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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 7

Continue a ler o romance policial de Nicolas Wolaniuk que o Plural publica em capítulos aos domingos

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 7

Foi só na segunda vez que pisei na delegacia que vi no comissário o homem determinado de que falavam os jornais. Cheguei sem pedir licença, com medo de que não me dessem, e fui até onde sabia que ficava seu escritório.

À porta do escritório do comissário, conseguia escutar vozes lá de dentro. Ao invés de bater, fiquei no corredor, com o ouvido cosido à parede. O comissário negociava o comércio de informações com a imprensa. Tentava prestar atenção ao conteúdo da conversa, mas só entendia pequenos trechos. Claramente, Sylvio prometia informações privilegiadas a alguns repórteres, com a condição de que deixassem o interrogatório transcorrer em paz. Havia, pensei eu, uma outra condição, nunca verdadeiramente explicitada: a imunidade de Sylvio. Não era à toa que o comissário tinha se tornado, para a imprensa da época, a face mais promissora e inteligente da corporação policial.

Leia aqui os primeiros capítulos do livro:

O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar - Plural
Notícias, reportagens e análises sobre O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar — jornalismo independente de Curitiba e do Paraná, por Plural.

Depois de dispensar os jornalistas, Sylvio Terra foi até a porta e, sem olhar na minha direção, fez sinal para que um outro policial trouxesse um jovem, de camisa branca e sem gravata, até seu escritório. Escutei o começo do inquérito ao lado da porta.

“Muito obrigado pela sua colaboração. Posso começar perguntando seu nome, para o registro?”

“Raymundo.”

“Completo.”

“Silva. Raymundo Silva.”

“Idade?”

“23.”

Então decidi bater na porta do comissário. Ele pareceu surpreso ao me ver. Sentei em uma das cadeiras no canto e saquei um caderninho e um lápis.

“Espero que meu atraso não tenha comprometido o interrogatório, comissário”, improvisei.

Sylvio Terra, sem muito jeito, disse para Raymundo:

“Raymundo, essa aqui é a Amália, auxiliar contratada da polícia. Ela vai acompanhar o inquérito”, disse Sylvio.

“Que tal começarmos com o que aconteceu terça à noite? O que você fez depois das vinte horas?”.

“O de sempre. Atendi às mesas no Café”, respondeu.

“Faz tempo que você trabalha no Café São João?”

“Uns dois anos.”

 “Que horas você começou seu turno ontem?”

“Às seis da tarde. Ainda estava claro.”

“E você saiu?”

“Só depois das três da manhã” disse Raymundo e, como Sylvio sustentava um olhar desconfiado, completou: “O senhor pode confirmar isso que te digo. Só perguntar pros outros que trabalham lá. Pro cozinheiro. Acho que mesmo o patrão me viu ontem.”

“Você viu Haroldo de Alencar na terça à noite?”

“Vi sim. Ele me cumprimentou quando chegou, passando na rua, mas não quis tomar nada. Estava sozinho.”

“Que horas foi isso?”

“Umas onze.”

“O Haroldo costumava frequentar o Café?”

“Quase toda noite, comissário. Até estranhei ele não sentar pra beber pelo menos um golinho de cerveja. Ele estava com um aspecto esquisito ontem. Foi direto pra garçonnière.”

“Você tornou a vê-lo depois disso?”

“Não. Foi a última vez.”

“E depois?”

“Fiquei até as três no bar. Fui eu que fechei tudo, como sempre.”

“Você foi para casa depois?”

Raymundo fez que sim e o comissário anotou algo em sua caderneta.

“Muito bem. Vamos agora passar aos acontecimentos de ontem de manhã. Você estava trabalhando no Café de manhã novamente, não estava?”

“Estava sim, comissário. Entrei às nove.”

“Saiu às três da manhã e entrou às nove do dia seguinte?”

“Isso mesmo.”

“Você recebeu uma ligação a respeito de Haroldo?”

“Recebi. Era mais ou menos uma hora depois que eu tinha chegado. Quem ligou foi um amigo de Haroldo, Gusmão, o nome. O Gusmão estava preocupado porque o Haroldo não tinha voltado para casa dele, no Botafogo. E o Haroldo não costumava passar a noite aqui no Centro. Não sem avisar, pelo menos. O Gusmão também perguntou se eu tinha visto o Haroldo ontem de noite. Eu disse que tinha visto ele entrar, mas que não tinha visto sair.”

“E o que o senhor Gusmão respondeu?”

“Perguntou se eu não podia ir lá verificar se o Haroldo estava lá em cima ainda, se ele estava bem.”

“Você fez isso?”

“Não fiz, comissário. O patrão não ia gostar que eu subisse lá, sabe? Não no expediente. Só respondi pro Gusmão que achava que estava tudo bem. Disse inclusive que as janelas estavam abertas no quarto dele. Achei que isso devia ser um bom sinal. Haroldo sempre fechava as janelas antes de sair. Queria dizer que ainda estava lá. Nem pensei que Haroldo pudesse estar...”

“Certamente que não. Raymundo, você sabe por que Haroldo de Alencar tinha esse quarto?”

Raymundo olhou desconfiado para Sylvio Terra.

