Este é um romance policial. Os capítulos são publicados semanalmente pelo Plural. Para ver todos os capítulos, clique aqui.
__
As coisas são mesmo mais difíceis da segunda vez.
Quando cheguei ao Café São João, encontrei Raymundo Silva disperso, atendendo as mesas como se algo grave tivesse lhe turvado seu pensamento. Sequer pareceu me notar, muito menos reconhecer. Sentei e esperei. A melancolia brevemente afrouxou seu jugo sobre Raymundo e o garçom voltou os olhos para o apartamento da Rua da Candelária. Olhou para mim depois, mas não percebi nenhum gesto de reconhecimento. Talvez não me reconhecesse mesmo. No dia da primeira entrevista, ele estava tão nervoso que só olhava para os próprios pés. E mesmo eu talvez não o reconhecesse se o visse na rua. Nada havia da ingenuidade de quando ele foi entrevistado no prédio ali na frente. Hoje, seu rosto estava cansado e enrugado, como se dez anos houvessem se passado em três dias.
Raymundo me tratou como tratava todos os clientes e, com meia dúzia de palavras formulaicas e polidas, tomou meu pedido. Quando ele saía com a anotação em sua caderneta, disse, baixinho:
“Sabemos sobre você e o Haroldo. Encontramos a carta.”
Raymundo estancou, depois virou-se, tentando agir naturalmente na esperança de que eu não notasse que seu rosto descoloriu no mesmo segundo.
“O comissário te mandou aqui?”
“Mandou.”
“Alguém da polícia está vindo?”
“Eu posso voltar com eles, se você preferir. Eles pensaram que você gostaria mais de esclarecer a situação assim, informalmente.”
O garçom perguntou se eu podia esperar uma meia hora.
Raymundo Silva me recebeu em um quarto ao lado da cozinha do Café, onde o cheiro de gordura impregnava as tábuas das paredes. O chão era coberto por uma pasta limosa que grudava nos sapatos. Ele puxou uma cadeira para ele e uma para mim.
“Me desculpe receber a senhorita nessa condição. O patrão não aparece aqui desde ontem. Não consigo lidar com tudo sozinho. Ele e a esposa, Adelaide, devem estar preocupados com alguma coisa importante.”
No chão, baratas se agitaram e foram se esconder atrás dos pés dos armários. Engoli o asco e, pulando a conversa fiada, parti direto para a conversa:
“Raymundo, você pode nos contar exatamente qual era a natureza da sua relação com Haroldo de Alencar?”
“Você já leu a carta; você já sabe de tudo que poderia saber. Éramos amigos. Vez ou outra subi lá e estivemos juntos. Mas Haroldo nunca quis nada comigo. A não ser essas noites.”
“Você se lembra do que escreveu na carta?”
“Linha por linha.”
“Até...”
Raymundo, lúcido ou resignado, confessou:
“Sim, inclusive essa parte. Lembro que disse que tinha vontade de matá-lo. Que o amava demais e que às vezes pensava que seria melhor se ele morresse. A carta está escrita, não tem como fingir que não escrevi o que escrevi.”
“Você matou Haroldo de Alencar?”
Raymundo Silva riu e disse:
“O filho da puta me matou.”
Vi o desespero de Raymundo e temi ficar totalmente sem recursos. Lembrei dos dias da fazenda em que meu pai, remoendo memórias dolorosas de um passado distante, se afundava em lágrimas na cadeira da sala, enquanto eu, parada de frente à chama da lareira, não tinha nas mãos sequer uma palavra de consolo.
“Raymundo, você amava Haroldo?”
O menino continuava fungando.
“Se a resposta, Raymundo, for sim, preciso que você se acalme. Precisamos da sua contribuição para descobrir a identidade do criminoso. Você faria o favor de responder as perguntas que tenho para fazer? Prometo que será bastante rápido.”
Ele fungou uma última vez, mais demoradamente. Alguma calma tinha aplainado o seu desespero enquanto ele limpava o nariz no avental. Continuei:
“Tem alguma coisa que você saiba sobre o Haroldo que não revelou à polícia da primeira vez?”
A memória iluminou os olhos de Raymundo.
“Tem sim. Ele estava metido ultimamente com um marinheiro eletricista. Era um sujeito casado, tinha um filho bebê, recém-nascido. O marinheiro gostava de Haroldo, mas amava a esposa também. Sei disso porque, quando eles vinham conversar aqui, eu ficava na espreita, com o ouvido atento.”
“Você acha que isso pode estar relacionado com o crime?”
“Talvez. Sei que Haroldo ajudou esse eletricista com algum dinheiro durante um tempo. O soldo dos cabos é curto e o marinheiro tinha família. Haroldo fazia isso, às vezes.”
“E o que aconteceu?”
“Ele deve ter se cansado do eletricista. Depois de um tempo, parei de ver os dois juntos.”
“Você por acaso sabe o nome desse eletricista?”
