A mais nova peça de teatro da Companhia Brasileira de Teatro está em cartaz com sua temporada de estreia nacional em Curitiba. As últimas sessões de “História” são até domingo (14), no Guairinha e os ingressos estão à venda (até a publicação deste texto não estavam esgotados). A peça completa a trilogia do grupo de trabalhos que investiga memória, imaginário e história, formada por “Ao vivo [Dentro da cabeça de alguém]”, de 2024 e “Sonho Elétrico”, de 2025.
Marcio Abreu
Em entrevista, Marcio Abreu, fala sobre este novo espetáculo que trata de “relações entre a memória íntima e a memória coletiva”, entre outras coisas, e traz para a cena “fragmentos de histórias diversas, não como uma ideia unívoca, mas com uma perspectiva de múltiplas vozes, uma perspectiva plural”. Ele também explicou como foi o processo de criação da peça e a importância do investimento público em cultura, não para os artistas, para as cidadãs e cidadãos. Para fechar, deu um spoiler das surpresas que a Companhia Brasileira de Teatro reserva para o público em breve. Confira a entrevista completa de Marcio Abreu para o Plural a seguir.
“História”, segue essa pesquisa e reafirma a qualidade mutável da História, essa ciência que investiga e analisa as ações, transformações e permanências nas sociedades humanas ao longo do tempo, criando uma obra no Teatro hoje, que contemple múltiplas narrativas escritas e orais, arquivos, objetos e imagens que se compõem e recompõem, as paisagens individuais e coletivas da vida e da memória. A peça também busca compreender o presente, utilizando fontes como relatos, fotos, histórias, memórias, canções, vestígios, lacunas para reconstruir e repensar as experiências.
O espetáculo “História” fala sobre o quê?
O espetáculo História evoca as possíveis relações entre a memória íntima e a memória coletiva. A estrutura da dramaturgia traz para cena fragmentos de histórias diversas, não como uma ideia unívoca, mas com uma perspectiva de múltiplas vozes, uma perspectiva plural. Então, a gente tem elementos ficcionais articulados com campos de memória dos artistas que estão no elenco da peça e também na equipe criativa, questionamentos sobre violência, sobre quem é representado e quem está fora da história oficial, sobre como podemos construir memória no presente. A peça traz todos esses temas e é construída nessa perspectiva.
Como “História” se relaciona diretamente com as montagens mais recentes da companhia? Não é o primeiro espetáculo do grupo sobre estudos da memória e elaboração da história. De onde vêm esse interesse?
Essa peça é o terceiro movimento de uma trilogia que investiga memória e imaginário e história. A primeira peça da companhia que investiga esses temas é de 2024, chamada “[Ao vivo] Dentro da cabeça de alguém”, que já apresentamos no Festival de Curitiba. É um texto meu a partir dessas questões, com um foco mais forte, mais específico na memória. A gente entra no imaginário, na memória, na cabeça de uma atriz ficcional e faz um percurso também pela história do Brasil através dessa relação da trajetória de vida dela.
A segunda peça é “Sonho Elétrico”, ela estreou ano passado e ainda não veio para Curitiba, está em turnê pelo Brasil. Nela a gente investiga pela perspectiva do sonho, não só como universo onírico, mas como possibilidade de interferência na vida real. Essa peça tem um diálogo forte com o pensamento do neurocientista Sidarta Ribeiro e também de outras várias referências ao redor dessas questões.
E aí, o espetáculo "História" é o terceiro movimento da trilogia e acaba de estrear aqui em Curitiba. Ele tem a perspectiva de pensar a história nessa trilogia que, evidentemente, pensa a contemporaneidade, o mundo de hoje, como agir no mundo para ampliar as perspectivas de vida – e de vida com mais plenitude e menos opressão. Em linhas gerais, é essa a construção dessa trilogia.
A conversa sobre esse tema não é tão rara, mas a realização nos palcos é. É válido hoje enfrentar os desafios de trazer isso ao teatro?
