O óbito foi confirmado minutos depois. Tive que fazer jus à minha desculpa e, logo que Sylvio começou a observar atentamente a cena do crime com sua lupa, me sentei em uma cadeira e tirei da minha mochila lápis e papel para desenhar a cena do crime.
Sylvio Terra olhou para mim, prestes a fazer o risco inaugural da ilustração na página em branco, e me perguntou o que é que eu estava fazendo.
“Meu trabalho, comissário. Ilustração forense.”
“E você costuma desenhar com o lápis ao contrário?”
“É um efeito que uso para representar hematomas”, improvisei, esperando que o comissário se distraísse enquanto eu punha o lado certo do lápis no papel.
Enquanto desenhava, os acontecimentos ao redor se tornaram ruídos longínquos e alheios. O choro dos irmãos, o exame do médico legista, o ruído dos curiosos: tudo isso eu vi e ouvi, mas eram eventos distantes como os ruídos da cidade que eu ouvia pela janela do apartamento. Me surpreendi me dedicando totalmente àquela tarefa inventada. Desenhei cada detalhe daquele apartamento como se fosse a mais importante ilustração da minha vida. Percorri com o lápis no papel as linhas cuidadosas das janelas abertas para a manhã carioca, o contorno das camisas jogadas no chão e a costura dos lençóis manchados. E só depois de desenhar todos os objetos tive coragem de olhar para o corpo.
Haroldo de Alencar era um homem atlético e nem a palidez da morte tinha conseguido roubar a energia de seus músculos. Por todo o seu corpo, viam-se machucados recentes, hematomas que brilhavam em tom parecido com o púrpura que manchava as paredes. Ao redor do seu pescoço, tensa em um nó apertado, estava a toalha que, presumi, tinha sido utilizada para sufocá-lo.
Desenhando, eu percebia no quarto detalhes ínfimos, que passariam despercebidos aos meus olhos desatentos. Um deles era uma chave sobre o chão. Estava a alguns metros da soleira da porta sobre sobre as tábuas de madeira.
Também reparei na toalha. Era uma toalha de banho comum, branca, mas o nó era elaborado e denunciava uma topologia que eu não saberia reproduzir com um barbante.
Outro detalhe curioso era que havia, na bagunça da cama, além de cadernos esportivos e revistas ilustradas, um artefato que não soube interpretar. Um círculo de papelão. Ao redor de toda a borda, um alfabeto em tipografia gótica.
Quando estava quase terminando o desenho e esfumava com o lado do mindinho as sombras nos cantos do quarto, Sylvio me assustou, falando sobre meu ombro:
“Será que a Doré da imprensa carioca já terminou sua obra? Estou de saída. Não acho que seria apropriado deixar uma jornalista civil na cena do crime.”
“É claro, comissário.” E, percebendo que a promessa da entrevista estava ameaçada pelos acontecimentos recentes, acrescentei: “Espero que não tenha se esquecido de nossa conversa pendente.”
“Que conversa?”
“Sobre Conrado Niemeyer."
“Conrado quem?”
“Muito engraçado.”
“Vamos com calma. Defuntos são carne mal passada: só tolero uma vez por dia. Mais que isso dá indigestão. Além disso, senhorita, temos uma tarde longa pela frente. Nosso trabalho aqui está apenas começando.”
“Quais são os primeiros passos, comissário?”
Sylvio Terra examinava a cena do crime energicamente. Contava os passos necessários para ir de um lado ao outro do quarto ao mesmo tempo em que tentava desviar das roupas jogadas. Examinava proporções do quarto com um olho de cada vez enquanto emoldurava a cena pelas próprias mãos.
“Toda investigação começa pelo raciocínio. O primeiro passo é olhar para a cena. Registrar mentalmente suas obviedades.”
O comissário leu a pergunta no meu rosto. “Por exemplo, a causa da morte.”
“A toalha sugeriria que foi asfixia por enforcamento, não?”
“Exatamente. Meu trabalho é constatar essas obviedades para duvidar delas. A verdade nunca é evidente ou fácil.”
