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"O Mysterioso Assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 12

Acompanhe o romance policial de Nicolas Wolaniuk que o Plural publica semanalmente em formato de folhetim

"O Mysterioso Assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 12

As coisas em uma investigação acontecem em um piscar de olhos. As pistas se acumulam em uma velocidade tal que é muito fácil esquecer-se das primeiras descobertas em detrimento das mais recentes. Mas um romance não precisa ser assim. Por isso, meu intermediário terreno, pretendo agora fornecer aos meus leitores uma pequena pausa, isto é, um breve e providencial respiro durante o qual devem tentar pensar no quadro geral do caso.

Já era, naquele momento, fato notório que Haroldo usava aquela garçonnière para seus encontros com homens. Os jornais sabiam, os garçons sabiam, os motorneiros sabiam. Na verdade, os hábitos de Haroldo pareciam um desses segredos públicos destinados à ciência tácita desde antes da sua morte.

Alguns fatos sobre o assassinato de Haroldo foram apurados com mais exatidão nas últimas horas da noite anterior. Foi constatado, enfim, que aconteceu furto. Vários objetos da garçonnière estavam faltando. Haroldo, segundo mencionou José Pires Crespo, e vários frequentadores do Café São João confirmaram, andava sempre com seu Patek Philippe de pulso. Clarisse, consultada por funcionários da delegacia, disse que tinha certeza que Haroldo de Alencar guardava uma boa quantia de dinheiro na garçonnière. Nada disso foi encontrado no quarto da Candelária. A hipótese sugerida por José Pires Crespo, afinal, ganhava força.

Quanto aos suspeitos, também houve avanço considerável.

Naquele momento, as coisas estavam bastante complicadas para o marinheiro Antônio Alves. O depoimento da tia de Haroldo tinha sido especialmente incriminador: na semana anterior ao assassinato, um marinheiro de nome Antônio, negro, grande e alto e com um sotaque cearense tinha ido até a casa de Haroldo, que quis veementemente evitá-lo. A descrição batia, ponto a ponto, com o cabo da marinha retido na quarta delegacia desde a noite anterior. Tentávamos, é claro, ser prudentes, mas as coincidências eram muitas. Mesmo Sylvio, um tanto a contragosto, confirmou que era interrogar novamente Antônio.

O inquérito também tomava rumos preocupantes para Raymundo Silva. Já era claro que ele tinha mentido sobre sua relação com Haroldo. Suspeitávamos disso por causa da chave que ele tinha deixado cair ainda na 4ᵃ Delegacia Auxiliar. A partir da comparação com a cópia que Clarisse tinha entregado a Sylvio, ficou evidente que Raymundo tinha consigo uma chave da porta da garçonnière. Raymundo disse que só conhecia Haroldo de vista e que só tinha ido uma vez ao quarto de Haroldo, mas esse fato, contudo, contava uma história de cumplicidade e intimidade que contradizia suas respostas.

O segundo indício, porém, era ainda mais comprometedor: a carta que encontrei na escrivaninha de Haroldo de Alencar estava assinada por ele. Sylvio e eu a lemos logo que saímos da casa de Clarisse, em direção ao cemitério. Era uma carta de amor, ou melhor, de ressentimento. Raymundo confessava uma paixão febril e obsessiva por Haroldo. Escreveu que, por esse amor, suas tardes se perdiam em devaneios. Ele sentia dor física e uma inevitável vontade de morrer toda vez que, atrás do balcão do Café, via outro homem subir até a garçonnière. Dizia que podia ser simples, que não tinha o corpanzil bronzeado dos marinheiros, tampouco tinha estudado os fenômenos magnéticos em Paris como os homens cultos da época, mas que amava Haroldo mais verdadeiramente que todos eles. O último parágrafo era de um desespero de dar dó: Raymundo Silva implorava por uma última noite na garçonnière. Mas era também nesse arroubo apaixonado que o garçom mais se comprometia: dizia que às vezes tinha vontade de matar Haroldo para que ele nunca mais se deitasse com outro.

Enquanto andávamos em direção ao cemitério São João Batista, o comissário concordou que era necessário interrogar mais uma vez o garçom:

“Mas, Amália, esteja preparada; as coisas são sempre mais difíceis da segunda vez. Os suspeitos já nos conhecem e as cartas estão na mesa. Mentir é bem mais fácil depois que se descobre o preço de dizer a verdade.”

Em poucas horas, Haroldo de Alencar seria enterrado. Segundo Sylvio, um bom detetive não deve desprezar as informações que podem ser coletadas observando as cerimônias fúnebres.

