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O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar: capítulo 1

Leia o primeiro capítulo do romance de Nícolas Wolaniuk que o Plural publica em folhetim a partir deste domingo

O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar: capítulo 1

Este é um romance em folhetim em 40 capítulos psicografado por Nícolas Wolaniuk . O Plural publica um capítulo novo a cada domingo

PRÓLOGO

Este livro me veio de repente: uma voz do além ditou no meu ouvido cada linha do que escrevi. Digo ditou para simplificar. Na verdade, senti uma vertigem inédita e meus braços, fora de controle, pegaram a caneta e começaram a rabiscar furiosamente. Depois, percebendo que minhas mãos eram mais acostumadas a digitar do que manuscrever, foram ao computador. Seja como for, foi repentino e sobrenatural. Era o episódio inicial da minha mediunidade. Aos poucos, me acostumei com o processo: conheci o espírito que falava comigo, conversei com ele tardes assombrosas e reveladoras. Eu, no mundo material, ela, no pós-vida, nos tornamos amigos.

Entendi que ela escrevia um romance autobiográfico. Meus dedos digitavam, para a minha própria surpresa, uma história acontecida no Rio de Janeiro de 1930. Ela escrevia rápido e, tomando emprestado meus braços, despejava palavras na tela com uma fúria impensada, de modo que as páginas desse livro em coisa de um mês estavam escritas. Enganei-a, contudo. Prometi seu nome na capa. Ela, que não teve tempo de escrever essas páginas em vida, esperava receber, amparada nos meus serviços mediúnicos, louvores literários póstumos. Disse que assim o faria, publicando: “Escrito por tal espírito, por mim psicografado”. Mas, quando li essas páginas, depois de passadas em transe direto para o computador, senti um não-sei-quê de emoção que encheu minha alma aspirante a escritor de egoísmo e inveja.

O fato é que as roubei.Sempre me pesou tanto não ser capaz de escrever um romance que, quando este me caiu no colo, nem me censurei pelo assalto. Como você, leitor, pode ver, não consta nome de espírito nenhum nesta edição. Na capa, apenas está o meu. Levo, sozinho, os louros da autobiografia alheia.

Escrevo, contudo, essa confissão de vileza e mau-caratismo que cometi contra o espírito de minha amiga somente para fazer-lhe uma promessa, talvez redentora. Se, por meio deste livro, eu conseguir lograr um punhado de moedas, ainda que modesto, revelarei seu nome, que, por ora, será substituído sempre que aparece na narrativa. Além disso, prometo incluí-lo na capa já na próxima edição. Dessa maneira,  julgo me livrar pelo menos  de um dos dois desconsolos que me assolam. Se o livro não vender, mantenho nele meu nome e a posteridade achará neste prólogo uma excentricidade literata, certamente fictícia. Me livraria assim do desconsolo de não ser capaz de escrever um romance. Se o livro, por outro lado, vender, me dispo da minha recém-nascida vaidade de romancista,  revelando o nome da autora verdadeira. Vai me ferir o brio, certamente, mas então, quem sabe, poderei pagar o aluguel, cuja cobrança é, por ora, meu segundo desconsolo.

Ao romance!

CAPÍTULO 1

Não podia estar mais feliz por ter encontrado enfim uma mão disposta à tarefa de escrever estas memórias. Em vida, muitas vezes empreendi começos falsos, rabisquei frases iniciais em cadernos relegados ao fundo das gavetas e manuscrevi reminiscências que nunca viram a luz do dia ou um ponto final.  Mas agora, morta há algumas décadas, tive ocasião para repassar minha vida incontáveis vezes e selecionar dela com pertinência o que contar e o que omitir.

Peço que você tome o maior cuidado com os erros. Infelizmente, a transmissão de textos entre os mundos está sujeita a todo tipo de falha e manipulação humana a que estão sujeitos os textos terrenos. Confio que você sabe da responsabilidade mediúnica e que vai escrever minhas palavras com atenção e minúcia. Não coma letras ou palavras, não omita frases, não inclua acentos onde meu espírito não os quiser.  Não tolere sequer uma atualização de ortografia. Essas memórias só devem ser publicadas se forem publicadas como eu as escrevi. As palavras devem ficar da maneira como as conheci quando fui alfabetizada, há mais de um século. Fazer diferente disso seria me trair. Não caia na tentação – é isso que lhe peço mais claramente – de alterar qualquer passo dessas memórias. Sei que essas páginas não recendem ao sabor do tempo corrente. O relato de minha vida é uma velharia  semiliterária e demodê, punhado de frases erráticas ditadas por uma consciência mais que centenária. Se você tem algo melhor afazer nos próximos meses do que bater as linhas desse texto, me avise já. Do contrário, escolho confiar na concretude de suas virtudes.

