A tia de Haroldo era uma mulher expansiva, falava alto e ria com gosto. Não fossem as olheiras, daria para pensar que sua vida ia às mil maravilhas.
“Com licença. Sou o comissário de polícia Sylvio Terra. Esta é Amália, minha assistente. Podemos fazer algumas perguntas sobre o Haroldo?”
Clarisse nos recebeu como se fôssemos velhos amigos. Apontou o sofá e pediu que a empregada nos trouxesse uma xícara de chá.
“O que acha de começar nos contando o que aconteceu no dia 17 de junho?”
“Não queria lembrar dessas coisas, comissário, mas infelizmente lembro de tudo muito bem. A memória tem gavetas do contra: abrem se queremos fechar. Na noite de terça, isto é, anteontem, Haroldo disse que ia no Cine Odeon e que voltaria de noite, mas não voltou. Achei estranho.”
“Você sabia que Haroldo alugava esse quarto no centro?”
“Sabia que ele tinha um apartamento lá no centro, mas ele não passava a noite lá sem avisar. Quando já estava quase amanhecendo, resolvi ligar para um amigo de Haroldo.”
“Quem era esse amigo?”
“Gusmão Lobo. Antigo amigo de Haroldo, um médico. Haroldo disse antes de sair que ia no cinema com ele.”
“Gusmão e Haroldo eram bastante próximos?”
“Grudados. Gostavam muito de ir ao cinema.”
“Você sabe que há rumores a respeito de Haroldo de Alencar, não sabe? Sobre o que fazia nas noites no apartamento?”
Clarisse se tornou subitamente séria.
“Não ligo muito para rumores, comissário.”
“Você não acredita que Haroldo era, como podemos dizer... amaneirado?”
“Isso não é pergunta que se faça sobre um sujeito de nome importante como Haroldo, comissário.”
A voz de Clarice impunha-se com autoridade. Quando recuperou a voz, o comissário apenas gaguejou:
“Me desculpe, senhora, eu não quis ofendê-la. Apenas pensei que...”
Clarisse irrompeu em uma gargalhada.
“Meu deus, comissário, não precisa ficar vermelho. Estou só brincando. É claro que Haroldo gostava de homens. Desde menino, ele é assim. Na escola, deixava todas as meninas caidinhas por ele, mas se interessava pelos irmãos delas. A mãe dele ficou muito decepcionada com isso, naturalmente. Mário também, à sua maneira.”
“A relação de Haroldo com os pais não era boa?”
“Veja bem, Haroldo nunca tinha sido próximo do pai. Mário nunca escondeu do filho que tinha vergonha das amizades do filho, de suas saídas noturnas. Mas a morte de Mário mudou tudo. Os mortos são sempre bons, só irrita quem está vivo. Depois de morrer, Mário de Alencar virou para o filho Vitor Hugo, D. Pedro II e São Francisco de Assis num homem só. Outro dia ouvi ele dizer que Mário tinha sido um grande homem, que tinha saudade do pai. Veja só, esses dias Haroldo andava atrás de uns papéis dele, manuscritos de poemas, trechos de contos. Ficou louco porque tinha perdido uns escritos do pai. O meu irmão era uma pessoa muito boa, todos que o conheceram vão confirmar isso. É certo que a vida pública foi cansando ele, que nunca foi dado à política, mas era uma pessoa muito boa. Já a mãe...”
Foi o comissário que quebrou o longo silêncio que se instaurara: “Como era a relação dele com a mãe?”
“Ela é uma megera, que Deus me perdoe. Não tenho vergonha de dizer isso, comissário, porque já disse para o meu irmão, quando ele estava vivo. Helena é muito mesquinha. Às vezes, penso que Mário de Alencar gostava mesmo do pai dela, o grande jornalista e comendador, e casou com ela só por isso. Haroldo sofreu muito com a reação dela. Tenho certeza, inclusive, de que essa foi uma das razões que o fez decidir vir morar aqui comigo. Nunca o censurei: acho que ele foi mais feliz aqui.”