“A psicologia ainda há de explicar por que, mas todo detetive sabe que os assassinos tendem a ir ao enterro de suas vítimas”, explanou Sylvio, explicitando a sabedoria folhetinesca que seria posta à prova exatamente às onze horas.

O cemitério São João Batista nos oferecia, sob a máscara bela e melancólica das verdades, um lembrete da certeza da morte. Revertere ad locum tuum, li, no portal de entrada. Lá dentro, um anjo apontava com o indicador para o céu cinza. Do meu lado, o muro estendia indefinidamente. Poderia me perder naquele cemitério labiríntico uma vida inteira sem nunca achar a saída. Achei que havia entrado em um pós-morte de mármore quando vi brilharem os olhos de uma estátua de Cristo. Não sei se foi o inverno dando as caras na primeira metade de junho ou se foi o efeito sinistro das esmeraldas cravadas nos globos oculares da estátua, mas senti o corpo tremendo em um arrepio. Foi Sylvio que, se aproximando de mim e cochichando baixinho, me resgatou do transe.

“Presta atenção às pessoas, não às estátuas.”

“Todos são suspeitos até que se prove o contrário”, respondi, prudente.

Talvez pela própria repercussão nos jornais, o enterro de Haroldo de Alencar estava repleto de pessoas que talvez nem o conhecessem. Eram em sua maioria homens, de faixa etária parecida com a do falecido. A abordagem da polícia deve ter afastado os marinheiros, porque julguei, observando os cortes de cabelo, que não havia muitos deles lá no cemitério. À frente, ia uma mulher de preto, amparada por Léo de Alencar, irmão de Haroldo, que tinha visto lá na garçonnière. Imaginei que devia ser Helena, a mãe de Haroldo. A própria Clarisse, que horas antes tinha nos recebido, agora estava com um longo vestido negro sobre o qual brilhavam as pérolas brancas de seu colar. No seu dedo havia uma aliança que não estava lá horas antes.

Quem mais me chamou atenção, contudo, foi um homem, talvez de trinta anos ou um pouco mais novo, que acompanhava o cortejo um tanto afastado, com um olhar solene. Inicialmente, tive apenas sensação vaga de reconhecimento. Sabia que já o tinha visto em algum lugar, mas não lembrava onde...

Foi no momento em que o caixão baixava e Clarisse e Helena se esvaiam em lágrimas, que percebi onde tinha visto o sujeito. Ponderei se deveria deixar Sylvio Terra ali e segui-lo. O comissário olhava para os presentes com a atenção compenetrada de enxadrista. As cunhadas, depois quando os coveiros já cobriam o caixão com terra, se abraçaram. Já devia ser meio-dia, mas naquele 18 de junho o Rio permaneceu escondido sob o luto de nuvens cinzentas. Ao longe, mal dava pra ver o Corcovado, ainda coberto de neblina. Achei bom: o momumento estava quase pronto, as obras avançavam rápido, mas nada me convencia que aquele Jesus de braços abertos não seria um exagero deselegante.

“Amália, eu vou seguir esse José Leite. Ele é aquele que está bastante próximo da família. Eu o vi cumprimentando Clarisse. Quem sabe consigo trocar algumas palavras com ele. Nos encontramos daqui a uma hora no café em frente à delegacia, o que acha?”

Aproveitei a oportunidade para ir atrás do homem que me parecia familiar. Ele se dispersou do cortejo antes da maioria das pessoas. Avançava por entre os corredores do cemitério São João como se estivesse estado lá centenas de vezes e conhecesse o lugar de cabo a rabo. Queria segui-lo sem ser vista e tive a prudência de me manter sempre um tanto distante. Algumas vezes, julguei perdê-lo quando um monumento especialmente grande impedia que eu lhe avistasse a silhueta. De repente, com a mesma certeza com que se movia nas ruas daquele cemitério, ele sentou de frente para uma lápide e ficou uns cinco minutos a fitá-la pesadamente, como se orasse. Imaginei que ali deveriam estar os restos mortais de alguém muito querido, porque havia flores recentes colocadas sobre seu túmulo. Talvez o assassinato de Haroldo de Alencar tivesse alguma relação com a morte de quem quer que estivesse enterrado ali. Apesar de ver apenas sua silhueta, a impressão de familiaridade se intensificava a cada passo.

Esperei que ele se afastasse para só então me aproximar da tumba. A inscrição indicava: “Machado de Assis”. Me senti completamente idiota. Era só um leitor de romances que prestava sua homenagem.

A caminhada de volta ao Centro era longa demais. Virei à direita, vendo ao longe as janelas neoclássicas do hospício, e fui esperar o bonde perto da Enseada do Botafogo.

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