A 3ª Vara Criminal de Londrina condenou o ex-vereador e ex-deputado federal Emerson Miguel Pietriv, conhecido como Boca Aberta, a 16 anos, 7 meses e 15 dias de prisão em regime aberto, além de 2.508 dias-multa, pela prática dos crimes de desacato, injúria e calúnia contra servidores públicos. A mulher dele, Marly de Fátima Ribeiro, conhecida como Mara Boca Aberta, foi condenada a 6 meses de prisão. Ele é candidato a deputado federal e Mara a estadual. Eles podem recorrer da decisão.
Em maio de 2025, Boca Aberta ofendeu o procurador-geral da Câmara Municipal de Londrina, Miguel Angelo Aranega Garcia, no estacionamento do Legislativo. Segundo a denúncia, ele chamou Garcia de "vagabundo" e "bandido", acusou-o de receber propina e o ameaçou com a fala "sua hora vai chegar".
Em seguida, Pietriv foi até a entrada da Câmara e passou a ofender o vereador Claudinei Pereira dos Santos (PL), conhecido como Santão, chamando-o de "vereador de bosta". Três assessores do parlamentar também teriam sido ofendidos. Santão, que é policial rodoviário federal, foi até seu carro e pegou uma algema para dar voz de prisão a Boca Aberta, mas o ex-deputado teria se refugiado em uma agência da Caixa Econômica Federal.
As ofensas teriam continuado na agência bancária. De acordo com o processo, Boca Aberta chamou o vereador de "bandido", "vagabundo", "pilantra" e "podre". O ex-deputado teria afirmado ainda que Santão tinha roubado sua carteira e disse que o vereador "está acostumado e roubar o fundo partidário". Ele também desacatou uma assessora de Santão, perguntando se ela tinha mantido relações sexuais com o então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati (PP).
Boca Aberta foi encaminhado para a Central de Flagrante da Polícia Civil. No local, Marly de Fátima Ribeiro teria desacatado Santão, chamando-o de "covarde". Ela foi vereadora de Londrina entre 2021 e 2024.

Depois disso, entre 16 de maio de 2 de junho de 2025, Boca Aberta ofendeu Santão em 24 postagens no Facebook e no Instagram, de acordo com a denúncia. Ele chamou o vereador de "drogado com o nariz cheio", "vagabundo, covarde, agressor de mulher", "orangotango", "pilantra", "cafajeste" e "policial fake", entre outras ofensas.
Boca Aberta divulgou ainda imagens e os salários de cinco assessores parlamentares da Câmara de Londrina, chamando-os de "bandidos travestidos de assessores" e os acusou dos crimes de lesão corporal e corrupção passiva. Segundo Pietriv, eles foram pagos para "invadir a Caixa Econômica Federal e agredir, bater e espancar", referindo-se ao dia de sua prisão.
O que diz a defesa
A defesa de Boca Aberta e Mara Boca Aberta informou que protocolou Recurso de Apelação Criminal e que confia na reversão da condenação. Para o advogado Benedito Silva Júnior, a sentença é desproporcional, "superior, inclusive, ao patamar máximo abstratamente previsto para o crime de tráfico de drogas em sua forma simples, de até 15 anos".
"Para a defesa, o resultado revela desproporção manifesta entre a gravidade concreta dos fatos — publicações e manifestações verbais no contexto de uma disputa política — e a sanção efetivamente imposta", diz o advogado.
Segundo Benedito Silva Júnior, Mara Boca Aberta foi vítima de conduta abusiva por parte do vereador Santão quando eles estavam na agência da Caixa Econômica Federal. O parlamentar foi obrigado a indenizar Mara Boca Aberta em R$ 20 mil e Boca Aberta em R$ 10 mil.
"Para a defesa, o caso reflete um cenário mais amplo, em que a liberdade de expressão — sobretudo no debate político — vem sendo cada vez mais restringida no país. Criminalizar manifestações verbais e publicações feitas no contexto de uma disputa política, com penas dessa magnitude, é um episódio lamentável para o exercício democrático e para a saúde do debate público", diz a nota do advogado. "Vamos recorrer até o fim em favor de Emerson e de Marly e não vamos medir esforços nem recursos para reverter essa decisão”, afirmou o advogado.
Candidatura fake
Em maio do ano passado, a Justiça Eleitoral tornou Boca Aberta, Mara Boca Aberta e o filho do casal, Matheus Vinicius Ribeiro Petriv, inelegíveis por oito anos, até 2030. Ele tentou registrar sua candidatura ao Senado nas eleições de 2022, pelo PROS, mas não obteve o registro.
Mesmo sem ter sua candidatura ao Senado formalizada, Boca Aberta teria feito campanha como candidato, impulsionando as campanhas de seu filho, que concorria a deputado estadual, e de sua mulher, que concorria a federal (eles não foram eleitos). Ele teria sido beneficiado com recursos do Fundo Especial de Financiamento Eleitoral repassados à campanha de sua mulher, mesmo sem ter um CNPJ próprio para a campanha.
O Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) entendeu que os recursos foram usados para desequilibrar a disputa eleitoral, o que caracterizaria abuso de poder econômico e dos meios de comunicação. Mara Boca Aberta declarou ter recebido R$ R$ 1.243.522,00, valor oriundo do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento Eleitoral.
Boca Aberta já teve dois mandatos cassados. Em 2017, a Câmara Municipal de Londrina cassou o mandato do então vereador por quebra de decoro parlamentar, por fazer uma “vaquinha” a fim de pagar uma multa eleitoral. Ele conseguiu concorrer a deputado federal após uma decisão do TRE-PR e foi eleito. Em agosto de 2021, o TSE cassou seu mandato de deputado, já que, pela Lei da Ficha Limpa, a cassação por quebra de decoro gera inelegibilidade.
