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“História” leva ao palco um exercício de escrita da história

A peça mostra que todo gesto que institui um monumento, um “marco” visível do passado, decreta a morte de outros múltiplos passados a quem se negou o direito à lembrança.

“História” leva ao palco um exercício de escrita da história
Foto: Ethel Braga/Divulgação

Há um momento em “História”, peça da Companhia Brasileira de Teatro em cartaz no Teatro Guairinha desde o último dia 6, em que o ator Rafael Bacelar – que divide o palco com a atriz Carolina Virguez e o músico Felipe Storino –, descreve lentamente o ciclo de um hematoma no corpo humano. 

Com uma linguagem quase clínica, ele explica que o hematoma, uma resposta do corpo a um choque – uma batida, uma pancada, um soco –, deixa marcas que permanecem visíveis mesmo depois de passado o acontecimento gerador. E embora a coloração mude ao longo dos dias – do vermelho ao roxo, até o verde e o amarelo da fase final –, o corpo continua registrando o impacto mesmo após desaparecidos, da superfície da pele, os traços visíveis do trauma.

Do corpo, se chega à história. Na história, como no corpo, há “hematomas”, marcas nem sempre visíveis de experiências extremas e acontecimentos violentos que, mesmo passados, irrompem e se inscrevem no presente. Na história, como no corpo, há passados que nunca cessam de passar. 

Com um texto construído coletivamente, “História”, com direção de Márcio Abreu – também responsável pela dramaturgia final – é a última peça da trilogia iniciada com “[Ao vivo] Dentro da cabeça de alguém”, de 2024, e continuada com “Sonho elétrico”, do ano passado, ainda inédita nos palcos curitibanos. 

Na descrição sucinta da peça, lê-se que seu ponto de partida é “a importância da relação entre memória coletiva e memória íntima na construção de uma trajetória histórica de um país chamado Brasil”. O espetáculo, no entanto, é muito maior e mais complexo do que é possível dizer dele em uma breve descrição.

Nele, tudo colabora para o estranhamento e o incômodo. A cenografia,  que remete à devastação beckettiana de “Esperando Godot”, ou ao deserto tecno-hipnótico, e igualmente devastado, de “Sirât”, do espanhol Oliver Laxe; os monólogos e diálogos que abordam, sem pudor, temas difíceis como a violência doméstica, o machismo e a  homofobia; e a trilha sonora de Felipe Storino, que consegue o improvável: fazer ABBA soar pesado como um soco no estômago. Parece estranho, mas é maravilhoso.

Mas “História”, a peça, é também uma reflexão e um exercício de “escrita” da história, a disciplina. De maneira indisciplinar e não acadêmica, a Cia. Brasileira de Teatro encena, no palco, alguns dos principais debates hoje em curso no campo. A começar pelo modo como problematiza as trajetórias, grupos e indivíduos infames naquilo que se pode denominar, um pouco genericamente, de “história oficial”.

O trabalho não pretende negar a importância de fixar alguns marcos acontecimentais, mas reconhecer seu caráter excludente. Todo gesto que institui um monumento, um “marco” visível do passado, decreta a morte de outros múltiplos passados a quem se negou o direito à lembrança. Em “História”, esses pretéritos obliterados são visibilizados em uma tessitura a um só tempo sensível e contundente. 

O corpo cont(r)a a história

Não são quaisquer memórias individuais representadas no palco, mas lembranças atravessadas pelas muitas formas de violência – físicas, emocionais, discursivas, simbólicas –, aquelas que o grupo escolhe para tecer o encontro entre o pessoal e o coletivo. No olhar direcionado às vidas infames, o espetáculo faz aparecer a violência da história disciplinar, ela própria responsável, muitas vezes, por produzir e legitimar silêncios que naturalizam, sob a égide da historicização, as barbáries passadas. 

O espetáculo “História”, nesse sentido, opera contra a história, e opõe, às narrativas desencarnadas de uma disciplina ainda refém de uma ambição científica herdada do século dezenove, o corpo, naquilo que ele tem de mais subversivo: com suas vozes e gestos, Rafael Bacelar e Carolina  Virguez reverberam dores, angústias e traumas. 

Mas também aquele quinhão de um horizonte de expectativas necessário para forjarmos um outro futuro que não aquele que nos foi arbitrariamente imposto.

Em “Performances do tempo espiralar”, Leda Maria Martins fala de um tempo que se institui pelas “corporeidades”. Uma ideia, argumenta, de que “a experiência e a compreensão filosófica do tempo podem também ser expressas por uma inscrição não necessariamente discursiva e mesmo não narrativa, mas nem por isso menos significativa e eficaz: a linguagem constituída pelo corpo em performance”. 

Em um exercício que chamo de “teórico-dramatúrgico”, o texto de “História” encarna e performa essas múltiplas temporalidades em seu ator e sua atriz (e na voz de Felipe Storino). O objetivo é mostrar que alguns passados coexistem com o presente e atualizam, nesse tempo que nos cabe viver, “hematomas” e “cicatrizes” do passado.Mas essa tomada de consciência é, também, um convite para confrontá-los. 

Sem ser necessariamente otimista, a montagem nos incita ao enfrentamento: o corpo, lugar em que se inscreveram a violência, pode ser também instrumento de resistência, de outros modos de habitar o tempo, de inventar e criar novos passados e imaginar outros e possíveis futuros. 

Em entrevista publicada ontem aqui no Plural, o diretor Márcio Abreu fala da importância da ficção como um “elemento para tornar Memória e História perceptíveis no acontecimento artístico”. Não sem alguma resistência, a história disciplinar vem se esforçando por reconhecer a pertinência de outras narrativas que não aquelas tradicionais e acadêmicas, tais como as ficcionais, para dialogar com públicos mais amplos, especialmente em uma época em que a legitimidade da história vem sendo sistematicamente atacada pelos negacionismos. 

Mas também para representar e atribuir sentido aos nossos traumas e, nesse movimento, talvez, iniciarmos um processo de elaboração e perlaboração desses passados, a difícil  e dolorosa cicatrização de nossos hematomas. “História”, a peça, é um espetáculo indispensável. Mas é um desafio lançado à história, a historiadoras e historiadores dispostos a indisciplinarem nossa prática disciplinar. 

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