Sylvio Terra chegou bem depois de mim. Minha terceira xícara de café já tinha esfriado sobre a mesa. Em um caderno, cruzava cronologias e depoimento em tentativas mal-sucedidas de desvendar o crime.
“Como foi?”
“Conversei com José Leite”, declarou, com uma animação que nem tentava esconder.
“Logo depois do enterro do amigo?”
O comissário pegou um brioche sobre a mesa.
“Se importa? Então, como eu ia dizendo, me dirigi muito calmamente a José Leite. Desejei condolências, disse que sentia muito... Depois, com muito tato, disse que ele poderia ajudar a solucionar o mistério, se fosse até a delegacia e respondesse uma pergunta.”
“Ele não quis”, supus.
“Exatamente. Gente importante nunca gosta de ir até a delegacia. Disse: olha, senhor José Leite, até o interrogaria aqui, agora, mas sei como é difícil lidar com a morte de um amigo...”
“Ele mordeu a isca?”
“É claro. Fiz o inquérito lá do cemitério mesmo.”
“O que descobriu?”
“Está sentada?”
“Faz duas horas, comissário.”
“Pois bem. Vamos lá.”
Clarisse estava certa. José Leite esteve de fato com Haroldo de Alencar na noite do crime. Leite, Gusmão e Haroldo tinham ido ao Cine Odeon juntos. Leite disse ao comissário Sylvio Terra que tinham se encontrado na porta do cinema. Assistiram Dias Felizes. Na saída, Haroldo parecia um tanto apreensivo. Olhava para os lados como se estivesse com medo de alguém. Logo que o filme terminou, disse que tinha um encontro lá na garçonnière, que precisava ir embora tão rapidamente quanto possível. Leite se despediu de Haroldo na porta do cinema. De lá, Haroldo e Gusmão continuaram juntos mais um tempo. José Leite não tornou a ver Haroldo de Alencar.
“Ele disse alguma coisa sobre a garçonière?”
Sylvio sorriu: “Você não vai acreditar.”
“Sou toda ouvidos.”
“Segundo Leite, Haroldo era um pederasta convicto. Lá no cemitério São João, José me contou sobre um singular costume de Haroldo. Logo que via um homem de quem gostava, entregava para ele uma chave de sua garçoniere. Podia ser um marinheiro na mesa afastada lá no Café São João. Podia, às vezes, ser um desconhecido. Se um homem bonito aparecia, ganhava uma chave da garçonnière e um convite. Leite contou que Haroldo tinha um molho com dezenas de cópias da chave que guardava debaixo de uma das tábuas do piso sob a cama da garçoniere. Haroldo se divertia com a possibilidade perigosa de um homem praticamente estranho poder entrar, a qualquer momento, em seu quarto.”
“Essa ideia não deu muito certo para ele.”
Como se não bastassem as dificuldades correntes, ainda isso, pensei. Se ele tratava tão displicentemente suas chaves, como ter certeza que não fora um latrocínio praticado por alguém completamente fora do radar do inquérito?
“E sobre o caderno? Leite sabia alguma coisa?”
“Sim. Outro costume de Haroldo.”
Sylvio sorria de uma extremidade a outra, ansioso por revelar suas descobertas.
“O que eram as anotações?”
“O caderno era um registro de conquistas.”
“Como assim?”
“Aqueles marinheiros são homens com quem Haroldo passou a noite dos dias marcados. Haroldo tinha o costume de enumerar os parceiros de suas noites com a organização metódica de um escrivão.”
Demorei um segundo para processar a ideia. Sylvio continuou relatando o que tinha descoberto:
“Leite também contou que Pires Crespo chantageava Haroldo. O comerciante pedia uma quantia mensal por seu silêncio quanto às atividades acontecidas na garçonnière. Ou seja, exatamente o oposto do que cogitamos anteriormente.”
“A partir disso, daria para apostar nossas fichas na inocência de Pires”, rematei. “É comum o chantageado matar o chantagista, mas o oposto disso...”