“Cabo Alves. Antônio Alves.”
Engoli seco.
“Você dizia que Haroldo deve ter se cansado dele...”
“Exatamente, é o que sempre acontecia. Haroldo era um vampiro, sempre atrás do sangue mais fresco. Depois de umas semanas, deve ter se cansado do Antônio, tal qual se cansou de mim. Acho que Antônio Alves, de certa maneira, tolerou o abandono. Talvez já soubesse desde o começo como seriam as coisas. Mas queria continuar recebendo o dinheiro.”
“E começou a chantagear Haroldo?”, arrisquei.
“Exatamente. Às vezes via Antônio subir até o apartamento de Haroldo, mas descia rapidinho, coisa de um ou dois minutos. Eles não ficavam mais aqui no Café conversando.”
“A situação ficou assim por muito tempo?”
“Alguns meses, acho.”
“Mas então alguma coisa mudou no meio do caminho?”
“Os ânimos esquentaram. Não sei se Haroldo decidiu deixar de pagar, se Antônio Alves começou a pedir mais, mas o fato é que um dia Antônio subiu na garçonnière e não encontrou o que quis. Voltou espumando de raiva, com os punhos cerrados. Desceu aqui, me perguntou se eu sabia onde Haroldo morava.”
“Você sabia?”
“Sei mais ou menos onde fica a casa da tia dele. Já fui com ele até a porta uma vez.”
“E contou?”
“Não tinha alternativa, Antônio estava agressivo. Fiquei com medo.”
“Isso foi...”
“Semana passada.”
O cerco se fechava em torno do marinheiro. Vários depoimentos apontavam Antônio Alves como um suspeito particularmente forte. Me peguei perguntando como andava a conversa do comissário com ele lá na delegacia.
“Mais alguma coisa que você julgue pertinente?”
“Acho que não...”
“Por acaso, você ouviu alguma vez Haroldo comentando sobre espiritismo?” perguntei, quase culpada por dar ouvidos à opinião de Sylvio Terra.
“Nesses últimos meses, ouvia isso o tempo todo.”
“Que tipo de coisas ele dizia?”
“Sobre seu pai. Haroldo tinha lido em algum lugar um boato sobre... bem, talvez seu pai não fosse filho de José de Alencar, mas de um outro escritor. Ele queria porque queria investigar esse boato.”
“Você sabe de onde Haroldo ouviu isso?”
“Não faço ideia.”
Basicamente o que eu ouvira de Sylvio Terra: Haroldo de Alencar tinha escutado o boato sobre sua ascendência e tomou para si a tarefa de verificar sua veracidade.
“Não sei se foi Haroldo que levou o médico ou se o médico levou Haroldo, mas pareceu que os dois compareciam juntos a esse eventos.”
“Você sabe o que acontecia lá?”
“Eu sou muito católico.”
“O que você quer dizer?”
“Não acredito nesses truques.”
“Truques?”
“Uma vez, Haroldo me convidou, mas não quis ir. Como eu disse, sou muito católico. Ele contou como acontecia. Várias pessoas se reuniam ao redor de uma mesa circular. O mestre da reunião convocava os espíritos presentes com uma oração. Não que eu tenha acreditado nisso, é claro que não acreditei. Não existem espíritos neste mundo. Haroldo me contou que todos colocavam a mão sobre a mesa e invocavam os espíritos. Haroldo me contou que às vezes a mesa subia como se não existisse gravidade.”
Algo se moveu à minha direita: um grupo de baratas.
“Entendo. Mas como essas seções poderiam ajudar Haroldo a descobrir quem era o pai de seu pai?”
“Essa brincadeira com a mesa não era a única coisa que eles faziam. Também tinha uma outra, parecida, que envolvia um alfabeto.”
“Um alfabeto?”
“Isso. Todos os participantes ao redor da mesa encostavam em um copo. Depois da oração do mestre, o espírito moveria esse copo pelas letras do alfabeto, formando palavras e frases, como uma mensagem do além, diretamente para nós. A esperança de Haroldo era contatar alguém que soubesse de algo relacionado ao boato. Talvez o próprio José de Alencar, ou sua mulher, a vó de Haroldo.”
“Haroldo acreditou que isso alguma vez chegou a acontecer?”
“Não saberia responder, acredito que não. Ele ainda andava, dias antes de morrer, pensando sobre essa questão.”
Agradeci a disponibilidade de Raymundo, anotei mentalmente as coisas que tinha descoberto e saí. Finalmente, eu entendia o alfabeto circular que estava lá na cena do crime. Não era um artefato para brincadeiras de bebidas, como tinha sugerido Sylvio Terra, mas uma ferramenta para a psicografia.
Apesar da descoberta, não conseguia me desvencilhar da sensação de que alguma coisa dessa questão me escapava completamente. Na frente do Café São João, o prédio amarelo onde Haroldo de Alencar havia sido assassinado se erguia evidente e enigmático como uma esfinge.