O Paraná é o segundo estado mais perigoso do Brasil para candidatos e ocupantes de cargos eletivos. A 4ª edição da pesquisa "Violência Política e Eleitoral no Brasil", produzido pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, mapeou 31 casos no estado desde o fim das eleições municipais de 2024. As mulheres foram o alvo em 80% das ocorrências. São Paulo, com 67 registros, foi o estado mais violento no período.
Ao todo, o levantamento reuniu 354 ocorrências em todo o país, com base no monitoramento de notícias e denúncias públicas. O Paraná ultrapassou estados que historicamente têm uma incidência maior de violência política, como Ceará (29 casos) e Rio de Janeiro (28).
Das 31 ocorrências registradas no estado, 60% foram em Curitiba e 25% envolveram alguma parlamentar negra. Entre os alvos da violência estiveram 23 vereadores, quatro deputados estaduais, uma deputada federal, um prefeito, um vice-prefeito e um dirigente partidário. Foram 21 casos de ofensa, cinco de ameaça, dois de criminalização, um de assassinato, um de atentado e um de agressão física. As vítimas pertencem a 12 partidos, mas em 42% dos casos os alvos eram filiados ao PT.
Ataques machistas e misóginos foram registrados em 68% dos casos dirigidos a mulheres no estado. O estudo cita um episódio ocorrido durante a posse na Câmara Municipal de Curitiba, em de janeiro de 2025, quando um blog afirmou que as vereadores resolveram "sexualizar com decotes provocantes".
A morte com indícios de motivação política foi a de João Garé (União Brasil), vereador eleito no município de Salto do Itararé, no Norte do estado. Garé foi morto a tiros quando estava na casa dos pais. Segundo a Polícia Civil, o crime pode ter tido o envolvimento do suplente do vereador, Odair José Carvalho da Silva (União Brasil).
Para Gisele Barbieri, coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos e uma das organizadoras da pesquisa, os números deixam claro que a violência contra a mulher é sistêmica. “Esse número também revela o quanto o nosso sistema democrático impede o acesso das mulheres aos espaços de poder e decisão”.
Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global, avalia que a violência política é um fenômeno permanente, que não se restringe a períodos eleitorais e se manifesta sobretudo nos municípios. “Essa violência atinge diretamente quem ocupa espaços de decisão e exerce poder sobre contratos e recursos públicos. Estamos diante de um cenário que ameaça não apenas a vida de representantes políticos, mas também o funcionamento das instituições democráticas”.
A pesquisa "Violência Política e Eleitoral no Brasil" analisa dados desde 2016. Em dez anos, foram mapeados 1.937 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças. Os dados preliminares da 4ª edição da pesquisa apresentam dados do período pré-eleitoral. Dados relacionados ao primeiro turno devem ser lançados na próxima semana. A versão completa da 4ª edição será lançada após o segundo turno das eleições, no dia 25 de outubro.
Casos recentes
No dia 18 deste mês, a deputada estadual e candidata a federal Luciana Rafagnin (PT) denunciou uma invasão ao comitê de campanha em Francisco Beltrão, no Oeste do estado. Segundo a parlamentar, um homem invadiu o comitê, virou uma mesa e destruiu materiais de campanha. No mesmo dia, um morador da cidade publicou um vídeo no Instagram com panfletos da candidata sendo incendiados.
Na semana passada, a também deputada estadual e candidata a federal Ana Júlia (PT) denunciou depredação e roubo de materiais de campanha nas ruas de Curitiba. Os dois casos foram comunicados à Polícia Civil.