“Não tanto” completou Sylvio, concordando.
“Sylvio, você conversou com José sobre Antônio ou Raymundo?
“Sim, perguntei a ele. Sobre Raymundo, Leite confirmou o que já sabíamos. O garçom estava perdidamente apaixonado por Haroldo, escrevia para ele longos e mancos poemas de amor. Leite também já tinha visto Antônio. Segundo lembrava, Haroldo de Alencar gostava muito de Antônio.”
Rabisquei as novas informações, desacreditando que elas me ajudassem a entrever a solução. Olhei para Sylvio, que sentava ansioso. Tive a certeza de que ele ainda não tinha me contado a melhor parte de suas descobertas.
“Algo mais?”
“Ultimamente, Haroldo andava bastante preocupado com uma certa questão de ascendência. Havia um boato, muito antigo, segundo o qual Mário de Alencar, seu pai, não seria filho de José de Alencar, mas de outro homem. Haroldo soube desse boato e, segundo José Leite, decidiu pesquisar a fundo essa história.”
“Como?”
“Como podia. Perguntando para Clarice, para Helena. Mas Haroldo achou que o que elas disseram tinha sido inconclusivo. As duas conheciam o boato, mas nunca deram importância. Na verdade, nem Clarisse nem Helena, segundo Leite contou, se importavam muito com a questão. Mas Haroldo se importou. Tanto que também chegou levar a questão por caminhos absolutamente não triviais.”
Sylvio, fazendo seu jogo de suspense que eu já começaca a entender melhor, não retomou sua narrativa até que eu lhe perguntei:
“Quais são esses caminhos?”
Sylvio pediu mais um café.
“Magia. Por influência de Gusmão Lobo, Haroldo de Alencar tinha passado a frequentar um grupo que fazia experimentos com o objetivo de contatar os espíritos. Experimentos desse tipo estavam na moda na França uns anos atrás. Eram brincadeiras com mesas que se movem sozinhas e mensagens psicografadas de parentes já mortos. Leite nunca se envolveu muito nisso, mas as experiências mexeram muito com Haroldo.”
Pela segunda vez naquele mesmo dia, senti um arrepio percorrer a espinha. Quase soltei a xícara que segurava porque meu corpo inteiro parecia, de uma só vez, ter virado espuma. Sylvio fez aquele sorriso de deboche que lembrava dos momentos no quarto de Haroldo.
“Ora, Amália, você ficou mais pálida do que a louça. Não vai me dizer que acredita nessas coisas...”
“Você não?”
“De jeito nenhum. Acredito na sobrevivência da alma após a morte do corpo. Em outras palavras, acredito na imortalidade da alma. Mas também acredito que a verdade nunca vem facilmente. Os espíritos existem, mas não conseguimos falar com eles. Certamente não com truques baratos como esse jogo do copo que usam por aí. ”
Me recompus ligeiramente:
“De qualquer forma, não é isso que nosso amigo Haroldo de Alencar pensava.”
“Exatamente. Haroldo andava fascinado com esses experimentos, que julgava poderem contatar os mortos. A cada semana, estes experimentos estavam indo mais longe e Haroldo pensava que em breve ele saberia a verdadeira identidade de seu vô.”
“Mas por que será que esta questão se tornou tão importante para Haroldo de Alencar?
Saber quem é seu vô...”
“Ninguém nasce impune em uma família ilustre. Haroldo ouvia desde criança que seu vô era um homem importante, ministro e escritor. E, de repente, descobre que isso pode ser uma mentira. Não é difícil imaginar o susto”, disse Sylvio. Depois, como se só então tivesse pensado nessa possibilidade, rematou: “Talvez devamos procurar justo aí as razões para o crime. É excêntrico, curioso, bonito. Tem tudo para nos levar à verdade.”
“Mas será que não desviamos demais da investigação, comissário? O suspeito principal está preso. Tudo parece indicar que ele é o culpado. Precisamos entrevistar Antônio Alves e Raymundo Silva. Esta pista não seria um desvio da rota mais promissora?”
