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Brasil é uma palavra para definir “barbárie”

O Brasil não é a Palestina, mas o processo de guetização das comunidades periféricas segue lógica semelhante.

Brasil é uma palavra para definir “barbárie”
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
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A principal pergunta sobre a chacina nos Complexos do Alemão e da Penha protagonizadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, comandada pelo governador Cláudio Castro, é simples: o Rio está, hoje, melhor do que estava antes da Operação Contenção? Essa pergunta se desdobra em pelo menos outras duas, igualmente simples: as comunidades dominadas pelo Comando Vermelho se sentem mais seguras? As facções criminosas e o crime organizado saíram da operação enfraquecidos?

Todos nós, à esquerda, ao centro e à direita, sabemos as respostas: não.

Com cerca de 130 mortos, a operação da terça-feira (28) foi a mais letal da história do estado. Mas o crime organizado, notadamente o Comando Vermelho, supostamente o alvo da ação policial, perdeu alguns homens e um punhado de armas, ou seja, nada que abale suas estruturas e seu funcionamento.

Por outro lado, parte da cidade foi direta e indiretamente afetada em sua rotina, principalmente, os milhares de moradores dos complexos do Alemão e da Penha. Os canalhas da extrema-direita repetem, com variações, o mesmo tema da entrevista de Cláudio Castro, segundo o qual, as únicas vítimas foram os quatro policiais mortos durante os confrontos da terça.

Não estivéssemos tão embrutecidos pela lógica do ódio e do despreza à vida, e não seria difícil reconhecer o óbvio: não são apenas os que morreram as vítimas da violência. Com escolas e demais serviços considerados essenciais fechados ou parcialmente comprometidos, famílias inteiras, são vítimas. Sem ter como retornar às suas casas, sitiadas pelas barreiras policiais ou as barricadas do Comando Vermelho, trabalhadores e trabalhadores são vítimas. Ver a comunidade em que vivem transformada em um necrotério a céu aberto, com dezenas de corpos enfileirados à espera de reconhecimento, transforma todas e todos, e não apenas as mães que choram seus filhos, em vítimas.

A violência estatal, no Brasil, não é nova, nem exclusiva ao Rio de Janeiro. Tampouco, tem alguma preferência partidária ou ideológica – a polícia da Bahia, governada pelo PT, é uma das mais violentas do país e, no nosso estado, sob o governo de Ratinho Jr., um bolsonarista, a PM vem batendo recordes de letalidade.

Não é um fato isolado, portanto, mas um projeto político e de poder, cujo objetivo principal e final é a barbárie. Porque não se trata, obviamente, de qualquer coisa que se possa chamar, mesmo remotamente, de uma preocupação legítima com a segurança ou o combate à criminalidade. Mas do recrudescimento de um Estado penal, basicamente, a redução das obrigações do Estado a sua função de polícia.

Um dos resultados desse projeto é que nos tornamos reféns de uma política de segurança baseada, fundamentalmente, no aparelho policial repressivo e na sua crescente necessidade de produzir, nomear e eliminar sempre mais e mais inimigos. Historicamente, este inimigo foi personificado na figura do pobre, na maioria esmagadora das vezes, também negro. Corpos e vidas, além de precários, facilmente descartáveis.

Laboratório periferia

Em seu livro “Laboratório Palestina”, o jornalista australiano de origem judaica, Antony Loewenstein, mostra que o Estado de Israel vem, há anos, usando o território e a população palestinas, notadamente a Faixa de Gaza, como laboratório para testar sua indústria armamentista e seu sempre renovado, e bilionário, arsenal bélico. Um laboratório que prospera mais, quanto maior o ambiente global de instabilidade e as ameaças, reais ou inventadas, de violência.

O Brasil não é a Palestina, mas o processo de guetização das comunidades periféricas, sujeitando-as a um cerco contínuo de violência, seja do crime organizado e das facções criminosas, seja do Estado por meio de seu braço armado, a polícia, segue lógica semelhante. E a megaoperação no Rio é emblemática nesse sentido.

Seu caráter populista e espetacularizado serve, de um lado, para encobrir a inexistência de uma política efetiva de segurança pública no estado. E, de outro, para sedimentar o caminho eleitoral do governador Cláudio Castro ao Senado. Por isso, é inútil exigir do governo do Rio de Janeiro, há anos comandado pela extrema-direita, uma resposta inteligente e efetiva no combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas.

Porque essa é a resposta da extrema-direita, seja em Israel ou no Rio de Janeiro: a produção da morte em escala industrial e a exibição midiática de corpos desprovidos de quaisquer direitos, inclusive à identidade. E pouco importa se esses corpos são palestinos ou negros; no limite, são matáveis e, na lógica do extermínio, ninguém que realmente importa lhes sentirá a falta.

O roteiro disso que chamam de “guerra às drogas”, em que o inimigo é nomeado a partir de atributos de classe e etnia – o que o sociólogo carioca, Edmundo Campos Coelho, já nos anos de 1970 chamou de marginalização da criminalidade e criminalização da marginalidade –, produz, entre outras coisas, a inércia frente à violência policial. Principalmente entre as camadas médias urbanas, ela é naturalizada, quando não festejada, como estamos vendo, mais uma vez, nesses últimos dias.

Trata-se, portanto, de práticas que produzem subjetividades cada vez mais embrutecidas, porque insensíveis à violência. E moldam a percepção, amplamente generalizada, de que às vítimas preferenciais dessa violência, as “peles alvo”, não apenas inexiste alternativa, como são merecedoras de uma cidadania de segunda classe que as condena a uma permanente condição de precariedade.

Nesse sentido, Cláudio Castro – que deveria estar preso, mas que talvez vire mesmo Senador – diz a verdade: a operação foi planejada. E ela aconteceu exatamente como planejada. Porque elas existem exatamente para isso: para que pessoas morram, para que cada vez mais a boçalidade fascista tenha com que se deleitar, para que governadores se apressem a congratular-se e prestar solidariedade uns aos outros, e lideranças políticas de extrema-direita lacrem nas redes sociais, enquanto o sangue ainda escorre nas calçadas.

Como disse um colega: o Brasil é isso. A gente é que teima em não aceitar.

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