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19 jun 2019 - 10h35

:Plural Explica: O que é bom jornalismo?

Existe bom jornalismo? Como definimos o que é esse tal bom jornalismo? O que é credibilidade? Há veículos com mais credibilidade que outros? Como mensurar a qualidade do trabalho jornalístico?

Olá ouvintes do Plural, este é o segundo episódio do Plural Explica.

Nosso tema hoje é: o que é bom jornalismo?

Desde o início da publicação de matéria do The Intercept sobre chats entre integrantes da Força Tarefa da Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro, o debate sobre a qualidade e relevância do material tem sido animado. Não é novidade. Sempre que um conteúdo jornalístico agita o país, em paralelo sempre se discute se a decisão de publicar foi correta, se a reportagem tem qualidade ou relevância, se o jornalista e o veículo são isentos ou têm uma agenda oculta.

Na realidade, bons jornalistas debatem as mesmas coisas todos os dias. Cada vez que decidimos se vamos publicar ou não algo, são exatamente essas dúvidas que precisamos responder.

Mas afinal, existe bom jornalismo? Como definimos o que é esse tal bom jornalismo? O que é credibilidade? Há veículos com mais credibilidade que outros? Como mensurar a qualidade do trabalho jornalístico?

Pois bem, vamos começar essa conversa estabelecendo alguns conceitos importantes. Primeiro: o que são fatos? Considere as seguintes afirmações:

Primeira afirmação: Ana tem 1,71 de altura.

Segunda afirmação: Ana é alta.

 

Qual é o fato? O fato é que Ana tem 1,71 de altura. Ué, mas não é fato que ela é alta? Não necessariamente. O adjetivo alta sem qualquer qualificação (ou seja, a indicação de como se chegou a essa conclusão) é uma opinião. O que faz de Ana alta? Ela tem 1,71, né? Mas se eu tenho 1,80, minha tendência não seria considerar ela baixa? Ou pelo menos de estatura mediana?

 

Ou seja, a qualificação de Ana como alta pode não ser unânime. Mas então a Ana ser alta nunca será um fato? Pode ser um fato, sim. Mas como? Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a altura mediana dos homens adultos brasileiros entre 20 e 29 anos é de 173 centímetros, enquanto a das mulheres na mesma faixa etária é de 160 centímetros.

 

Ou seja, em comparação com essa média, Ana é, de fato, alta. Mais precisamente, ela tem onze centímetros a mais que a média das mulheres brasileiras.

 

Note que entre a opinião de que Ana é alta e o fato dela ser alta temos dois elementos: o primeiro é que temos a média de altura das mulheres brasileiras, ou seja, um parâmetro com o qual podemos comparar a altura da Ana. O segundo elemento é que essa média é uma informação de reconhecida precisão científica  – veja bem, o IBGE não chuta os valores que divulga. Ele divulga não só os dados, mas a metodologia científica usada para chegar a eles, ou seja, trata-se de informação relevante. Então sabemos de fonte reconhecida e cuja metodologia está clara que a média de altura das mulheres no Brasil é de 160 centímetros.

 

Temos, pra resumir: o dado e a fonte. O dado é preciso e tem uma metodologia de obtenção. E a fonte é primária, ou seja, é o próprio IBGE que pesquisa esse dado.

 

Simples, não? Pois é assim que se avalia a qualidade do jornalismo. Uma reportagem é tão boa quanto são os fatos contidos nela e as fontes desses fatos. O efeito prático disso é que não existe um jornal bom, ou um veículo jornalístico que tem credibilidade.

 

A qualidade do jornalismo é sempre medida caso a caso. Claro que é mais comum que jornais que publicam conteúdo de qualidade com frequência continuem a publicar conteúdo de qualidade. Isso porque o jornal é um produto e se o diferencial do meu produto é a qualidade jornalística, na medida do possível essa característica será preservada.

 

Mas mesmo jornais bons cometem erros. E tomam decisões ruins. É algo intrínseco ao exercício da profissão.

 

Não estou aqui justificando o mau jornalismo. Mas o fato é que quem é jornalista, em geral, está reportando os fatos enquanto eles acontecem. E tem pouco tempo para lidar com grandes quantidades de informação. Erros acontecem. Como o bom jornalismo lida com eles? Com transparência, explicando qual caminho foi percorrido na apuração, quais decisões foram tomadas. E corrigindo os erros sempre que possível.

 

Para saber se o jornalismo que você consome é bom o ideal é se perguntar toda vez que lê/assiste/ouve algo o seguinte:

– as fontes das informações estão indicadas?

– qual a relação das fontes com a informação? São fontes primárias – fontes que têm relação direta com a informação? Lembre-se que quanto mais próxima da informação, melhor a fonte.

– o quão precisas são as informações? É melhor informar que a Ana tem 1,71, do que dizer que a Ana é alta.

 

E quando a fonte é anônima? A fonte anônima é exceção no jornalismo. Ela é usada para proteger a fonte. Só se usa fonte anônima quando isso é justificado. Por exemplo: só se poderia ter determinada informação através dessa fonte, mas ela não pode ser identificada porque correria risco de vida, ou sujeita a retaliações. E, claro, a informação obtida é passível de checagem e é de interesse público.

 

Mas mesmo usando fonte anônima, o bom trabalho jornalístico deixa claro porque ela não é nomeada e qual o percurso feito para conferi-la. Ou seja, os elementos para você julgar a qualidade de um material jornalístico estão no material jornalístico.

 

E não tem nada a ver com você concordar ou não da informação veiculada. Muitas vezes o senso comum vai contra o senso comum, contra o que sabemos do mundo. Mas se as informações são precisas, as fontes são de qualidade, nos resta esperar o desenvolvimento da história para saber se aqueles fatos serão desmentidos ou não.

 

Fora isso, aceite que dói menos.

Quer saber mais sobre o assunto? Recomendo muito a leitura de Elementos do Jornalismo, de Bill Kovach.

Termina aqui a segunda edição de Plural Explica. Se você quer ver algum tema analisado aqui, mande sua sugestão para falecom@plural.jor.br.

Eu sou a jornalista Rosiane Correia de Freitas e esse episódio fica por aqui. Até a próxima.

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