Sylvio olhou fixamente para o corpo estendido de Haroldo de Alencar. Havia algo naquele corpo que me assustava, um ímpeto varonil que não conseguia precisar. Me percebi pensando que a rigidez do defunto parecia uma tensão viva, uma concentração e um nervosismo de gente que ainda tem sangue correndo nas veias.
O comissário se agachou perto de um punhado de roupas jogadas e, sacando uma lupa em um gesto ligeiro, observou algo dentre as roupas espalhadas pelo chão. Da minha parte, fui até a cama para olhar mais de perto o objeto que tinha me chamado a atenção: o alfabeto circular.
“Investigar é, Amália, basicamente, despir as lentes de sempre, os óculos do hábito, e ver a cena a partir de outro ângulo.” Então se voltou para o ponto em que tinha se demorado antes e retirou do bolso de uma das calças jogadas pelo chão uma pequena caderneta preta. “Investigar é ter coragem de fazer perguntas esdrúxulas, inconvenientes ou insólitas.”
Sylvio abriu a caderneta e leu o conteúdo. Observei sua expressão intrigada enquanto ele passava as páginas rapidamente.
“O mais importante é o método”, retomou o comissário, depois de guardar a caderneta no bolso do terno. “A organização é o detalhe primordial. Um bom investigador tem que ser capaz de erigir seu pensamento em terreno sólido, pedra por pedra. Por isso, sugiro que comecemos com o elemento central: o morto. O que sabemos sobre ele?”
“Só sei o que você me contou sobre ele no caminho. Que é irmão de um dos funcionários do ministério da justiça. Deduziria disso que é uma pessoa cuja família tem bastante dinheiro.”
“Acertou até aí. Mas não apenas dinheiro. A família de Haroldo é, sobretudo, bem relacionada. O irmão de Haroldo de Alencar é funcionário do alto escalão do governo.”
“Aquele que estava tentando arrombar a porta com a machadinha?”
“Esse mesmo. Léo e Haroldo são filhos de Mário de Alencar.”
Sylvio disse Mário de Alencar destacadamente, como se o nome devesse me lembrar de algo. Vasculhei minhas lembranças, mas não encontrei eco algum.
“Ele foi um personagem importante da cena cultural do Rio durante alguns anos. Algumas pessoas por aqui ainda se lembram dele. Foi poeta e, como todos os nossos poetas, um burocrata. Não faz muitos anos que morreu.”
Enquanto ouvia Sylvio, tomei coragem de me voltar novamente para o corpo estendido no quarto. Ainda não conseguia localizar o incômodo que sentia, de onde vinha a sinistra disposição que o defunto irradiava. Sylvio continuou:
“Mário de Alencar, por sua vez, era filho de José de Alencar.”
“O escritor?”
“Não. O traficante de charutos.”
Ignorei a ironia.
“Isso tudo é tácito, conhecimento comum,” continuou o comissário. “Acho, contudo, que podemos saber ainda mais sobre o morto observando os detalhes atentamente. Registro uma obviedade (as obviedades, como vês, não devem ser nunca desprezadas por um bom investigador). Haroldo de Alencar amava e praticava esportes.”
Haroldo tinha, de fato, os músculos de remador. Além disso, Sylvio apontou para a decoração das paredes: além do cartaz do boxeador, havia pôsteres de times de futebol perfilados. Depois continuou:
“Vejo, enfim, uma contradição, que acho interessante o suficiente para mencionar. Haroldo, como comentamos, era descendente de uma família bastante bem relacionada. Morava, segundo depreendi da ligação de Leo à delegacia, no Botafogo, em um casarão com sua tia. Mas, ainda assim, alugava esse quartinho no centro. Por quê?”
Pela maneira engraçada com que Sylvio arqueou as sobrancelhas, supus que a pergunta era retórica e guardei a resposta óbvia em silêncio.
“Uma vez que comentamos sobre o morto, acredito que é hora de nos atentarmos para o acontecimento que nos trouxe aqui. A morte. Começamos com a pergunta básica: assassinato ou suicídio?”
