Pular para o conteúdo

Rafaela Hoebel e sua ilíada pelo reconhecimento da Libras como “potente linguagem de criação artística”

Ao Plural, a codiretora de “Ilíada em Libras – Canto I” fala do teatro em sua vida, da proposta do espetáculo curitibano e da importância do convite para o FIT Rio Preto 

Artista, intérprete e professora Rafaela Hoebel. (Foto: Reprodução do Instagram.)
Artista, intérprete e professora Rafaela Hoebel. (Foto: Reprodução do Instagram.)
Publicado:

O espetáculo curitibano convidado para integrar a programação do FIT Rio Preto 2026, “Ilíada em Libras – Canto I”, precisou do mesmo tempo que durou a guerra de Troia para chegar aos palcos: foram dez anos de pesquisa e criação coletiva com a participação realmente ativa da comunidade surda. Codirigida por Rafaela Hoebel (surda) e Octávio Camargo (ouvinte) e estrelada pelo ator Jonatas Medeiros (ouvinte), a peça mostra o início do conflito entre Aquiles e Agamêmnon, que terá desdobramentos trágicos ao longo de todo o poema. Mas o que se vê vai muito além de uma tradução. É uma criação com a potência da Língua Brasileira de Sinais, que amplia a compreensão sobre o que pode ser uma narrativa cênica, como explica Rafaela.

A montagem, realizada pela Fluindo Libras e a Cia. Iliadahomero, também é um convite para o público ouvinte praticar a empatia. Enquanto Medeiros está em cena, a tradução de Odorico Mendes do poema em português é narrada por Fernando Marés, ou seja: quem não é fluente em Libras passa a depender do intérprete – ao lado da cena.

Rafaela Hoebel

A codiretora da peça nasceu surda e começou a estudar em uma época que ainda não existiam escolas bilíngues para surdos, quando predominava a metodologia da oralização e não a língua de sinais. Até punições físicas sofreu porque o uso da Libras era proíbido (e isso nem foi a tanto tempo, ela tem 46 anos de idade). Essas vivências marcaram sua formação e a construção de sua identidade, a de uma pessoa surda. 

Ela atua na educação, na cultura e na militância dos direitos dos surdos. E dobra seu tempo entre os gestos expressivos que quase sempre são seguidos por um sorriso no rosto, pois além de diretora, é produtora cultural, atriz, professora universitária e colabora na direção da Associação de Surdos de São José dos Pinhais-PR. 

Ao Plural, Rafaela Hoebel contou como o teatro entrou em sua vida, como são as diferentes emoções no papel de atriz e de diretora, e como são raras as referências de teatro surdo. Ela também falou de seus outros espetáculos, das motivações de “Ilíada em Libras – Canto I” e ainda de compromissos como “fortalecer o protagonismo da comunidade surda, ampliar os espaços para artistas surdos e contribuir para que a Libras seja reconhecida não apenas como língua de comunicação, mas também como uma potente linguagem de criação artística”. Confira a entrevista completa a seguir.

Você nasceu surda ou perdeu a audição? Frequentou escolas acessíveis para surdos? 

Tenho 46 anos e nasci surda. Minha trajetória escolar aconteceu em uma época em que ainda não existiam escolas bilíngues para surdos como conhecemos hoje. Estudei em escolas inclusivas, sem intérprete de Libras, e também frequentei a Escola Epheta, em Curitiba, onde, naquele período, predominava a metodologia da oralização. Essa experiência marcou profundamente minha formação e contribuiu para que eu compreendesse, desde cedo, a importância do reconhecimento da Libras, da identidade surda e do direito à educação bilíngue.

Convivo com uma pessoa há sete anos e não tenho filhos. Dedico minha trajetória à educação, à cultura e à comunidade surda, campos que dialogam entre si e que considero essenciais para promover a inclusão, fortalecer a Libras e contribuir para a transformação social.

Como o teatro surge na sua vida? 

O teatro surgiu para mim por volta de 2011, em um período de experimentação artística. Meu primeiro trabalho foi ao lado de Maureen Miranda, Chiris Gomes e Jonatas Medeiros, que atuava como intérprete de Libras. Foi um processo muito importante porque começávamos a investigar possibilidades de criação a partir da língua de sinais, ainda quando existiam pouquíssimas referências de teatro protagonizado por artistas surdos. Essas parcerias continuaram ao longo dos anos e deram origem a outros trabalhos, como “Surdo Logo Existo”, em 2019, que considero um marco para o teatro surdo em Curitiba.

Hoje atuo como professora universitária no Centro Universitário Internacional Uninter, desenvolvo projetos culturais, principalmente com a Fluindo Libras, participo de diferentes iniciativas artísticas e também colaboro na direção da Associação de Surdos de São José dos Pinhais. Minha atuação transita entre educação, cultura e militância, porque acredito que esses espaços dialogam e se fortalecem mutuamente.