“Como foi essa mudança, Dona Clarisse?”, perguntou o comissário.
“Ele um dia veio aqui, muito triste e pediu para passar a noite no quarto vago. É claro que deixei. Isso se repetiu algumas vezes. Um dia ele pediu para ficar.”
“Você aceitou Haroldo assim, de pronto?”
“Sempre gostei muito dele.”
“Você acredita que o médico Gusmão Lobo era um parceiro de Haroldo de Alencar?”
“De jeito nenhum. Gusmão é um homem de mulheres. Estou certa de que Haroldo e ele eram só amigos.”
“Você acha que havia mais pessoas junto com Haroldo e Gusmão naquela noite?”
“José Leite, provavelmente. Ele estava sempre por perto. Esteve várias vezes aqui e sempre saía com Haroldo e Gusmão.”
“José Leite”, disse Sylvio pausadamente enquanto anotava. “Voltemos aos eventos de ontem à noite. Dando pela ausência de Haroldo de Alencar, você ligou para Gusmão, certo?”
“Certo. Liguei para sua casa.”
“Como foi a conversa?”
“O médico me acalmou. Disse que tinha visto Haroldo poucas horas antes, que o Haroldo parecia bem. Eles se separaram depois do cinema. Gusmão contou que Haroldo teria dito que tinha um encontro e ia até a garçonnière. O médico me disse por telefone que provavelmente Haroldo tinha passado a noite lá e tinha esquecido de avisar. Concordei simplesmente. E desligamos.”
“E depois?”
“Não voltei a falar com Gusmão por umas horas. Quando ele me ligou de novo, foi para me dar a notícia... Acho que Gusmão tentou me tranquilizar, mas ele próprio ficou preocupado. Nós dois sabíamos que Haroldo sempre avisava quando não pretendia passar a noite em casa. Ele me contou nesse segundo telefonema que tinha ligado para Raymundo, garçom do Café São José, perguntando por Haroldo. Não sei direito o que aconteceu a seguir, só sei que meu outro sobrinho, Léo, foi até lá e acabou encontrando Haroldo...”
Sobre o aparador da sala, reconheci em uma fotografia o rosto ainda jovem de José de Alencar. Na cômoda ao lado, um abajur de figuras desenhadas escondia o nome do autor de um livro com título em francês. Pensei que seria inadequado me esticar para conseguir ler o nome do autor, já que Clarisse segurava o choro e tanto eu quanto Sylvio fazíamos rostos sérios e compungidos para respeitar sua dor.
“Dona Clarisse, a senhora não teria uma cópia da chave do apartamento de Haroldo?”
“Devo ter em algum lugar. Comissário. Vou pedir para Maria buscar para nós.”
Clarisse chamou a moça que antes nos trouxera o chá e pediu para que trouxesse uma caixinha preta que estava na primeira gaveta do guarda-roupa. Enquanto Clarisse se virava para falar com Maria, aproveitei para dar uma olhada no livro na cabeceira. O título era Après la mort. Talvez a tia de Haroldo de Alencar procurasse consolo na literatura para lidar com a morte de seu sobrinho, pensei. Maria voltou com a caixinha na mão. Clarisse abriu e tirou com um gesto ligeiro, de um molho de chaves, a chavezinha enferrujada que procurava.
“Acredito que é esta aqui, comissário.”
“Se importa se a polícia ficar com ela?”
“De jeito nenhum.”
“Podemos subir para dar uma olhada no quarto de Haroldo?”
A expressão de Clarisse mudou subitamente. Um tanto ofendida, ela respondeu:
“É realmente necessário?”
“Nunca se sabe onde se pode encontrar uma pista.”
“Se é mesmo importante assim, não vou impedir, comissário. Vou acompanhá-los até lá em cima.”
Subimos até um grande salão, de onde começava um corredor largo, repleto de daguerreótipos de famílias sóbrias e ricas. A tia de Haroldo estancou em frente a uma porta. Sylvio girou a maçaneta e abriu passagem.
