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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 9

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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 9

E, assim, pela terceira vez em dois dias, eu estava a caminho da delegacia central do Rio de Janeiro.

Já da rua perpendicular à da Praça da República notava-se um movimento incomum de pessoas. O branco de fardas reluzia ao sol do fim de tarde. Uma horda de marinheiros caminhava na frente. Pessoas pela rua olhavam para a aglomeração de boinas com uma apreensão velada. A fila dos militares terminava na porta da delegacia central. Por um instante, imaginei que a força naval tinha realizado uma investida inédita contra a polícia civil. Alguns deles se afastaram para que eu pudesse passar. A fila continuava dentro das dependências da delegacia, subindo a escada do prédio e se estendendo longamente pelo corredor até a porta do comissário Sylvio Terra.

Quando, timidamente, bati em sua porta, ouvi Sylvio lá de dentro gritar “tá aberta”.

Sylvio estava sentado atrás de uma mesa. À sua frente, em uma cadeira, estava, como seria de imaginar, um marinheiro. Havia também outro homem de pé na sala, outro policial. Sylvio, mal olhando para mim, indicou uma cadeira ao lado e me sentei.

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O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar - Plural
Notícias, reportagens e análises sobre O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar — jornalismo independente de Curitiba e do Paraná, por Plural.

Ao que tudo indicava, eu tinha entrado no meio de uma entrevista, que caminhava a pleno vapor.

“Você está me dizendo que não sabe dizer por que seu nome está na caderneta de Haroldo de Alencar?”

O marinheiro respondeu à pergunta de Sylvio com a voz entrecortada de medo: “Comissário, eu... eu já tinha visto o Haroldo ali... sabe? Ali no Café São João, ele ia lá com frequência... e eu também, às vezes. Não sei por que meu nome tá aí.”

Sylvio Terra virou-se para trás. O outro policial se inclinou com um gesto brusco e falou com a boca grudada no ouvido do marinheiro:

“Você tá me dizendo que não sabe por que Haroldo escreveu a porra do teu nome aqui?! Tá muito claro aqui: João de Souza Barros. Você sabe ler? Que bom! Achei que você só soubesse limpar o convés e ficar gaguejando. É bom que você tenha uma boa resposta!”

Sylvio emendou em um tom mais calmo:

“O que o delegado está querendo dizer, senhor Barros, é que seu nome na caderneta te coloca em uma situação complicada. Você pode nos dizer onde estava ontem à noite?”

Achei que o marinheiro, a qualquer momento, desataria em pranto.

“Eu já disse para os senhores! Eu não saí do encouraçado ontem! Era meu turno de faxinar o convés. Fiquei a noite inteira no encouraçado! Vocês podem verificar na lista do almirante.”

O silêncio dos policiais motivou o interrogado, que tomou coragem e aumentou o tom de voz.

“E nem venham me dizer que estou com problemas. Se esse sujeito que morreu escreveu o nome de toda essa gente aí fora no caderninho dele, então vocês não têm nada. Eu sou tão suspeito quanto qualquer um desses aí da fila!”

A reação dos policiais foi oposta. O delegado, por um lado, parecia um pavio queimando à iminência da explosão. Já Sylvio, mais rápido, sorriu apaziguador:

“Fique tranquilo, João. Você não é suspeito. Muito obrigado pelo seu tempo.”

Quando o marinheiro saiu, Sylvio voltou-se para o delegado, indignadíssimo:

“Eu te disse que não ia valer de nada convocar todos eles. Uma investigação deve primar pela arte e pela prudência.”

"Sylvio, se acalme. O assassino deve estar aí fora, no meio desta fila.”

“A gente não sabe de nada! Nem sequer entrevistamos a tia de Haroldo, não entrevistamos os amigos com quem ele saiu ontem, não entrevistamos ninguém. Só esses marinheiros.”

O delegado deu uma gargalhada sonora.

“A sua ingenuidade me assusta, Sylvio! Nem parece que já faz alguns anos que você é policial. Você tá sugerindo que a gente entreviste os ricos da turma de Haroldo antes de ter pelo menos um mulato na cadeia pra dizer o nome?”

