Pular para o conteúdo

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 8

Leia o oitavo capítulo do folhetim de Nicolas Wolaniuk que o Plural publica semanalmente

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 8

Eu já conhecia a figura. Pires Crespo era o homem que tinha nos recebido na porta, envolto por seu séquito risonho. Entrou borrifando em palavras raivosas seu hálito de conhaque.

“Escuta aqui, comissário” começou Crespo, “sei que você só tá fazendo o teu trabalho e nada mais. Mas deixa eu dizer de uma vez por todas! Não matei aquele cretino. Não gostava do sujeito, é verdade. Mas não matei ele. Tô limpo. Inclusive, eu até falei ontem com um rapaz da guarda municipal que circulava por aí. Falei que tinha ouvido uns gritos. O vagabundo nem quis saber e seguiu reto até a Visconde. Daí deixei pra lá. Não era problema meu. Tentei evitar a morte do cretino do Haroldo.” Pires Crespo se aproximou de Sylvio e apontou para ele o indicador: “Lembra disso, detetive. Não me mete em encrenca que não é minha. Nessa, eu tô limpo. Sou comerciante honesto, trabalhador e não tenho nada a ver com o crime.”

Sylvio adotou um ar humilde e apaziguador.

“O senhor, Pires Crespo, não é um suspeito no caso. Pode ficar calmo. Sente-se, por favor.”

Veja aqui os primeiros capítulos do romance:

O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar - Plural
Notícias, reportagens e análises sobre O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar — jornalismo independente de Curitiba e do Paraná, por Plural.

O homem abrandou sua fúria. Fingi não perceber que, de canto de olho, olhava com desconfiança para mim. Sylvio tomou a palavra, como que justificando:

“Essa ali é Amália, a profissional que entrou comigo na cena do crime. É ilustradora forense e está trabalhando com a polícia no caso. Espero que não se incomode com a presença dela aqui.”

“Eu não tenho nada para esconder de ninguém, comissário”, respondeu Pires Crespo, aceitando a cadeira que Sylvio Terra tinha alcançado para ele.

“Muito bem. Tenho certeza que seu depoimento vai ser muito valioso para o caso.

Poderia começar nos contando o que fez ontem à noite?”

“Fui beber com uns amigos lá perto da Praia do Caju. Um amigo meu teve um filho e saímos comemorar. Mas bebemos pouco e voltei cedo. Vim caminhando e quando cheguei eram umas dez da noite ainda.”

“E então, o que fez?”

“Fui dar uma olhada no Café, ver como andavam as coisas.”

“O que você viu no bar?”

“O de sempre. Seresta e gente bêbada. Quem tava atendendo às mesas era o mulatinho, esse que acabou de sair daqui.”

“Raymundo Silva?”

“Esse.”

“Ele trabalha faz tempo para o senhor?”

“Parece que faz algumas décadas, mas é porque todos os garçons parecem iguais. Talvez tenha começado ano passado. Não sei bem. Mas ele nunca me deu problema não. Ainda que algo me diga que ele é da laia de Haroldo...”

“Você acha que Raymundo Silva frequentava o quarto de Haroldo?”

“Talvez. Eu nunca vi ele subindo lá. Também, ele sabia que, se eu visse, botava ele na rua na mesma hora. Mas acho que ele simpatizava com o morto. Uma pena para ele...”, disse Pires Crespo, com um sorriso largo.

“Quem mais estava no Café na noite de ontem?”

“Os clientes eram os de sempre: os marinheiros. Eles terminam o expediente no prédio do arquivo e vêm logo para cá. Alguns descem dos encouraçados lá do cais para beber aqui também. São uma corja. Amiguinhos do Haroldo, é assim que chamo os cretinos.”

“Antes das onze você estava, portanto, no seu apartamento, a um lance de escadas do quarto de Haroldo de Alencar?”

Pires Crespo confirmou com a cabeça e Sylvio Terra continuou:

“Foi logo depois que o senhor alega ter escutado os gritos?”

“Isso mesmo. A minha mulher ouviu também.”

“Que tipo de gritos eram?”

“Gemidos de dor. Desesperados.”

“E o senhor ficou preocupado?”

“Um pouco. Ainda não sabia quem estava gritando. Podia ser qualquer um. A verdade é que eu não dou um palito de dente para o Haroldo. Nunca gostei daquele. Mas na hora eu não sabia quem que tava gritando. Por isso, chamei o guardinha.”

