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Depois de “A Igreja da Fran”, espetáculo do grupo Teatro do Alvorecer sofre censura no Paraná

Conteúdo com diversidade sexual foi o argumento apresentado aos artistas para o cancelamento da sessão de “Acalento ou antes que esse caldo esfrie”, que seria apresentada para alunos do EJA. A classificação do espetáculo é 14 anos ou mais 

Grupo Teatro do Alvorecer de Maringá tem espetáculo “Acalento ou antes que esse caldo esfrie” censurado. Douglas Kodi
Artista e fundador da companhia, Douglas Kodi assina o texto e a direção de “Acalento ou antes que esse caldo esfrie”. Ele também está em cena no papel de Juca. (Foto: Isa Angioletto e Augusto Perego/Divulgação.)
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Nessa quinta-feira (3), uma das sessões de “Acalento ou antes que esse caldo esfrie” foi cancelada. E não foi por motivo de força maior, o espetáculo sofreu censura, conforme afirmam os artistas do grupo maringaense Teatro do Alvorecer. Ao Plural, Douglas Kodi – mestre e doutor em Artes da Cena na UDESC, ator, diretor e fundador da companhia – explicou que a primeira apresentação do dia foi fechada exclusivamente para uma plateia de cerca de 50 pessoas entre alunos e professores da Educação de Jovens e Adultos (EJA), um público na faixa dos 50 anos de idade. O perfil dos espectadores para a segunda encenação, à noite, seria o mesmo.

Entretanto, o que foi ao palco à tarde não agradou a todos. “A peça tem várias tramas. Uma delas é uma relação homoafetiva de duas mulheres. Sempre que tinha alguma cena ligada a isso, eles viravam os olhos, demonstrando que não estavam gostando. Até aí, tudo bem. Eu, enquanto ator, fico meio desesperançoso, e enquanto profissional, penso que a opinião é livre. Ninguém tem que gostar de tudo, porém, homofobia é crime. Mas, enfim, eles não tiveram nenhuma reação homofóbica”, contou Kodi, que também é escritor e dramaturgo. 

A próxima sessão estava marcada para as 19h30. No entanto, cerca de duas horas antes, a produtora do espetáculo, Carolina Mariano, foi informada por áudio no WhatsApp do cancelamento. Segundo o diretor, o argumento apresentado é que “a peça contém diversidade de gênero e que tem um pouco de palavreado de baixo calão” e, assim, uma pessoa de um cargo superior definiu que os alunos não seriam levados para assistir à peça. A previsão era de mais de 130 estudantes, quase a capacidade máxima da Casa da Cultura Alcídio Regini, no Jardim Alvorada, onde acontece a temporada até domingo (6). O grupo possui a mensagem que comprova essa declaração.

O artista confirma que algumas falas têm palavrões, contudo, afirma que são poucos e que a obra é “não recomendada para menores de 14 anos”, conforme consta nos materiais de divulgação. O Guia Prático de Classificação Indicativa da Secretaria Nacional de Justiça, entre outros itens, aponta como conteúdos pertinentes a essa faixa de indicação etária: nudez, erotização, relação sexual não explícita, vulgaridade e linguagem de conteúdo sexual. O manual até traz como exemplos de linguagem chula as palavras m*rda, c*, b*ceta, p*rra, escr*to e p*ta, com indicação para 12 anos ou mais.

Também segundo ele, não há qualquer contato físico entre as atrizes que estão interpretando o casal e, mesmo assim, até professores que não estavam na apresentação apoiaram a decisão de não levar os estudantes ao teatro. Sobre o que pode ter incomodado, ele aponta que o estilo da peça, em toda a sua concepção e realização, foi enquadrado em um estereótipo. “É algo que as pessoas escutam falar que é uma coisa de esquerda, os estereótipos, aquele discurso de direita apontando apologia de gênero, de sexualidade. Enfim, esse tipo de coisa que a gente está acostumado a ouvir e que, no fim das contas, só é um retrocesso.” 

Kodi ainda explica que a montagem não é panfletária e nem foi recebida como tal pelos espectadores de 50 anos ou mais. “A peça é sobre amores que não acontecem, desse casal lésbico, que não fica junto, e do Juca, que é esse menino nipo-brasileiro, que dá um tom autobiográfico na peça. Ele sempre quis encontrar o pai dele desde a infância, mas o pai dele desapareceu. O espetáculo tem essa profundidade do amor que não acontece muito mais do que qualquer coisa sobre ensaiar uma ideia de gênero, de sexualidade e de identidade”, fala ele. “Por mais que eu seja uma pessoa amarela falando de um personagem nipo-brasileiro, em nenhum momento isso é apresentado enquanto pauta da peça.”

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Sinopse

Em resposta à reportagem sobre o motivo do cancelamento da segunda sessão de “Acalento ou antes que esse caldo esfrie” e sobre o caso ser um ato de censura ao espetáculo, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Maringá afirmou: 

“A Secretaria de Educação informa que o espetáculo previsto para a rede municipal de ensino foi cancelado após a identificação de divergências entre o conteúdo apresentado e a sinopse previamente encaminhada pela Secretaria de Estado de Educação.”