Sylvio bufou diante da minha incapacidade de compreender suas aspirações hermenêuticas.
“Bem se vê, Amália, que você não tem nenhuma sensibilidade para as coisas belas. Investigar é mais que descobrir o culpado para colocá-lo na cadeia. Uma investigação é um mergulho. É preciso sempre, em qualquer inquérito, descobrir algo que não se sabia. Desenterrar tesouros, calmamente, uma peça por vez. E só então chegar ao coração da coisa. As respostas, quando são óbvias, são mentirosas. As pistas, se são evidentes, devem ser descartadas.”
“A academia policial te ensinou isso?”
“Não, isso eu aprendi com meus dois olhos naturais e com essa lente convexa que carrego em meu bolso. Mas te ensino de graça. Essa é só a primeira das lições do trabalho investigativo, Henry Taxon.”
“Henry Quem?”
“Um dia te explico”, respondeu Sylvio, bancando o ar de mistério emprestado dos folhetins.
Realmente, às vezes faltava para Sylvio Terra qualquer senso prático. O mais surpreendente era que seu apego pela solução extravagante contrastava com a maneira com que ele lidava, por exemplo, com a imprensa. Aqueles diálogos que eu entreouvi momentos antes da entrevista de Raymundo Silva revelavam um Sylvio Terra bastante ágil e pragmático, pronto para mediar diligentemente os interesses da corporação policial com o assédio constante dos jornais. Mas, no que tangia ao trabalho de detetive, o comissário parecia perder a noção da factualidade. Para mim, naquele momento as coisas estavam postas de maneira bastante direta. Tínhamos dois principais suspeitos e era preciso investigá-los. Com toda probabilidade, um deles se revelaria culpado. Caso não acontecesse algo assim, só poderíamos concluir que o assassinato de Haroldo de Alencar fora um latrocínio praticado por algum estranho a quem Haroldo tinha tido a infausta inspiração de entregar a chave de seu apartamento.
Apesar de suas aspirações estéticas, o comissário acabou por concordar que era prudente voltar à delegacia e interrogar Antônio Alves.
“Não vou negar. É importante. Mas se você me perguntar se acho que ele é o culpado, diria que não, não acho.”
“Por que você pensa assim?”
“Não sei. Por causa de um raciocínio perfeitamente racional que eu poderia explicar sem dificuldades em uma bela e estruturada exposição retórica. Mas ainda não sei qual é esse raciocínio.”
“Entendo perfeitamente”, ironizei.
“A minha intuição tem essa incomum particularidade. Não é irracional, é pré-racional.
Sinto na pele a consequência dos silogismos antes mesmo de formular suas premissas.”
Sylvio continuou, dizendo que talvez, ao entrevistar Antônio Alves, descobrisse qual era a razão pela qual acreditava que o marinheiro era inocente.
“Enquanto isso, pra ganharmos tempo, você podia ir até o Café São João e bater um papo com Raymundo Silva. Ele vai ter que desembuchar agora que temos sua carta.”
“E a Adelaide? Mulher de Pires Crespo? Será que ela não tem nada de interessante pra nos contar?”
“Adelaide, a belíssima Adelaide, terá seu momento... Por ora, acho bom voltarmos ao garçom.”
Concordei com o plano, razoável, enfim. Combinamos os detalhes e nosso próximo encontro, depois das entrevistas. Sylvio tinha se levantado para sair do café quando perguntei:
“Mas, vá lá, me diga: os boatos diziam quem seria o pai de Mário de Alencar?”
“Achei que não fosse perguntar.”
Levantou da mesa, limpou os lábios com o guardanapo e só então respondeu: “Machado”, disse ele. “José Leite me disse que Haroldo de Alencar achava que seu avô talvez fosse Machado de Assis.”
Quando o comissário deixou o café, sua resposta ainda pairava nos meus ouvidos.