Sim, fazer tudo isso no teatro é urgente. O teatro me parece ser nos tempos atuais uma das linguagens mais poderosas nesse sentido, já que é uma experiência presencial e relacional. Ela acontece num campo de relações entre os artistas que se apresentam, que estão em estado de performance e o público que constrói também a partir não só de uma presença coletiva, mas também da composição de imaginários. Quando você é convocado a integrar a experiência de um acontecimento teatral, você também constrói aquela experiência, de certa maneira, através do seu espírito crítico, através de como aquilo estimula o seu imaginário e a sua memória no tempo presente daquele acontecimento. Então, o teatro é o lugar mais potente, mais vibrante, para que esses temas e essas questões sejam articuladas nas linguagens artísticas e não só compartilhadas com o público, mas construídas também pelo público.
Por favor, fale um pouco sobre o processo de criação coletiva da Companhia Brasileira de Teatro. Como é a dinâmica de trabalho com a presença da equipe de integrantes fixos e de artistas que participam de criações específicas?
Os processos de criação da Companhia Brasileira são muito variados e diversos. A companhia é um núcleo pequeno fixo de artistas, além de mim, a Nadja Naira Naira, que é uma artista múltipla, o José Maria, que é um produtor e também é artista, e a Cássia Damasceno, que além de atriz é administradora da companhia e produtora. E todos nós temos uma dinâmica de colaboração e de pensamento contínuo ao longo desses anos e que, digamos assim, se forma uma trajetória muito profícua e cria a possibilidade de encontros com outros artistas. Então, a Companhia também é um movimento que agrega artistas de linguagens diversas e de lugares, cidades e territórios diversos Brasil afora, e também fora do Brasil, para compor as suas criações.
Especificamente no "História", eu achei importante que a dramaturgia fosse construída não só com textos escritos por mim, mas com uma dinâmica de troca e construção de dispositivos em sala de ensaio para que se gerasse um corpo dramatúrgico mais diverso. Por que, como eu disse no início dessa conversa, para mim que propus o projeto, para abordar ideias de história era fundamental que vozes múltiplas se articulassem. Assim, a gente tem uma dramaturgia que é muito alimentada por uma troca artística nas salas de ensaio. Há um princípio proposto por mim, muitas cenas e textos que são escritos por um dos atores, que é o Rafael Bacelar, outros textos que são meus e tem cenas que são criadas em sala de ensaio a partir de dispositivos formulados por mim, mas também em respostas criativas da atriz Carolina Virgüez, do ator e também de toda equipe criativa, a iluminação, a assistência de direção, a assistência de dramaturgia, os cenários, os figurinos. Tudo isso compõe um corpo dramatúrgico mais amplo e diverso que forma a profusão de linguagens que constitui a peça.
Há planos para próximos projetos? O olhar da Companhia continua direcionado para as questões presentes em “História”?
Sim, o trabalho é sempre contínuo e já temos outros sendo articulados.
Eu fui convidado para um trabalho em Portugal, junto com o Teatro Experimental do Porto. Chama-se "Festa" e tem a colaboração de um artista maravilhoso de Curitiba, o Francisco Mallmann, um grande escritor, poeta, performer e crítico, e a participação de Grace Passô em cena, uma atriz que esteve presente em diversos projetos da Companhia. Além de artistas de Portugal e um de Moçambique. Esse trabalho vai estrear em Portugal, Porto e Lisboa, em outubro e novembro deste ano.
E, ano que vem, temos novas surpresas: novamente a Renata Sorrah estará em um novo trabalho com a gente, o repertório da companhia que continua, essas peças da trilogia seguem circulando. Tem muita coisa pela frente.
A Companhia Brasileira de Teatro está há 25 anos em atividade? Qual a importância de incentivos financeiros públicos para a manutenção de um grupo com trabalho contínuo de produção e também de pesquisa de linguagem na cena contemporânea? A Companhia conseguiria continuar ativa de outra maneira?