“O que ele fez?”

“Porra nenhuma”, Pires Crespo gargalhou. “Perguntou se eu sabia de qual apartamento que vinha. Respondi que não tinha como saber. Daí ele disse que não podia fazer nada. E saiu pela rua, assoviando.”

“O senhor lembra a que horas os gritos pararam?”

“Depois de uma meia hora não ouvi mais nada. Meia noite, por aí.”

“O senhor não achou que pudesse ter acontecido alguma coisa grave?”

“Não achei, comissário. Já tinha feito minha parte. Depois fiquei pensando que só podia ser mesmo o Haroldo. Sei que isso é coisa que não se diz, mas o cretino quando transava gemia como se estivesse morrendo. Achei que era só mais uma das suas noites.”

“Para sua felicidade, contudo, ele estava de fato morrendo...”

“O que você está insinuando, comissário?”

“Você não ficou feliz com a morte de Haroldo?”

“Que eu saiba, ainda não existe lei que proíba a gente de ficar feliz com a morte dos outros.”

O comissário e Pires Crespo se entreolharam longamente. Um sorriso zombeteiro lentamente se desenhou nos lábios de Crespo. Ele continuou:

“Li com muito prazer o obituário de Haroldo. Não vou dizer que não. Estou bebendo desde que soube, só pra comemorar. Mas não matei ninguém.”

“Naturalmente. Todos nós desejamos a morte de alguém. Seria uma pena se, por pudor, deixássemos de comemorar quando o universo nos concede esse presente. Ainda mais se nem tivemos que sujar nossas próprias mãos.”

“Exatamente, comissário. Eu tentei salvar o cara, anota isso aí.”

Dizendo isso, Crespo tirou o cantil da casaca, ergueu e propôs exultante:

“Um brinde à morte de Haroldo de Alencar. Que seja a primeira de muitas para os da sua laia.”

O comissário ignorou o gesto.

“Por hoje, é isso! Muito obrigado pelo seu relato. Gostaria de acrescentar mais algum detalhe?”

Pires Crespo repôs o cantil a casaca, afundou na cadeira e, pondo as mãos sobre a barriga, olhava obliquamente para Sylvio. Por fim, segredou à meia voz:

“Ah, claro que sim... Tem uma coisa para acrescentar...”

O comissário teve que incentivar:

“Sou todo ouvidos.”

“Eu vi ele.”

“Ele quem.”

Ele. O assassino.”

Pires Crespo percebeu o efeito de seu comentário. Como um atirador que se delicia com o prazer de ter acertado um disparo difícil, reclinou-se em uma pausa estudada.

“Lá pela meia-noite”, retomou o comerciante, “fui deitar e dormi. A Adelaide ainda rolava na cama, de olhos abertos...”

“E Adelaide seria...”

“Minha mulher, comissário. Como estava dizendo, acordei ouvindo o rangido alto do elevador. Era umas duas da manhã. A Adelaide não tinha conseguido dormir ainda, estava de pé no quarto. Fomos até a janela e, de lá, vimos um homem, caboclo de compleição forte, vestia terno marrom, saindo do prédio.”

Sylvio Terra suspirou.

“O senhor acredita, Pires, que esse era o assassino?”

“Não tenho dúvidas, comissário. Pode anotar aí: caboclo, de terno marrom, corpulento. Era alto, mais alto do que eu e você, com certeza.”

Sylvio pensou um pouco. Com certeza, a mesma pergunta que passava pela minha cabeça passava também pela dele.

“Senhor Crespo, não entendo. O senhor relata que os gritos terminaram lá por volta da meia-noite de ontem. Você também relata que escutou o ruído do elevador somente às duas horas. Por que o assassino só deixaria o prédio duas horas depois de cometer o crime?”

“Acho que você pode me responder essa pergunta melhor do que eu, comissário. A polícia já deve saber que Haroldo de Alencar era um homem de posses. Devia ter uns bons contos de réis guardados no quarto. Também nunca vi ele sem seu Patek Philippe de pulso. Depois de matar Haroldo, o assassino partiu ao seu primeiro objetivo: a pilhagem. Ou demorou duas horas para encontrar o que procurava, ou desistiu de encontrar depois de duas horas procurando.”

