A premiação do 15º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba acontece na noite deste sábado (13), porém um filme disparou, ou melhor, decolou entre as apostas de vencedores. É “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, com direção de Janaína Marques e estrelado pelas atrizes Luciana Souza e Verônica Cavalcanti, que conseguiu uma proeza no último dia de estreias no evento: sussurros dizendo “acho que temos o vencedor”, vindos de várias pessoas na plateia quando a projeção terminou. Eu fui uma delas, mas acredite, não reconheci sozinha a sensibilidade e a visão criativa deste longa-metragem encantador.
O filme cearense é um road movie (filme de estrada) tem como ponto de partida a entrada em uma máquina de ressonância magnética. Para aliviar o desconforto potencializado pela apreensão relativa ao exame, é aconselhado a Rosa (Verônica Cavalcanti) pensar em um momento feliz de sua vida. Ali começa a viagem da personagem para dentro de si mesma, caminhando pela fronteira tênue entre memórias e imaginação para reencontrar sua mãe, Dalva (Luciana Souza), que acabou de sair da prisão e está indo encontrar o grande amor de sua vida. Então, as duas partem numa jornada fantástica.
O grande trunfo de “Fiz um foguete imaginando que você vinha” é que isso tudo poderia cair num dramalhão, porém segue outra trajetória. Não tem quem resista ao humor do filme, que vai sendo balanceado para no clímax as risadas terem ficado para trás. Por sua vez, o carinho e a mágoa vão levando o espectador pela mão (meio sem se dar conta), ao som de “Sangue Latino”, que abre mais e mais camadas de leitura e simbolismo. A liberdade, a condição da mulher, o amor e o espelho que nos mostra que somos mais iguais do que imaginamos, está tudo lá nas contas do passado que Rosa e Dalva vão zerar. Se alguém não se emocionou ao longo dos 92 minutos de duração, assistiu ao filme do jeito errado, sem estar com o peito aberto para o longa de estreia da diretora Janaína Marques. Até é justificável, afinal, já foram nove dias seguidos de festival… Mas confesso: meus olhos marejaram e precisei esconder aquela lágrima que escapou.
Apostas
Melhor Filme
A qualidade de “Fiz um foguete imaginando que você vinha” está longe de ser um golpe de sorte. Janaína estudou na EICTV, em Cuba, e seus curtas-metragens desempenharam muito bem; "Los Minutos, Las Horas", por exemplo, estreou na Cinéfondation de Cannes (2010). O longa de agora estreou no Berlinale Forum do Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde venceu como melhor filme na escolha dos leitores do jornal alemão Tagesspiegel, e esteve no IndieLisboa 2026.
Além do talento da diretora, uma cineasta para ficarmos atentos, a equipe claramente tem excelência. A ideia original do roteiro, assinado por Xenia Rivery, Tais Monteiro, Pablo Arellano e Pedro Cândido, era de 2017; foram muitos laboratórios e versões antes de ir para o set, em 2019. Com orçamento enxuto, o planejamento foi a chave para o acabamento e a carga simbólica que não se perdem na tela (ao contrário do que vem se repetindo por aí, quando na mesa de montagem resolvem finalmente planejar). Há pouquíssimos pontos soltos, que na verdade podem se encaixar nessas memórias fabuladas. Também há uma aceleradinha perto do final que talvez encurte levemente a imersão do espectador na cabeça de Rosa, nada sério.
Dito isso, entre os longas brasileiros que assisti, a minha aposta é que “Fiz um foguete imaginando que você vinha” leva ao menos um dos troféus de Melhor Filme para casa. A maior chance é no Prêmio do Público, com boas possibilidades para a categoria Competitiva Brasileira. Já na premiação da Abraccine, não coloco as minhas fichas, pois características valorizadas em festivais nem sempre andam em paralelo com o que se observa nas plateias.
Melhor Atuação
Com um talento daqueles raríssimos, está no elenco do filme Luciana Souza, uma atriz que vai da comédia à tensão sem fazer força, com uma entrega que poucas atrizes conseguem. Ela como Dalva é marcante, uma daquelas interpretações difíceis de esquecer: que te coloca no bolso com o riso, que te comove quando é preciso e que te acolhe como um colo de mãe.
Pouco me interessa a opinião do júri, sem sombra de dúvidas, a melhor atuação do Olhar de Cinema 2026 é dessa mulher que parece pequenina, mas toma conta da tela interpretando, cantando e seduzindo com a intensidade das grandes artistas.