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Opinião: Curitiba copiou a Times Square de Nova York. Faltou copiar o resto

Enquanto a capital paranaense autorizava 592 metros de telões luminosos no Centro, a prefeitura de Nova York abriu o inventário de imóveis públicos para moradia, mapeou todas as creches da cidade e criou um escritório para trabalhadores. Nada disso é caro. Quase tudo é copiável

Opinião: Curitiba copiou a Times Square de Nova York. Faltou copiar o resto
Foto: James Ting / Unsplash

No dia 29 de novembro de 2024, a poucas semanas de deixar o cargo, o prefeito Rafael Greca assinou o Decreto 1.871/2024. O texto cria o Distrito de Mídia: um trecho de 592 metros da Rua Marechal Deodoro, entre a Travessa da Lapa e a Rua Desembargador Westphalen, onde empresas de mídia exterior passaram a poder instalar telões, letreiros e anúncios cinéticos nas fachadas dos prédios. São 20 mil metros quadrados de potencial publicitário. Na cerimônia, Greca citou Times Square, Trafalgar Square e o cruzamento de Shibuya. O secretário do Urbanismo pediu que a iniciativa privada investisse ali "o melhor de vocês".

A contrapartida pública que o decreto exige é uma hora de conteúdo de utilidade pública por dia, em inserções de até 30 segundos, com data e horário definidos pela Secretaria de Comunicação Social. É isso.

Vale registrar o que Curitiba escolheu importar de Nova York: o brilho. Nos últimos meses, a prefeitura de lá vem produzindo um conjunto de políticas bem mais interessante — e, na maioria dos casos, bem mais barato. Vale a pena olhar.

Um mapa de tudo que é público e pode virar casa

Em 30 de julho, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, anunciou a publicação o LIFT Tracker (de Land Inventory Fast Track), um mapa interativo com mais de 100 terrenos e imóveis municipais destinados a habitação. Juntos, devem gerar mais de 50 mil moradias. Cada ponto do mapa mostra em que estágio o projeto está: anunciado, em busca de financiamento, em licitação, em obra.

A ferramenta não é o programa — é a prestação de contas do programa. A cidade se comprometeu a lançar editais para pelo menos cinco novas áreas públicas por ano, e o mapa serve para que qualquer morador cobre o cumprimento. Também mostra onde a moradia vem combinada com outro equipamento: uma biblioteca no térreo, apartamentos em cima.

Curitiba tem os dois lados dessa equação. Tem o patrimônio: o Portal da Transparência mantém uma base de Bens Imóveis do município, com terrenos e edificações. E tem a demanda: a Pesquisa de Necessidades Habitacionais do Paraná, da Cohapar, calculou em mais de 90 mil o número de famílias sem moradia adequada na capital — 43.461 delas vivendo em 322 favelas e 7.400 em 93 loteamentos irregulares. Na fila da Companhia de Habitação Popular de Curitiba estão quase 59 mil inscritos.

O que não existe é o cruzamento entre as duas coisas. Não há, hoje, um documento público que responda a uma pergunta simples: quais imóveis do município estão vazios ou subutilizados, e quantas moradias caberiam neles? Enquanto essa pergunta não é respondida, terrenos públicos continuam sendo tratados como reserva de valor — e é a especulação privada que dita o preço do metro quadrado na cidade inteira, inclusive para a classe média que não entra em nenhuma faixa de programa habitacional.

Fazer o inventário é trabalho de gabinete. Publicá-lo é decisão política.

Um escritório para quem trabalha

Em 3 de setembro deste ano, o prefeito Zohran Mamdani assinou a Ordem Executiva 20, que criou o Escritório do Poder do Trabalhador — o primeiro do tipo em uma prefeitura americana. A função não é fiscalizar empresas: é informar trabalhadores. O escritório faz audiências públicas, mapeia setores onde as condições são piores, encaminha pessoas a sindicatos e organizações de apoio e transforma o que ouve em proposta de política pública. Entre as prioridades declaradas estão trabalhadores imigrantes, trabalhadores de plataforma, fraude na classificação de vínculo e riscos ligados ao calor.

