“O Diabo veste Prada 2” chegou à plataforma de Streaming Disney+ na quarta-feira (29), após 13 semanas em cartaz no Brasil, totalizando quase 7 milhões de espectadores no país (dados do Comscore publicados pelo portal Exibidor). Nos fãs do primeiro longa-metragem, que esperaram 20 anos por uma continuação da história do encontro da jovem jornalista Andy Sachs com a editora à la megera indomável da revista Runway, Miranda Priestly, é claro que o filme despertou elogios. Entre o grupo minoritário que torceu o nariz, vale questionar o que estavam esperando da sequência (no aplicativo Letterboxd tem 3,2 estrelas). Assistir à continuação é, obviamente, ver um filme engraçado e leve ambientado no mundo da moda, lotado de referências fashionistas pop, indicado para quem também gosta de “Sex and the City" e que repete a fórmula do sucesso lançado em 2006 - inclusive, com a cena que se tornou marca registrada do título: a sequência fabulosa de trocas de roupas ao ritmo de “Vogue”, de Madonna, com enquadramentos e movimentos de câmera que simulam um take único.
A aplicação do mesmo modelo é até uma ousadia da roteirista e do diretor de ambos os longas, Aline Brosh McKenna (de “Compramos um Zoológico”, 2011, entre outros) e David Frankel (de “Marley & Eu”, 2008, entre outros). A coisa toda poderia ficar um déjà-vu chato, mas o enredo ‘sustenta o look’ com uma repaginada, que trouxe praticamente um quinto personagem principal para a cena e acrescentou muita coisa atual, em conjunto com o absurdo talento e total sintonia das atrizes Meryl Streep (Miranda), Anne Hathaway (Andy), Emily Blunt (Emily Charlton) e do ator Stanley Tucci (Nigel Kipling). A figurinista desta vez foi Molly Rogers.
O quinto personagem
No centro da história, estão os mesmos quatro protagonistas do Diabo 1, só que agora o jornalismo tem um papel com peso de personagem. Tudo continua ligado à Runway. Anteriormente ela era a ambição de praticamente todos, até Andy pretendia ter um ano da revista como diferencial em seu currículo, agora ganha espaço o jornalismo e sua crise contemporânea, o fim do impresso, a falta de poder econômico e de leitores, o império do clique versus a qualidade e a liberdade editorial. Na carona dos problemas que os veículos e os jornalistas vivem, vêm as questões sucessórias dos grandes conglomerados e os novos magnatas da tecnologia, que compram para destruir, transformando os negócios apenas no dinheiro em si. As pessoas, a informação, as empresas e a mídia não interessam. Evitando dar muitos spoilers, até Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg estão representados na trama, por exemplo.
O mundo muda
“A mulher é muito tóxica. Como conseguiu ser tão bem-sucedida?” Por pouco essa frase não entrou no script, contudo saiu da boca de um rapaz na sala de cinema e assinala uma diferença geracional. O Nigel de ontem defendia a postura de Miranda dizendo que era o trabalho dela, ou ao menos parte dele. Quem já não era novinho à época estava acostumado com pessoas que no poder, ou no caminho até ele, tratavam os outros com desdém e crueldade. Parecia que, para ser um líder talentoso, quanto mais grosso melhor. E quando mulher, pior ainda: era parte do pacote “ela precisa se impor, são raras as que nadam com os tubarões, precisa ser assim no mundo machista e misógino”. O assédio moral era regra e não exceção em ambientes como do filme.
Agora, como fala Andy em uma das cenas: “Parece que alguma coisa mudou.” A entrada da geração Z na equipe da Runway coloca limites nos abusos, eles não têm medo de reclamar ao RH e não se submetem tanto aos assédios. A humilhação diminuiu. Miranda não ficou simpática, longe disso, mas ao menos aprendeu a guardar o próprio casaco e engoliu seco situações com uma pitada de vingança moral para a diversão do espectador. Ainda beirando esse campo, há uma diversidade maior no elenco, com mais presença de negros e de asiáticos, e uma maior positividade corporal, com menor número de extremamente magros e de belezas padronizadas.
A moda muda
Claro que a problematização sobre o mercado da moda está em cena (sem aprofundamentos que não cabem numa comédia quase romântica), como quando aparece a fast fashion com o seu poder devastador e a exploração de trabalhadores. Porém o bacana é a percepção de uma mudança de comportamento, o brechó vai para a tela representando o que é na vida real: moda circular, que reduz o descarte de peças, e uma bela alternativa para conseguir peças boas e de marcas reconhecidas por um preço mais justo, ou até por valores que são verdadeiros achados. O império da nova coleção já não é mais o mesmo.
O jogo muda
Na leva dos 20 anos depois, “O Diabo veste Prada 2” já começa retratando como a influência no mundo fashion e no universo das celebridades está pulverizada. Para lançar uma tendência hoje, uma Runway pode ser tão ou menos importante que influenciadores e criadores de conteúdo com zilhões de seguidores nas redes sociais. Ao invés dos paparazzis, as multidões na frente do Met Gala querem uma selfie. Ah, os memes também são lembrados como forma de comunicação. A passagem do tempo também vem em coisas nada sutis como manter Madonna na trilha, mas trazer Lady Gaga para a passarela.
Pérolas (alerta de spoiler)
Se você não quer spoilers específicos, a hora de parar a leitura é agora. Entretanto, é impossível não comentar algumas pérolas do filme, cheias de simbologia. Coisas como: a jaqueta artesanal lindíssima da Miranda que é o contrário do fast fashion; o jantar com a editora sob o centro do afresco “Última Ceia”, de Leonardo da Vinci, versus as reuniões em que ela está na mesma posição sob capas da Runway (jogando com ela enquanto poderosa, mas também falível); a sagacidade da assistente de Andy, Jin Chao (interpretada por Helen J. Shen); a editora passando a se submeter a policiamento; e a equipe embarcando no avião de Nova York para Milão.
Ah, lembra do suéter azul da Andy? Ele voltou, depois de um upcycling, como um colete. Fechou um ciclo. (Sinto muito para os fãs, contudo acho improvável um novo “O Diabo veste Prada”.)