No documento citado, enviado pelo grupo à Secretaria de Estado de Educação, a sinopse é a seguinte.

“‘O Acalento, ou antes que o caldo esfrie’, acompanha Juca e Clarisse, dois jovens adultos que tentam entender o que fazer com as perdas, as despedidas e as escolhas que aparecem quando a vida começa a mudar de verdade. Juca acaba de defender seu mestrado, mas carrega desde a infância uma memória incompleta: uma tarde de chuva, um boteco e o sorriso do pai antes de partir para o Japão. Clarisse, sua melhor amiga, vive a dor de se despedir de Kai, uma jovem que está prestes a ir embora do Brasil para tentar a vida na Irlanda. Entre conversas de boteco, humor, amizade e confusões afetivas, os dois descobrem uma história misteriosa: em dias de chuva, um caldo de feijão servido naquele boteco permite reencontrar alguém do passado, mas apenas até o caldo esfriar. Com linguagem acessível, sensível e bem-humorada, a peça conversa diretamente com adolescentes sobre temas como amizade, família, identidade, amadurecimento, ansiedade diante do futuro, migração, luto, amor e a dificuldade de dizer o que sentimos antes que seja tarde. É uma história sobre crescer, perder, lembrar e descobrir que nem sempre é possível mudar o passado, mas talvez seja possível olhar para ele de outro jeito.”  

Frustração profissional 

O sentimento da equipe é de frustração diante do esforço para “furar a bolha”. “A gente queria realmente apresentar a peça para um público que normalmente não iria ao teatro (...) Porque dessas multidões, 15, 20, 30 pessoas, alguma porcentagem vai começar a gostar de teatro e cada vez mais a arte ganha força”, fala o diretor. “Eu gosto muito desse público do EJA porque provavelmente são pessoas que nunca assistiram a uma peça de teatro. Principalmente uma peça que preze por qualidade artística, de atuação, de texto, de luz, de técnica”.

O cancelamento também funciona como uma barreira para o acesso à cultura. Principalmente porque o projeto foi aprovado pela Secretaria da Cultura estadual e financiado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura do Governo Federal. “É um projeto do Estado, as pessoas têm que ter acesso a esse bem cultural. Estão negando o acesso para a população”, diz ele. 

Kodi ainda explica que o caso mostra o risco que a classe artística corre: “Sempre há um risco, no sentido de que a gente é impedido de realizar uma ação do projeto que já estava em conformidade há mais de um mês, quando foi enviado o material sobre o espetáculo para eles. Nós esperávamos fazer a peça.” Os integrantes do Teatro do Alvorecer até pensaram em insistir, mas chegaram à conclusão de que não adiantaria, não liberariam os alunos. Decidiram por fazer mais uma sessão neste sábado (5), para completar a temporada com 12 apresentações.

Conheça outros casos

Espetáculo “A Igreja da Fran”, de Rafaela Azevedo, sofre censura em Curitiba
Cancelamento da apresentação na Ópera de Arame seria por que a peça vai contra a moral e os bons costumes. Rafaela apresentou “King Kong Fran”, no mesmo teatro, em 2025

Teatro do Alvorecer

O Teatro do Alvorecer foi fundado há quatro anos por Douglas Kodi e já levou aos palcos oito peças, além de promover cursos sazonais. Ao maior prêmio do teatro paranaense, o Troféu Gralha Azul, o grupo (e mais propriamente Kodi, atuando e dirigindo) foi indicado três vezes: no ano de 2023, nas categorias Melhor Ator, em “O Soldado, a Tigresa e uma outra história”; e Melhor Direção, por “Encontro em semibreve ou Depois da Partida”; já em 2025, concorreu a Melhor Ator por “Ubu Shogun ou Por que os tronos são manchados de sangue”.

Conforme seu fundador, “O ideal da companhia é contar histórias. Enquanto houver histórias para contar, estaremos vivos. E talvez seja justamente por isso que algumas histórias insistam em existir: porque ainda precisam ser contadas. Se, apenas por existirem, elas ainda incomodam algumas pessoas, talvez seja porque ainda há motivos para continuarmos contando”. 

Douglas Kodi

Douglas Kodi é mestre em teatro e doutor em Artes da Cena pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), onde desenvolve sua pesquisa de pós-doutorado sobre a commedia dell'arte. Aos 33 anos de idade, é diretor, dramaturgo, produtor cultural e ator. Trabalhou por sete anos na Arte da Comédia, do diretor italiano radicado em Curitiba Roberto Inocente (1957-2021), como assistente de direção e ator. Após Inocente falecer, continuou no grupo, mas sentiu necessidade de fundar sua própria companhia. Assim nasceu o Teatro do Alvorecer, em Maringá.

Neste mês de setembro, Douglas Kodi lança seu livro “A Utopia da Commedia dell'arte no século XXI: o Ator, o Canovaccio e a Cena”. A partir de sua pesquisa acadêmica, a publicação aborda a vertente prática e teórica das técnicas da commedia dell'arte italiana e a estrutura do canovaccio na contemporaneidade.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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