Com o voto favorável de parlamentares do PT, PCdoB, PDT e PSB – na contabilidade total, foram 398 votos a favor e apenas 30 contra –, a Câmara dos Deputados aprovou, na quarta (22), regime de urgência na tramitação do Projeto de Resolução de Alteração do Regimento 71/2025.
De autoria dos deputados Gilberto Nascimento (PSD/SP) e Luiz Gastão (PSD/CE), e fruto de uma articulação das bancadas católica e evangélica, o PRC cria, oficialmente, a Bancada Cristã na Câmara. Se aprovado, a aliança, hoje informal, entre parlamentares fundamentalistas, conhecida como “bancada da bíblia”, ganha foro oficial, com direito a participar, com voz e voto, das reuniões de líderes.
Na prática, isso significa que um punhado de parlamentares, não apenas cristãos, mas cristãos fundamentalistas, terão o poder de pautar, travar ou vetar pautas de acordo não com interesses públicos, mas das suas crenças e convicções morais e religiosas.
A justificativa não poderia ser mais cínica e canalha. De acordo com os autores da proposição, mais de 80% da população brasileira se considera cristã e, por isso, “tal realidade social deve encontrar correspondência na representação política e no espaço democrático da Câmara Federal”.
Distorcendo os princípios da Constituição, que assegura a laicidade do Estado, o PRC argumenta que a “formalização da Bancada Cristã não tem caráter excludente, mas integrador”, e que sua criação “representa não apenas a valorização da fé, mas o fortalecimento da democracia, na medida em que amplia os instrumentos de participação e organização parlamentar”.
Em um país onde nem pano de prato é laico, a aproximação promíscua entre interesses políticos e religiosos não é um fato novo. Tampouco é inédita a aliança entre a igreja e o Estado, um fenômeno, justiça seja feita, que não é exclusivo à realidade brasileira.
A diferença, agora, é que, principalmente as denominações neopentecostais, não desejam mais simplesmente dividir o poder, como coadjuvantes, com o Estado e os governos. O propósito é exercer o poder dentro do Estado, sequestrando-o, e às suas instituições, em favor de sua visão de mundo reacionária e de um modelo de sociedade, parafraseando um conhecido miliciano golpista, terrivelmente autoritário.
A pretendida captura do Estado, de que a PRC 71/2025 é expressão direta, nada tem a ver com o “fortalecimento da democracia” e a ampliação dos “instrumentos de participação e organização parlamentar”, como defendem, falaciosamente, seus proponentes.
Um projeto de poder
A ampliação dos poderes institucionais da já poderosa “bancada da bíblia” tem propósitos claros, sobejamente demonstrados na atuação de seus parlamentares e sintetizados no discurso de uma de suas lideranças, o deputado Ottoni de Paula (MDB/RJ): organizar o movimento conservador e ser um “contraponto” a “todas as pautas que ferem o conservadorismo brasileiro”.
Como de hábito, há uma artimanha retórica aqui. O “contraponto” aos interesses conservadores são ações planejadas e coordenadas para barrar pautas progressistas, especialmente aquelas que pretendem ampliar e assegurar direitos e liberdades das chamadas minorias. Na mira estão, por exemplo, os direitos de LGBTs, mulheres e outros grupos vulneráveis, como os povos originários e comunidades negras e periféricas, vítimas preferenciais da sanha persecutória do fundamentalismo religioso.
O exercício parlamentar, nesse sentido, se alimenta e retroalimenta práticas e discursos disseminadas nas redes sociais e templos religiosos Brasil afora: a invenção de inimigos e a disseminação do ódio e do medo como afetos centrais de uma liturgia e uma teologia do domínio, vinculada à ideia de uma guerra espiritual constante contra o mal em suas diferentes encarnações: a esquerda, o comunismo, a “ideologia de gênero”, etc.
Uma estratégia favorecida pelo empobrecimento do debate público nos últimos anos e pelo recrudescimento de um discurso reacionário que é, entre outras coisas, reação aos avanços, tímidos, mas significativos no contexto brasileiro, das demandas e direitos dos grupos subalternizados que mencionei acima.
A criação de uma bancada parlamentar cristã é mais uma peça no esforço de movimentar a engrenagem de nosso retrocesso social e político. Não casualmente, a iniciativa vem no rastro da escalada golpista e autoritária de que ela é corolário. Porque ela caminha, pari passu, à disseminação das fake news, aos pedidos de intervenção militar, ao 08 de janeiro e ao esforço da extrema-direita de blindar aliados e desestabilizar o governo.
O fundamentalismo religioso, portanto, não se limita a um código de crenças transcendentes. Ele toma forma na e pretende impor à realidade uma soma de condutas e regras que tomam como modelo, justamente, aquele conjunto de crenças religiosas e valores morais considerados fundantes e fundamentais. E em relação a eles não se admite nem tolera outra atitude que não a obediência e a servidão, preferencialmente voluntária.
Estamos assistindo ao avanço de um empreendimento político que pretende, como comentei, capturar o Estado em benefício de uma forma única de religião e sua visão intolerante e estreita de mundo. Nessa concepção, quem não crê como eles, ou simplesmente não crê é, além de um subcidadão, uma espécie de encarnação do “mal” de quem eles, os bons e justos, serão libertados por ou em nome de Deus.
Mas não é sobre Deus, nem sobre Cristo: é um projeto de poder que mobiliza um repertório religioso para fins ideológicos. E que coloca em risco os direitos, a liberdade, a segurança e a vida de quem não compartilha de suas crenças.