“Era um quarto privado. Era pra lá que ele levava os amigos para passar as noites. O senhor imagina.”

“Você já entrou no quarto?”

“Entrei sim, comissário. Uma vez só.”

Pensei ter ouvido alguma amargura na voz de Raymundo.

“Você era amigo de Haroldo?”

“Acho que dá pra dizer isso, sim.”

“Como era sua relação com Haroldo?”

“Olha, seu comissário, eu fico muito triste com a morte dele. Ele não merecia isso não. Não que a gente fosse muito próximo. Quer dizer, ele ia muito no Café. Várias vezes levava seus amigos, marinheiros que conhecia por acaso. Mas só isso mesmo. Não conhecia bem ele.”

“Mas você disse que já tinha entrado no quarto dele.”

“O senhor comissário não está me achando com cara de assassino, está?”

O comissário abriu um sorriso acolhedor:

“Esse é apenas o trabalho da polícia. Averiguar todos os fatos, nada demais.”

“Foi um dia que ele chegou sozinho, daí pediu que eu sentasse com ele. Sentamos e conversamos. Bebemos muito. Foi a primeira vez que subi lá.”

Sylvio percebeu na hora a incoerência.

"Primeira vez que subiu lá? Você não tinha dito que só foi lá uma vez.”

“Foi a primeira e a última, comissário.”

“O que aconteceu?”

“Quer mesmo que eu conte?”

“Sem pudor, Raymundo. ”

Raymundo estufou o peito, orgulhoso, talvez.

“O Haroldo chamou duas meninas pra gente. Não uma pra cada. O Haroldo chamou duas pra cada. Eram estrangeiras, loiras”, Raymundo me lembrava uma criança. Sylvio não notou a impostura do garçom e seguiu seu interrogatório depois de fazer algumas anotações.

“E depois disso, você voltou a entrar no quarto de Haroldo?”

“Não senhor. Foi só esse dia.”

“Você sabe de alguém que poderia ter interesse na morte de Haroldo de Alencar?”

“Sei não, comissário. Quer dizer, talvez...”

“Talvez...”

“Não acho que ele faria isso. Não, não. Certamente que não.”

“Em quem você está pensando, Raymundo?”

Raymundo desviou o olhar, coçou o queixo e suspirou. Depois, enfim, tomou coragem para dizer:

“Acho bom você falar com o patrão, o senhor Pires Crespo. Ele deve saber te dizer melhor.”

“Por que seu patrão saberia dizer melhor?”

Raymundo Silva olhou para o detetive, ponderando. Pelo olhar silencioso, julguei que calculava consigo se se comprometia mais falando ou omitindo.

“Isso fica entre a gente, não é comissário?”

“Nosso trabalho é fazer desse inquérito o mais sigiloso possível, Raymundo. Eu sou um túmulo. E a jovem ali é a lápide.”

Pela primeira vez desde que entrara na sala, Raymundo Silva olhou para mim. Depois, talvez achando que o jeito como eu me sentava ou me vestia confirmava a promessa de sigilo do comissário, tomou coragem e disse:

“O Pires não gosta muito de gente do tipo do Haroldo.”

“Do tipo do Haroldo?”

“O senhor sabe, comissário. Não acho que o patrão cometeu o crime. Isso não acho de jeito nenhum. Ele não faria isso. Mas ele deve saber de alguma coisa. Ele se incomodava muito com as festas do Haroldo. Eu, se fosse vocês, conversava com ele.”

“Muito obrigado pelo seu tempo, Raymundo. Só me diga uma coisa: os clientes do Café teriam problema em confirmar que você esteve lá esse tempo todo, certo?”

“Não vejo por que, comissário.”

“Está bem. Muito obrigado, Raymundo. Por ora é o bastante.”

Raymundo estava a meio caminho da porta quando escutei tintilando no chão um ruído metálico. Olhei para o chão e vi que tinha caído de seu bolso uma pequena chave enferrujada. Eu, sem pensar muito, fiz menção de avisar a Raymundo, mas Sylvio, rápido e silencioso, ergueu para mim o indicador na frente dos lábios. Depois que Raymundo já tinha saído do quarto, Sylvio Terra, me estendendo a mão, pediu a chave. O comissário olhou a chave à contraluz como quem examina a autenticidade de um diamante. Depois, retirando do bolso de dentro do terno a chave que tínhamos encontrado na garçonnière de Haroldo, comparou o segredo de uma e de outra. Constatou, triunfante:

“São idênticas!”

“Quer dizer que Raymundo tinha a chave da garçonnière?”, perguntei. Sylvio tornou, prudente:

“Quer dizer somente que Raymundo tinha uma chave idêntica à chave que encontramos no chão da garçonnière. Não sabemos nada mais que isso.”

Sylvio pensou um pouco, depois acrescentou:

“Também seria fatal esquecer que essa pista, como qualquer outra, pode ter sido plantada. Muita coincidência ele ter deixado cair a chave bem na delegacia, no meio do interrogatório. Talvez Raymundo não seja tão ingênuo quanto parece.”

Concordei, pensativa.

“Qual o passo agora?”, inquiri.

“Agora seguimos a dica de Raymundo: mandamos chamar Pires Crespo”.

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