Uma companhia como a Companhia Brasileira, um artista como eu – todos os artistas da minha geração e das anteriores, e os mais novos, mais jovens do que a minha geração – dependem, são e formam um sistema cultural público. Sem incentivos e investimentos públicos, a atividade artística não existe, a companhia não existiria na potência e na excelência que existe, um artista como eu não existiria na potência, na excelência e no alcance que existe.
As políticas públicas para as artes não são apenas fundamentais, elas são vitais e são um direito da sociedade brasileira, elas não existem para os artistas, existem para a sociedade brasileira, para cada cidadã e cidadão, para o coletivo da população. Quase a totalidade dos projetos culturais e artísticos brasileiros – e não só no Brasil, no mundo inteiro – precisam de investimento público, assim como quase todos os setores da economia. E o setor da cultura e das artes é um dos que mais gera divisas e retornos não só culturais, mas econômicos para o país. Não há argumento para desautorizar ou para criticar ou para atacar investimento público em arte e em cultura, não existe argumento que se sustente nem em números, nem ideologia, nem em nenhum aspecto. A construção das políticas públicas para as artes e para a cultura é um processo longo, histórico e, felizmente, a gente conseguiu retomar o fluxo dessa construção no governo atual. Espero que continuemos pelos anos que se seguem.
Como foi a primeira semana da estreia nacional em Curitiba? Por que as pessoas devem assistir “História"?
Nós fizemos uma primeira semana com três apresentações em dois dias com uma plateia muito atenta, calorosa e vibrante, e a gente está muito feliz com o primeiro contato da peça com o público de Curitiba. É sempre um momento sensível, delicado, quando você leva o trabalho pela primeira vez para o público, porque é também uma das etapas do processo criativo. A relação com o público não é só uma surpresa, ela se constitui numa parte da construção dessa experiência que é o acontecimento teatral. Esse é um momento importante da peça e tem sido muito vibrante.
As pessoas devem assistir à peça porque ela fala de questões que são de todas e todos nós. É um chamamento à curva da história que nos tocou viver nesse período do mundo, ela chama a gente para essas reflexões. Mas, também, para vibrar junto na construção de um mundo mais interessante para todas e todos nós.
SERVIÇO:
Apresentações: dias até 14 de junho de 2026
Horários: quarta a sábado, às 20h | domingos, às 16h e 20h
Local: Auditório Salvador de Ferrante (Guairinha)
Duração: 90 minutos
Classificação etária: 18 anos
Ingressos: R$ 33,90 (meia) e R$ 67,80 (inteira).
Vendas: https://www.diskingressos.com.br/grupo/3215/2026-06-10/pr/curitiba/historia
FICHA TÉCNICA
Texto Final e Direção: Marcio Abreu
Pesquisa e Criação: Marcio Abreu, Nadja Naira, Cássia Damasceno e José Maria [companhia brasileira de teatro]
Dramaturgia: Marcio Abreu, Carolina Virgüez, Rafael Bacelar, Key Sawao, Nadja Naira, Felipe Storino, Idylla Silmarovi, Cássia Damasceno e José Maria
Criação e Performance: Carolina Virgüez e Rafael Bacelar
Direção técnica, Iluminação e assistência de direção: Nadja Naira
Direção de produção e administração: Cássia Damasceno e José Maria
Direção Musical, Trilha Sonora Original e Performance: Felipe Storino
Direção de Movimento, assistência de direção e colaboração criativa: Key Sawao
Figurinos: Luiz Cláudio Silva | Apartamento 03
Cenografia: Marcelo Alvarenga | Play Arquitetura
Assistência de dramaturgia e colaboração criativa: Idylla Silmarovi
Assistência de produção e arte: Taís Morgado e Kauê Mar
Fotos Ensaios – Etapa RJ: Nana Moraes
Fotos Ensaio – Etapa SP: Ethel Braga
Programação Visual: Pablito Kucarz e Miriam Fontoura
Mídias Sociais: Kalindi D’Elia
Assessoria de Imprensa - Curitiba: Fabiano Camargo
Produção local - Curitiba: Meire Abe
Criação e produção: companhia brasileira de teatro