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“A noite e os dias de Miguel Burnier” é um filme que você já viu, mas sobre algo que precisa ser visto e revisto

O documentário fala sobre o desaparecimento do distrito de Miguel Burnier (Ouro Preto/MG), causado pela mineração, e fez sua estreia internacional no Visions du Réel (Suíça) antes da exibição no Olhar de Cinema

Cena de “A noite e os dias de Miguel Burnier”. (Imagem: Divulgação).
Cena de “A noite e os dias de Miguel Burnier”. (Imagem: Divulgação).

O mais novo filme de João Dumans, “A noite e os dias de Miguel Burnier” trata do desaparecimento do distrito da cidade de Ouro Preto/MG que dá nome ao longa-metragem. No local, a população caiu de 600 para 80 habitantes em uma década devido à atividade de mineração nas redondezas. 

A proposta do diretor foi fazer um documentário (cinema direto) sob a perspectiva das pessoas afetadas por essa catástrofe social e ambiental, bancada pelo capitalismo predatório – o mesmo modus operandi que resultou nos desastres de Mariana e Brumadinho. A saga da produção comprova a máxima ‘o cinema tem seu próprio tempo’, durou seis anos: as filmagens iniciaram em 2019, com visitas mensais, uma pausa durante a pandemia, e foram até 2022; até a conclusão da versão final, em 2025. 

O documentário estreou em um dos principais festivais internacionais do gênero, o Visions du Réel (Suíça), antes da exibição no 15º Olhar de Cinema. Para quem não conhece a trajetória de Dumans, ele é diretor de “As Linhas da minha mão” (2023), melhor filme na Mostra de Tiradentes; codiretor ao lado de Affonso Uchôa de “Arábia” (2017), com prêmios e circuito invejável de festivais; além de roteirista, assistente de direção e montador em longas como “A Cidade onde Envelheço”, “A Vizinhança do Tigre” e “Sete Anos em Maio”, entre outros. Ou seja, daqui em diante os comentários estão entre um ato de coragem e de inocência.

Mesmo com tanta estrada, “A noite e os dias de Miguel Burnier” é válido mais pela causa do que pela obra em si. Em todas as esferas é preciso discutir e colocar esse tema em primeiro plano. A questão dos poderes negativos da mineração tanto naquela região quanto em outros locais do planeta é urgente, passa por aspectos sociais e ambientais indissociáveis, além disso, sua origem e seu impacto andam de mãos dadas com o negacionismo. 

Já o filme de Dumans, com Uchôa desta vez como montador, pesa a mão nas metáforas. Entre as visuais, estão casas em ruínas e abandonadas para enfatizar o desamparo e a decadência da comunidade; a câmera seguindo o caminhar de uma única pessoa pelo que foi uma estrada e hoje é apenas um caminho no meio da vegetação; um homem se afastando pelos trilhos do trem; o grupo reduzido de pessoas desenhadas pelo encontro da pouca luz com o escuro da noite; solidão, em cenas priorizando apenas um personagem… 

Do outro lado, o contraste com a desumanização está evidente nos takes com máquinas da mineração em funcionamento, escavadeiras, torres, vagões em movimento com minério de ferro e bobinas. A trilha minimalista se alterna com o som direto, o andamento é lento como o ritmo da vida que restou ali, onde fica claro que nada acontece. Até o título “A noite e os dias de Miguel Burnier” é uma metáfora que se entrega facilmente para o público.

Tudo distribuído em planos longos intercalados com falas das pessoas acompanhadas pelo documentário, o que resulta num ar poético. Porém, certas horas, parece que você está assistindo a um déjà-vu. Ninguém fez isso antes ou algo parecido não foi feito muitas vezes? 

Independentemente da embalagem, há um ponto que me constrange neste filme e em outras coqueluches de festivais recentes: a superexposição dos personagens. Os quatro centrais são vulneráveis em todas as esferas de suas vidas, todas, o que os torna objeto de interesse é o quanto (ainda mais do que outros da região) foram devastados pela mineração e como o alcoolismo potencializa suas tragédias pessoais. Sim, a história deles deve ser contada, porém questiono como. Qual é o limite de exposição que deve ser respeitado, considerando que estamos falando de indivíduos que podem não ter tão clara a compreensão do que o cinema pode ou não fazer em suas vidas, o quanto de expectativas podem ser frustradas a curto e longo prazo, os sentimentos que precisarão ser administrados. 

Somado a isso, ao saber que a relação longa entre a equipe e o grupo é declarada como amizade, é difícil não lembrar do dilema enfrentado pelos fotógrafos Nick Ut, que registrou a imagem mais famosa da Guerra do Vietnã e, em seguida, socorreu a menina que vinha ferida em sua direção; e Kevin Carter, que registrou uma criança sudanesa sendo observada por um abutre, não agiu e terminou se matando. A torcida é que as boas intenções tragam resultados para a comunidade local.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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