São quantas peças e quantas direções até hoje? Qual foi o melhor momento como diretora e o mais difícil? E como atriz? 

Atuei em cinco espetáculos teatrais e assinei a direção de três trabalhos. Um deles foi como orientadora de um grupo de atores surdos em formação, experiência muito significativa porque acompanhamos todo o processo até a criação do espetáculo. Também fui diretora de corpo em “Surdo Logo Existo”, um trabalho que representou um momento importante para o fortalecimento do protagonismo de artistas surdos na cena teatral curitibana.

Entre os momentos mais marcantes como diretora, está justamente acompanhar o crescimento artístico de atores surdos e perceber o impacto que os espetáculos provocam no público. O maior desafio sempre foi construir processos de criação em um cenário onde ainda existem poucos investimentos e poucas oportunidades para artistas surdos.

Como atriz, cada espetáculo representa uma experiência diferente, mas todos têm em comum a possibilidade de contar histórias a partir da Libras e da cultura surda, reafirmando nossa identidade e nosso lugar nas artes cênicas.

As adaptações em português dos poemas da “Ilíada” para o teatro já exigem muito, tanto em talento quanto em dedicação e estudo. Por sua vez, a “Ilíada em Libras – Canto I” percorreu um longo caminho até chegar ao palco. Por favor, conta como foi o processo e como nasceu a parceria no codireção com o Octávio Camargo. 

A “Ilíada em Libras – Canto I” nasceu do desejo de investigar como uma obra considerada fundadora da tradição ocidental poderia ser recriada a partir da visualidade e da poética da Libras. Não se tratava apenas de traduzir um texto, mas de construir uma dramaturgia que tivesse a língua de sinais como centro da criação. A parceria na codireção surgiu justamente desse entendimento de que o espetáculo precisava reunir diferentes olhares. 

A codireção permitiu um diálogo permanente entre pesquisa teatral, dramaturgia, cultura clássica e cultura surda. Também não era um grupo que estava começando do zero. Muitos de nós já havíamos trabalhado juntos em outras criações, como “Os 50tões”, “Surdo Logo Existo” e “Das Paredes”. Essas experiências anteriores construíram uma confiança artística muito importante para chegarmos à “Ilíada” – um processo longo, de muita pesquisa, ensaio e escuta entre todos os envolvidos. Acredito que isso aparece no resultado final.

Você acompanhou a temporada de estreia do espetáculo em Curitiba. Como foi esse momento para você, para o público surdo e os ouvintes?A estreia foi muito emocionante. Tivemos todas as sessões lotadas durante duas semanas, em 2023, no Teatro Novelas Curitibanas - Claudete Pereira Jorge, e a presença majoritária do público surdo foi algo muito significativo.

Durante muito tempo, pessoas surdas estiveram acostumadas a assistir espetáculos mediados por tradução. Na “Ilíada em Libras”, a experiência era diferente: a Libras ocupava o centro da cena. Isso produz uma identificação muito forte.

Ao mesmo tempo, foi bonito perceber a recepção do público ouvinte, que se abriu para experimentar outra forma de narrar, outra temporalidade e outra estética. O espetáculo convida todos a enxergar que a Libras não é apenas um recurso de acessibilidade, mas uma língua artística com enorme potência poética.

O Jonatas, o ator que está em cena na peça “Ilíada em Libras – Canto I”, é um grande intérprete de Libras (no sentido que comumente chamam de tradutor) e um artista absurdo. A força e a presença dele em palco, somadas com a expressividade, praticamente hipnotizam as plateias. Como é sua parceria com ele na arte, como intérpretes de Libras e na luta pelos direitos da comunidade surda?

Minha parceria com o Jonatas já atravessa muitos anos. Nos conhecemos por meio do teatro e, desde as primeiras experiências de criação, construímos uma relação baseada na confiança, no respeito e no compromisso com a arte produzida por pessoas surdas. Ao longo dessa trajetória, desenvolvemos diversos projetos juntos, cada trabalho fortaleceu nossa sintonia artística e ampliou nossas pesquisas sobre teatro, Libras e cultura surda.

O Jonatas possui uma sensibilidade artística muito apurada e um profundo conhecimento da Libras, da tradução e da performance. Na “Ilíada”, essa experiência se revela na forma como ele constrói a narrativa em cena, transformando a língua de sinais em uma linguagem poética e visual de grande impacto.

Compartilhamos o compromisso de fortalecer o protagonismo da comunidade surda, ampliar os espaços para artistas surdos e contribuir para que a Libras seja reconhecida não apenas como língua de comunicação, mas também como uma potente linguagem de criação artística. Acredito que é essa sintonia de propósitos que mantém nossa parceria viva e em constante construção.

Por onde o Ilíada em Libras – Canto I já circulou? Qual a importância para a comunidade surda do espetáculo entrar na programação de um festival internacional como o Fit São José do Rio Preto?

