 milhões
- Clayton e Romário: R$ 10,4 milhões
- Rio Negro e Solimões: R$ 9,8 milhões
- Léo e Raphael: R$ 9,8 milhões
- Mato Grosso e Mathias: R$ 9,3 milhões
- Antony e Gabriel: R$ 9,1 milhões)
- Bruno e Barreto: R$ 9 milhões
- Bruno e Marrone: R$ 9 milhões
- João Bosco e Vinícius: R$ 9 milhões
A dupla Fernando e Sorocaba aparece em 66 contratações e recebeu 1,51% do total pago a artistas desde 2021. O valor médio por contratação foi de R$ 274,8 mil. Eles já apareciam como líderes de faturamento em outro levantamento publicado pelo Plural, que mostrou o gasto de R$ 675 milhões com a contratação de shows por prefeituras desde 2023.
Municípios que mais comprometeram a RCL
Em cidades menores, a contratação de artistas compromete uma parcela maior das receitas:
- Santo Antônio do Paraíso: 5,91%
- Santa Cecília do Pavão: 5,06%
- Cruzmaltina: 4,73%
- Arapuã: 4,62%
- Porto Rico: 4,59%
- Maripá: 4,42%
- Leópolis: 4,36%
- Alvorada do Sul: 4,33%
- Primeiro de Maio: 4,28%
- Corumbataí do Sul: 4,17%
Shows x Saúde
Santa Cecília do Pavão, no Norte do estado, foi o município que mais gastou com shows em relação ao investimento feito em saúde desde 2021. Foram R$ 1.715.387 em festividades, 30,77% dos R$ 5.575.158,77 investidos em saúde. Veja os dez primeiros do ranking:
- Santa Cecília do Pavão: 30,77% (R$ 1,7 milhão em shows)
- Santo Antônio do Paraíso: 30,39% (R$ 2 milhões em shows)
- Itaipulândia: 29,95% (R$ 4,5 milhões em shows)
- Alvorada do Sul: 29,11% (R$ 3,5 milhões em shows)
- Porto Rico: 26,35% (R$ 2,6 milhões em shows)
- Santa Terezinha de Itaipu: 26,02% (R$ 6,5 milhões em shows)
- Primeiro de Maio: 25,33% (R$ 3 milhões em shows)
- Quarto Centenário: 24,09% (R$ 1,7 milhão em shows)
- Leópolis: 23,83% (R$ 1,7 milhão em shows)
- Maripá: 23,78% (R$ 2,7 milhões em shows)
Shows x Educação
Em relação ao orçamento da educação, quem mais gastou com shows foi Santa Terezinha do Itaipu, no Oeste do estado. Foram R$ 6.572.876,17 em festividades, 29,06% dos R$ 22.618.314,47 destinados à educação. Veja a lista de cidades:
- Santa Terezinha de Itaipu: 29,06% (R$ 6,5 milhões em shows)
- Santo Antônio do Paraíso: 24,63% (R$ 2 milhões em shows)
- Porto Rico: 22,01% (R$ 2,6 milhões em shows)
- Santa Cecília do Pavão: 21,83% (R$ 1,7 milhão em shows)
- Sapopema: 21,19% (R$ 2 milhões em shows)
- Itaipulândia: 20,95% (R$ 4,5 milhões em shows)
- Alvorada do Sul: 20,29% (R$ 3,5 milhões em shows)
- Corumbataí do Sul: 19,09% (R$ 1,4 milhão em shows)
- Jundiaí do Sul: 18,51% (R$ 1,3 milhão em shows)
- Presidente Castelo Branco: 18,46% (R$ 1,6 milhão
Quem gastou mais
- São José dos Pinhais: R$ 25.694.685,56 (1,35% da RCL)
- Ponta Grossa: R$ 10.998.326,06 (0,67% da RCL)
- Castro: R$ 10.968.565,16 (2,37% da RCL)
- Curitiba: R$ 9.986.012,16 (0,08% da RCL)
- Londrina: R$ 9.936.982,36 (0,30% da RCL)
- Fazenda Rio Grande: R$ 7.997.000,20 (1,28% da RCL)
- Santa Terezinha de Itaipu: R$ 6.572.876,17 (3,77% da RCL)
- Cascavel: R$ 6.572.750,64 (0,28% da RCL)
- Marechal Cândido Rondon: R$ 6.359.113,4 (1,49% da RCL)
- Paranaguá: R$ 6.355.614,80 (0,54% da RCL)
Valor médio das contratações:
- São José dos Pinhais: R$ 1.102.756,82
- Santo Antônio da Platina: R$ 490.000
- Fazenda Rio Grande: R$ 399.850,01
- Ortigueira: R$ 376.657.40
- Alvorada do Sul: R$ 358.628,00
- Loanda: R$ 353.500,00
- Assaí: R$ 332.998,75
- Andirá: R$ 309.701,99
- Atalaia: R$ 309.697,00
- Guaíra: R$ 308.333,33
De acordo com o TCE, o ano com maior registro de gastos foi 2025, com R$ 403,5 milhões, seguido por 2024, com R$ 292,2 milhões. O menor gasto foi em 2021: R$ 25,1 milhões. De janeiro a agosto de 2026, foram R$ 144,7 milhões. Transferências feitas por meio de emendas parlamentares totalizaram R$ 4,3 milhões no período (0,35% do total).