Dois meses antes, em 22 de junho, a mesma prefeitura tinha assinado uma ordem executiva específica sobre calor extremo. Os números que a justificam: 1,4 milhão de nova-iorquinos — um terço da força de trabalho da cidade — passam períodos longos trabalhando ao ar livre, e o calor contribui para cerca de 500 mortes por ano no município. A ordem manda o órgão de saúde e a defesa civil produzirem orientações multilíngues para trabalhadores externos, obriga cada secretaria a ter um plano de prevenção de doença por calor para seus servidores e terceirizados, determina um estudo sobre a relação entre calor e afastamentos, e dá prazo até março de 2027 para que o órgão de obras revise as regras de canteiro. Mais de 2.200 totens de rua passaram a exibir a rota a pé para o centro de resfriamento mais próximo, num raio de dez minutos.

Curitiba tem uma população de entregadores e motoristas de aplicativo que a prefeitura não conta, não regula e não protege. E tem um clima que mudou: em fevereiro de 2025, foi a própria prefeitura que publicou uma nota sobre a cidade ter batido recorde de temperatura, com dicas de hidratação. Recomendação de hidratação é o que uma cidade oferece quando não tem política.

Nada nas duas ordens de Nova York exige orçamento novo relevante. Exige que alguém no gabinete do prefeito tenha o trabalho como pauta.

Onde tem creche — e o que fazer no sábado à noite

Em abril, Nova York colocou no ar o endereço nyc.gov/childcare: um mapa único com os cerca de 10 mil prestadores licenciados da cidade — creches em casa, em centros e em escolas —, filtráveis por localização, faixa etária e custo, com informação sobre critérios de elegibilidade e contato. Tem questionário para orientar quem não sabe qual modalidade procura e atendimento por telefone e e-mail em vários idiomas.

Em setembro, abriu The Little Apple, primeira creche gratuita para filhos de servidores municipais, no térreo do prédio da administração no centro de Manhattan: cerca de 370 metros quadrados, quatro salas, 40 crianças de 6 semanas a 3 anos, o ano inteiro, das 8h às 18h. A reforma custou US$ 10 milhões e a economia estimada para cada família atendida chega a US$ 20 mil por ano.

E, em 16 de agosto, a cidade fez o primeiro Parents' Night Out: cinco centros de recreação abertos das 16h às 20h de um domingo, recebendo crianças de 6 a 13 anos para jogos, esporte, arte e atividades com monitores, jantar incluído, de graça, enquanto os pais faziam o que quisessem. Foram quase 300 crianças. Mais de cem saíram com carteirinha de sócio do centro de recreação.

O contraste com Curitiba aqui é direto e mensurável. Em resposta a um pedido de informação da vereadora Laís Leão, a prefeitura confirmou em abril deste ano que 3.888 crianças de 0 a 3 anos aguardam vaga em creche pública ou contratada na cidade — 1.597 delas só na regional da Cidade Industrial. O vale-creche, com impacto orçamentário anual estimado em R$ 49,7 milhões, é um fracasso total.

Uma fila que ninguém consegue medir é uma fila que ninguém precisa explicar. O mapa nova-iorquino não abre nenhuma vaga nova; ele só torna impossível fingir que a informação não existe.

Já o programa de sábado à noite é a ideia mais barata da lista e talvez a de maior alcance. Curitiba tem rede de equipamentos esportivos e de lazer, tem regionais, tem quadras e centros de esporte espalhados. Falta usar isso nos horários em que as famílias mais precisam — à noite e nos fins de semana —, para o pai e a mãe que não têm avó por perto, que trabalham em escala, que precisam de quatro horas para dormir, estudar ou fazer o segundo turno de trabalho. Isso não é lazer. É infraestrutura de cuidado.

O que une essas políticas

Nenhuma delas depende de uma obra. Nenhuma pede um decreto que convide o setor privado a investir e depois cobre uma hora de utilidade pública por dia. O que elas têm em comum é outra coisa: partem de dados que a prefeitura já tem e nunca organizou, e são desenhadas a partir de uma pergunta sobre quem mora na cidade, e não sobre como a cidade aparece.

Um distrito de mídia é uma resposta possível para o esvaziamento do Centro. Não é a única, e é curioso que tenha sido a escolhida — por decreto, sem debate público, semanas antes de uma troca de gestão.

A Marechal Deodoro pode ganhar telões. Isso não impede que a cidade também ganhe um mapa dos próprios imóveis, um escritório que atenda quem entrega comida a 32 graus e uma quadra aberta no sábado à noite. As duas coisas cabem no mesmo orçamento. Só não cabem na mesma ordem de prioridade.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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Assuntos: Artigos

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