De fato, não tínhamos visto nada de muito valor lá no quarto: a hipótese de Pires Crespo era, pelo menos, digna de nota.

Sylvio agradeceu ao comerciante com um aperto de mão e o conduziu até a porta.

Quando o comissário se virou, Pires pôs, em gesto involuntário, a mão esquerda sobre seu ombro direito.

“Senhor Pires”, arrisquei, “o senhor está machucado?”

O homenzarrão virou-se devagar. Seu olhar crescia em violência enquanto o pescoço girava em seu translado paulatino.

“Tropecei no caminho para casa esses dias. Tenho o terrível costume de beber mais do que deveria, às vezes. Não que isso diga respeito a você.”

Antes de sair da sala, me olhou como se me quisesse morta.

Depois, quando Sylvio e eu estávamos novamente sozinhos, ele me perguntou:

“Alguma ideia?”

“Difícil dizer. Eu acredito nele, não parece ser um bom mentiroso. Talvez fosse bom interrogar a esposa dele, ver se há alguma incongruência nos depoimentos.”

Sylvio assoviou de animação.

“Como eu queria! É a mulher mais linda da Baía da Guanabara, sem competição! Dizem que as belas preferem os tolos: ela não foge da regra. Adelaide Pires Crespo, uma escultura!”

“Acho que tive a chance de vê-la, ontem, na janela” concluí.

“Por ora, infelizmente, temos diligências mais urgentes” disse Sylvio, enquanto retirava de dentro do paletó a caderneta que o tinha visto tomar de umas roupas de Haroldo espalhadas pelo chão.

“Leia isso.”

Parecia uma grande lista de nomes. Alguns nomes eram seguidos por datas. Outros, por cifras. Me surpreendi ao encontrar nomes importantes. No meio de vários nomes que nada me diziam, havia nomes de figurões da imprensa e de pessoas do governo.

“Bom”, arrisquei, “pode ser um caderno de trabalho do Haroldo. Com marcações de atendimentos e cobranças. Ele era bancário, não era?”

“Então Raymundo seria um cliente?”, respondeu Sylvio, virando as páginas até encontrar o nome do garçom. “A polícia pode investigar isso. Ir até o Banco do Brasil. Solicitar a documentação necessária... Mas já penso em outra hipótese. Esse caderno pode ser um registro de credores. O garçom talvez soubesse algo que Haroldo tentava esconder e cobrava pelo seu silêncio... Até que um dia...”

"Preferiu matar o chantagista a pagar o valor.”

“Exatamente. É uma hipótese. Alguma outra?”

“Um crime passional? Talvez Raymundo tenha matado Haroldo por ciúmes?”

“Das francesas daquela noite? Improvável.”

Santa ingenuidade. Para mudar de assunto, mencionei o objeto que me causou certa curiosidade: o alfabeto circular na cena do crime.

“Você tem alguma ideia de para que se usaria um artefato daqueles?”

“Brincadeiras, provavelmente. Talvez para sortear a letra em um jogo de bebidas, talvez para...”

O comissário estancou de repente, como se tivesse lembrado de algo no meio da frase.

Depois me perguntou, ríspido:

“Aliás, o que te trouxe aqui? Não disse que voltasse amanhã?”

Olhei para o comissário sem entender.

“Mas você não mandou dois policiais até a minha casa pedirem o desenho?”

“Ah, sim, é verdade. Mas já não será preciso. Já consegui uma impressão de uma foto da cena tirada por um repórter do Diário da Noite.”

“Você esqueceu, comissário, do favor que deve à família de Mário Rodrigues?” O comissário reclinou-se na cadeira, pensativo.

“De maneira alguma. Volte amanhã aqui no meu escritório.” Havia alguma impaciência em sua voz. “Poderemos conversar sobre o comerciante pela manhã.”

Assenti. Estava certa de que voltaria pela manhã, mas já não sabia se ainda tinha algum interesse no caso Conrado Niemeyer.

Gostou desta reportagem?

Considere pagar um café para Nícolas Wolaniuk e apoiar o jornalismo independente do Plural. Aponte a câmera do seu banco para o QR Code ou faça um Pix de qualquer valor para a chave abaixo.

32885173000120

Mais em O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar

Ver todos

Mais de Nícolas Wolaniuk

Ver todos

De nossos parceiros