Sylvio e o delegado trocaram olhares hostis. O delegado continuou:

“A imprensa ia cair em cima da gente no dia seguinte. Pra você tanto faz, você tem seus colegas lá, guardando tuas costas. Pra mim, não. A gente interroga esses aí, pega o primeiro mulato grande e forte que cair em contradição e mete na Casa. Depois, se você quiser, pode fazer seu trabalho de hermeneuta.”

O delegado fez que segurava uma lupa com a mão e olhou a própria gravata sob a lente. Reconheci na hora o gesto de Sylvio que tinha visto eu mesma na cena do crime dois dias antes.

“Percebo que visto um paletó com gravata, logo sou um homem. Ainda que pudesse ser um macaco vestido com paletó e gravata. Mas provavelmente sou um homem, uma vez que estou falando. Ainda que pudesse ser um papagaio de paletó e gravata. Falo em português, portanto devo ter nascido em algum país onde se fala português, como o Brasil ou Portugal. É claro que também poderia ter nascido em qualquer outro país e ter aprendido português. Oh, meu Deus! Quantas possibilidades! Na minha gravata, vejo, com minha lupa, grãos de pólen de coqueiros e figueiras tropicais. Devo morar em uma cidade tropical, como o Rio de Janeiro ou a Flórida. Mas não posso esquecer do detalhe mais importante. Tenho, no meu bolso, uma lupa. Tudo está claro: sou burro o suficiente para acreditar que a verdade sempre é uma questão de esforço. Em outras palavras, sou o comissário Sylvio Terra.”

Segurei a risada — a imitação era boa — enquanto o delegado arrematava:

“Ah, Sylvio, por favor. Deixa os detetives lá no rádio. Aqui a gente é policial. Não temos que fazer justiça: a verdade não paga nossas contas.”

Sylvio afundou na cadeira. Depois, pegou o caderninho preto de Haroldo de Alencar e abriu em uma página qualquer.

“16 de maio de 1928. 27 de junho de 1928. 3 de janeiro de 1929. Nós não temos a menor ideia do que significa esse caderno. Essas datas podem ser qualquer coisa.”

“Se te agrada, vamos recolocar as possibilidades.”

“Por favor.”

“Primeiro, pode ser que Haroldo prestasse algum tipo de serviço para esses marinheiros. Esse caderno seria uma agenda de negócios. As datas aos lados dos nomes seriam prazos. Um caderno que marcasse o prazo que Haroldo tinha para fazer algo por esses marinheiros.”

"Sim,” continuou Sylvio “mas pode ser também o contrário. Talvez os marinheiros fizessem algum tipo de serviço para Haroldo. É bem comum que os da Marinha contrabandeiem umas coisas para ganhar uns contos por fora. Nós sabemos que os marinheiros de patente baixa representam parte significativa da mão de obra do tráfico ilegal de entorpecentes. Essas datas talvez fossem os dias combinados para entrega.”

“Também não podemos deixar de pensar na possibilidade do caderno ser um registro, ao invés de uma agenda”, continuou o delegado. “As datas podem não ser prazos a serem cumpridos, mas acontecimentos registrados depois de acontecerem.”

Sobre os dados da caderneta, os dois policiais pensaram, repensaram, recuaram, suspiraram e desistiram. Depois, chamaram o próximo marinheiro da fila.

Seu nome era Antônio Alves. Era preto e alto, tão corpulento que parecia uma farda vestida ao redor de um armário. Assim que ele entrou, os comissários se entreolharam.

Antônio respondeu tudo que perguntaram com um nervosismo particularmente notável. Trabalhava como eletricista no encouraçado Minas Geraes. Disse que tinha ficado a noite anterior no convés do navio e não conhecia Haroldo de Alencar. Ao fim da entrevista, Sylvio agradeceu a disponibilidade.

“Entraremos em contato na semana...”

“Em algumas horas”, o delegado corrigiu. “Por enquanto, você fica por aqui. O policial na porta vai te indicar o caminho. Seu superior vai ser avisado que hoje você não voltará ao encouraçado.”

O comissário fez menção de protestar, mas o delegado silenciou sua objeção com um olhar que esclarecia a hierarquia da corporação.

Depois desse, veio outro. Depois do outro, mais um.