Ao voltar os olhos para o corpo sem vida de Haroldo, senti um calafrio, porque pensei ter localizado a origem da minha angústia.
“Bom, os hematomas recentes sugeririam uma luta, não?”, comecei, hesitante. “Parece que houve um confronto entre Haroldo e alguma outra pessoa. Daria para pensar em assassinato. É claro que não se deve descartar completamente a hipótese do suicídio. Haroldo poderia ter se suicidado depois de ter apanhado.”
“Prudente ressalva. Mas há um detalhe que, acredito eu, te escapou. Observe a toalha no pescoço de Haroldo. Como você pode observar, o nó da toalha, por si só, não pressiona a cerviz. É preciso uma outra pessoa que, ao puxar as pontas, comprima a passagem do ar. Ninguém poderia fazer isso em si mesmo. Se tentasse, desmaiaria ainda vivo. Se os legistas confirmarem que a causa mortis é asfixia, estarei bastante confiante de que Haroldo de Alencar foi assassinado.”
Senti um calafrio percorrer a espinha. Não sabia se era o efeito das palavras de Sylvio ou se era a certeza de que a origem do meu incômodo ficava a cada instante mais definida.
“Por ora, ainda podemos registrar mentalmente detalhes que nossa intuição nos soprou, detalhes que talvez sejam irrelevantes, mas nunca se sabe. Eu, por exemplo, não posso deixar de reparar que é uma coincidência e tanto as paredes terem sido pintadas no mesmo dia do assassinato. Algum detalhe te chamou a atenção?”
“A chave.”
“Que chave?”
Apontei no chão onde estava a chave que tinha visto. Sylvio recebeu minha descoberta com surpresa.
“Excelente!”
Depois, dobrando o tronco para aproximar a cabeça do chão e ver por debaixo da fresta da porta, Sylvio comentou:
“Poderíamos imaginar que foi jogada do lado de fora por debaixo da porta. Possivelmente pelo próprio assassino.”
Mal escutei o que Sylvio disse. Não era imaginação, agora tinha certeza. Olhei fixa e espantadamente na direção do corpo de Haroldo. Sylvio não tinha percebido e foi até a janela, pensativo.
“Infelizmente, não podemos examinar no momento se essa chave é realmente a da porta da frente.”
Sylvio aguardou em silêncio enquanto olhava da janela para os pedestres da Rua da Candelária.
“Porque você destruiu a fechadura ao entrar?”, arrisquei.
“Exatamente.”
Gradualmente, o membro de Haroldo de Alencar tinha se levantado até se erguer em seu prumo total. O pênis, em riste, apontava desde a púbis do defunto para a lâmpada do teto. Assustada, incapaz de raciocinar, me aproximei com medo.
Sylvio, virando-se para mim, observava. Apesar do insólito, o comissário continuou impassível, a não ser por seu princípio de sorriso. Eu, desesperada, falava, apontando para o defunto.
“Comissário, veja! Ele está vivo, acho que está... está vivo!”
Sylvio me explicou, sem sequer disfarçar o riso contido nos lábios, que Haroldo de Alencar não estava vivo. Depois, acocorando-se ao meu lado, se aproximou do membro com sua lupa e adotou um ar professoral de anatomista.
“Tudo não passa de um processo normal. É o rigor mortis das partes pudicas.”
Caro intermediário mediúnico, eu pensei, é claro, omitir esse detalhe infausto da minha narrativa, tanto por respeito ao seu trabalho sério quanto pelos leitores que venham a ler essa história depois de digitada por você. Tive que me guiar, contudo, pela fidelidade à memória. O fato é que, mesmo depois de morta, nunca consegui esquecer aquela visão que mostrou aos meus próprios olhos a experiência verídica e real da ereção post mortem.
Quando o médico legista voltou com a equipe para retirar o corpo, Sylvio Terra estava observando de perto o pênis ereto de Haroldo de Alencar.