Comparado com o quarto da garçonnière, o quarto de Haroldo de Alencar na casa de sua tia era uma tela em branco. Nada de pôsteres sobre a parede branca, nada de roupas pelo chão. Uma limpeza translúcida se espraiava pela cama meticulosamente arrumada, pelos armários sem pó e pela escrivaninha. O quarto devia ter pelo menos umas quatro vezes a área da garçonnière e não tinha nem metade das coisas atulhadas na Rua da Candelária.
“Alguém mexeu nesse quarto desde terça, Dona Clarisse?”
“Ninguém, comissário. Está exatamente como Haroldo o deixou.”
“Muito obrigado. Se me permite, preciso dar uma olhada mais atenta.”
“Vou deixar vocês à vontade, comissário. Estarei esperando lá embaixo
Não achei que encontraríamos nada ali. Estava claro que, apesar da aparente simpatia que Clarice sentia pelo sobrinho, Haroldo de Alencar se sentia mais em casa no apartamento da Candelária. Sylvio me puxou de meu devaneio.
“Vamos! Não fique apenas olhando, procure!”
“Procurar o que?”
Sylvio adentrava pelo guarda-roupa de Haroldo que nem um pioneiro traçando uma picada, afastando os costumes para o lado tão logo se certificava de que seus bolsos estavam vazios e puxando violentamente o próximo.
“Qualquer coisa. Um diário, uma anotação, uma foto...”
“Uma carta?”, interrompi.
Bastou folhear o primeiro livro sobre a cabeceira (um volume de contos de Machado de Assis) que de dentro dele saíram duas folhas de papel pautado manuscrito. No topo da primeira página se lia: para o meu querido Haroldo.
Sylvio estancou e disse atropeladamente:
“Não leia agora, guarde. Ou melhor, me dá aqui”, disse Sylvio tomando a carta da minha mão e a enfiando no bolso da sua casaca.
Não encontrei mais nada digno de nota na gaveta das escrivaninhas. Sylvio não se cansou até revirar o quarto inteiro. Vimos debaixo do colchão, dentro das fronhas, no vão entre as gavetas, atrás de quadros. Checamos se as paredes eram maciças, se haviam gavetas escondidas nos armários. Checamos os forros do paletó, entre uma e a outra superfície do tecido. Não encontramos nada que parecesse ser útil de alguma maneira.
Como prometido, Clarisse nos recebeu lá embaixo quando descemos. Parecia mais apreensiva do que antes e roía as unhas com uma expressão de preocupação. O livro de antes já não estava sobre a escrivaninha.
“Comissário, posso acrescentar uma informação?”
“Qualquer coisa que você julgue útil para a investigação, Clarisse.”
“Tem uma coisa... Outro dia, esteve aqui um sujeito procurando pelo Haroldo. O Haroldo tinha me pedido pra dizer que não estava, que andava evitando esse sujeito, que ele era inconveniente e intrometido. Fiquei com dó do marinheiro. O pobrezinho estava com os nervos à flor da pele.”
Sylvio Terra me olhou de canto de olho.
“A senhora disse marinheiro?”
“Sim, estava de farda branca, boina e tudo.”
“Por acaso, você lembra do nome desse marinheiro?”
“Estou certa de que era Antônio.”
“Você se recorda do sobrenome?”
“Não acho que cheguei a ouvir o sobrenome dele.”
“Pode descrever esse Antônio?”
“Era negro, alto, forte. Seu sotaque lembrou o do meu pai, talvez fosse cearense.”
“Muito obrigado, Clarisse. Essas informações serão bastante úteis. Caso você se lembre de mais alguma coisa, por favor, não hesite em nos contatar.”
Quando o comissário Sylvio Terra saiu da casa na Rua São Clemente, caminhando por entre as palmeiras do jardim, não pode esconder de mim sua frustração. O destino, como uma criança zombeteira, ria da prudência investigativa do comissário. O principal suspeito acabava de se tornar o marinheiro que, tão descuidadamente, o delegado Pedro tinha mandado encarcerar no porão da Delegacia Central.