A todos, Sylvio perguntou onde estavam na noite anterior. Sete ou oito responderam: no encouraçado Minas Geraes. Seis ou sete responderam que estavam bebendo.

O resto respondeu que estava com a família. Alguns estavam bebendo com a família.

E os que sobraram também estavam no encouraçado Minas Geraes.

A todos, o delegado assustou, ora gritando em rompantes de fúria ora sussurrando em voz mansa, ao pé do ouvido, ameaças.

Onze se desesperaram.

Seis ou cinco dentre eles imploraram chorosos.

Dois, ou talvez fossem quatro ou dez, ficaram estoicamente serenos, como se não tivessem medo nem da dor, nem da morte.

“Como você explica, cabo Souza, que seu nome esteja na lista de Haroldo de Alencar?”

Um se curvou medroso e disse: “Não sei, comissário.”

Alguns responderam: “Meu nome não é Souza, comissário.”

Outros responderam: “Eu não sou cabo, comissário.”

O que era maior e mais ousado que os outros respondeu: “Comissário, faça-me o favor. Eu não sou cabo e nem me chamo Souza.”

Às vezes, Sylvio perguntava se os inquiridos tinham fogo. Uns tinham e disseram que tinham.

Uns tinham e o estenderam.

Uns disseram que não tinham.

É lógico que qualquer sujeito minimamente conhecedor do espírito humano sabe que boa parte desses que disseram não ter fogo na verdade tinham, mas quiseram mentir porque, dentro de uma delegacia de polícia, lhes sobreveio o medo de que mesmo o fato de eles terem um caixa de fósforos no bolso poderia ser comprometedor...

Seja como for, é certo que, uma horda de marinheiros depois, o caso parecia emperrado no mesmo lugar. Sylvio estava furioso:

“A polícia não pode fazer isso! Avançar madrugada adentro entrevistando inocentes que nem sequer são suspeitos, perseguindo ingenuamente uma pista que, até onde sabemos, pode até ter sido plantada!”

O delegado, igualmente cansado, contrapôs um sorriso de alívio:

“Temos nosso mulato na cadeia. O tal do Antônio Alves está encarcerado. O caso está resolvido. Agora você pode brincar de descobrir a verdade se quiser.”

Ainda zombou, com malícia:

“E, quem sabe, se a verdade for conveniente, até liberamos esse aí.”

Os olhos de Sylvio brilhavam de desprezo. O delegado não percebia ou não se importava e continuou:

“De resto, parece que você estava certo. Não temos a menor ideia do que a lista significa. Nomes, nomes e mais nomes e alguns nem sabiam quem era Haroldo de Alencar.”

“Será que não sabiam? Todos pareciam saber, mas alguns tiveram medo de revelar.”

“É possível, mesmo provável”, arriscou o delegado, “que a relação deles com Haroldo fosse ilegal. Por isso o silêncio. Talvez seja melhor entrevistá-los de novo, com algum incentivo dessa vez”, sugeriu, enquanto nascia um sádico sorriso em seus lábios.

“De jeito nenhum. Já é humilhação o bastante ter lotado a delegacia de marinheiros uma vez. De novo não. É preciso, antes, pensar.”

“Pensar como? Pensar no quê?”

“Ainda não sei. Você não percebeu algo de comum entre todos esses? Isto é, algo além do fato de serem marinheiros? Um certo trejeito em comum, talvez fosse algo na voz.”

“Tinha alguma coisa, mas não consigo dizer exatamente o que era.”

“Talvez o sotaque?”

“Talvez os gestos?”

Os dois se voltaram para mim, sincronizadamente, como se só então lembrassem que eu ainda estava ali. Foi Sylvio quem perguntou:

“E você, Amália? Consegue perceber?”

Não podia ser que aquela intuição claríssima que eu tinha não tivesse ocorrido a eles. Olhei para aqueles investigadores incrédula. Dois investigadores profissionais que não saberiam distinguir sozinhos um elefante de uma borboleta. Quatro olhos estúpidos me imploravam para que eu dissesse de uma vez o que queria dizer.

“Eram todos...”

“Eram todos o quê?”

“Pareciam...”

“Diga logo.”

“Pareciam todos veados.”

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