Depois da estreia, o espetáculo passou pela Caixa Cultural Fortaleza; integrou a Mostra Surda do Festival de Curitiba; o Festival Homero, em Curitiba; o Festival Midrash, no Rio de Janeiro; e realizou uma circulação por diversas cidades do interior do Paraná.

Agora chegar ao FIT São José do Rio Preto representa um novo passo. Trata-se de um dos festivais de teatro mais importantes do país e ocupar esse espaço tem um significado que vai além do espetáculo em si. É um reconhecimento de que a produção artística em Libras faz parte do teatro brasileiro contemporâneo e deve ocupar os mesmos espaços destinados às demais produções.

Você é uma das idealizadoras e curadoras da Mostra Surda do Festival de Curitiba. Como ela nasceu? Acha viável que logo outros festivais artísticos coloquem iniciativas especiais para a comunidade surda em suas programações? A arte gera empregos ou renda para os surdos? 

A Mostra Surda nasceu da percepção de que ainda existiam poucos espaços destinados à produção artística realizada por pessoas surdas dentro dos grandes festivais brasileiros. Nossa proposta nunca foi criar um espaço isolado, mas ampliar o próprio conceito de festival, reconhecendo que a diversidade linguística e cultural também faz parte das artes cênicas.

Espero que outras iniciativas como a Mostra surjam em diferentes regiões do país. Quanto mais festivais incorporarem artistas surdos em suas programações, mais oportunidades serão criadas para novos profissionais, novas pesquisas e novos públicos. 

A arte também é um campo de trabalho. Ela gera renda, formação, circulação e fortalece uma cadeia produtiva que precisa incluir, de forma efetiva, profissionais surdos em todas as etapas da criação.

Para fechar: O que você diria que é o principal motivo para o público ouvinte assistir à “Ilíada em Libras – Canto I” no Fit Rio Preto? E para a comunidade surda?

Para o público ouvinte, eu diria que é uma oportunidade de experimentar outra maneira de perceber o teatro. A Libras constrói imagens, ritmos e sentidos que ampliam nossa compreensão sobre o que pode ser uma narrativa cênica.

Para a comunidade surda, acredito que o espetáculo representa reconhecimento e pertencimento. Ver uma obra clássica recriada em nossa língua, com artistas surdos ocupando o centro da criação, reafirma que a Libras também produz conhecimento, literatura, poesia e teatro.

Mais do que adaptar uma obra, estamos mostrando que a cultura surda também interpreta, recria e transforma os grandes clássicos da humanidade. Espero que cada pessoa que assista ao espetáculo saia compreendendo que a Libras não apenas traduz histórias, mas também cria novas formas de narrar, emocionar e transformar o mundo.

Ficha técnica

Direção: Octávio Camargo e Rafaela Hoebel · Ator: Jonatas Medeiros · Voz: Fernando Marés · Iluminação: Fernando Dourado · Fotografia: Gilson Camargo · Intérpretes de Libras: Viviana Rocha e Felipe Patrício · Produção: Felipe Patrício · Assistentes de produção: Chris Gomes e Viviana Rocha · Realização: Fluindo Libras e Cia Ilíada de Homero.

Sobre o grupo

Cia Ilíada de Homero e Fluindo Libras — A Cia Ilíada de Homero, criada em 1999 por Octávio Camargo e artistas paranaenses, encena os textos integrais da Ilíada e da Odisseia, já tendo se apresentado no Brasil e em Portugal, Grécia, Alemanha, Holanda e Irã. A Fluindo Libras é produtora de arte surda e sinalizada em Libras, idealizada por Jonatas Medeiros, que se dedica há mais de 10 anos à tradução de textos homéricos.

57º FIT Rio Preto

Com 57 anos de existência e 24 edições internacionais, o Festival Internacional de Teatro (FIT) de São José do Rio Preto é um dos mais tradicionais eventos de artes cênicas no Brasil. A realização é da Prefeitura de São José do Rio Preto em parceria com o Sesc São Paulo. 

Nesta edição, a programação é totalmente gratuita.

Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – Fit Rio Preto 2026 

De 16 a 25 de julho, em São José do Rio Preto (SP) 
Realização: Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e Sesc São Paulo 
Apoio: Conselho Municipal de Políticas Culturais
Parceria: Sesi São Paulo e Senac
Programação totalmente gratuita.
Outras informações: fitriopreto.com.br.

A repórter viajou a convite do festival. 

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

Todos os artigos

Gostou desta reportagem?

Considere pagar um café para Luciana Nogueira Melo e apoiar o jornalismo independente do Plural. Aponte a câmera do seu banco para o QR Code ou faça um Pix de qualquer valor para a chave abaixo.

32885173000120
Tags: teatro cultura

Mais em teatro

Ver todos

Mais de Luciana Nogueira Melo

Ver todos

De nossos parceiros