Como costuma acontecer, a história de minha vida não é um relato minucioso e proporcional dos setenta e poucos anos em que caminhei sobre esse mundo. Pretendo, ao invés disso, te contar um pequeno episódio de grande significação, a partir do qual você conhecerá ainda mais sobre mim do que conheceria  se te contasse a minha vida do primeiro ao último dia. Durante alguns meses, você verá seus dedos digitarem a história de como eu, paulista recém-chegada ao Rio de Janeiro, me inseri em um polêmico jornal da imprensa, acabei envolvida na investigação da enigmática morte de Haroldo de Alencar e de como, apesar dos esforços meus e do comissário Sylvio  Terra, o caso nunca teve um solução oficial. Depois de meditar tanto quanto pude em que ponto começar esse relato, acabei percebendo que o dia mais propício para dar a partida nessa história é aquela segunda-feira de junho em que decidi procurar minha mãe.

Naquele dia, eu entreouvi, no prédio da Rua do Carmo, dois colegas jornalistas conversando sobre espiritismo. Comentavam sobre o frisson na recente alta classe carioca recente causado por um médium. Perto do Morro do  Cantagalo, esse homem conhecido simplesmente pela alcunha de Médium do Arpoador transcrevia cartas de pessoas já mortas com tanta naturalidade que impressionava até mesmo o mais cético adepto da doutrina da finitude da alma.

“Mas não é só isso”, um deles dizia, “parece que naquela casa acontecem maravilhas prodigiosas. Um amigo de fé disse ter visto com os próprios olhos o fenômeno da levitação.”

“Não acredito”, tornava o outro.

“Então venha comigo. Com sorte, veremos uma mesa  alçar voo com a naturalidade de uma andorinha. Além disso, deve haver um parente teu do qual você gostaria de  receber uma carta. . .”

O cético contou que seu irmão mais velho tinha morrido afogado na Lagoa havia três anos. Disse que adoraria poder ler as palavras dele uma última vez.

“Mas, no fundo, sei que não posso. Se tem uma coisa que é definitiva nesse mundo, é a asfixia.”

“Não é possível asfixiar a alma. . .”

“A alma não é nada mais do que um conjunto de átomos. Com a morte, os átomos da alma se dispersam na mesma medida em que o corpo se decompõe. Esses átomos, depois de dispersos, não podem jamais retornar à formação original. Depois da  morte, é impossível que a alma continue a existir.”

“Venha hoje. Que acha de pegarmos o bonde e descermos até Ipanema à noite? Tenho certeza de que ele não hesitaria em  nos receber. Você poderia ir somente pelo interesse científico. Ou literário...”

Não sei se eles foram visitar o médium em Ipanema naquela noite, mas eu, logo que saí do prédio do jornal, quando a noite já escurecia as vielas ao redor da Rua do Carmo, peguei o próximo bonde em direção a Ipanema.

Parei na frente do Morro do Cantagalo. No fim da rua, passavam alguns poucos banhistas. Perguntei a um homem caminhando se ele conhecia o Médium do ArpoadorTive medo de pronunciar a alcunha.

“Nunca ouvi falar.”

Desci a rua até a orla, onde um grupo de meninos ainda caminhava na praia sob a noite amena de junho. Quando ouviram minha pergunta, fitaram sérios de repente. Um deles arriscou:

“Se você quer mesmo ir até lá, é só ir reto até a altura da Lagoa. A casa é grande e rosa, não dá pra não ver.”

Agradeci. Já me virava, quando outro menino do grupo avisou, um tanto hesitante: “Mas eu pensaria bem, se fosse você.  Ninguém volta igual depois que passa por lá.” 

“Você já foi lá?”

Antes que o segundo pudesse responder, o primeiro tomou novamente a palavra: “Bata na porta e espere. Ele às vezes demora.”

Atravessei uma fileira de casas luminosas, construções silentes e brancas que anunciavam alvorada de um tempo novo. Espremida entre mansões modernas, a casa rosa tinha parado no século anterior. Janelas coloniais de madeira pincelavam de cal o rosa das paredes. As guilhotinas cerradas escondiam cortinas opacas e a casa se fechava em um todo hermético.

Coloquei a mão sobre a aldrava, reticente. Por alguns instantes, hesitei com o arco suspenso sobre a madeira. As pernas  fraquejaram quando me lembrei da possibilidade de ver uma mesa levitar. Me faltou o ímpeto de percutir a tábua da porta. Arranquei uma folha do jornal matutino que carregava comigo e escrevi, na margem, um bilhete apressado:

Caro Médium do Arpoador,

Se é verdade que o senhor fala com os mortos e descobre coisas desse mundo se comunicando com o oculto, escrevo estas  parcas linhas para que você saiba que existe uma pessoa da qual adoraria ter notícias. Se um dia ela se manifestar a você, não hesite em me escrever. Não tenho muito para lhe dar, mas, segundo ouvi, o senhor não cobra dinheiro por seus talentos incomuns. Descobrir meu endereço não deve ser impossível para suas habilidades.

Grata, 

A.

Enfiei a folha avulsa dentro da caixinha de correio e caminhei de volta até o centro. Pelas ruas do Rio de Janeiro, se respirava, ao mesmo tempo, o eco tardio da Belle Époque e o ar infectado do tifo. Me perguntei se o Rio que minha mãe conhecera era parecido com esse que se revelava para mim. Já pensava nela como se estivesse viva em algum lugar e pudesse falar comigo: meu coração estava desde já envenenado pela esperança e soube que passaria os dias seguintes na espera ansiosa de receber o retorno de um bilhete que deixei na caixa de correio de um desconhecido.

Quando voltei para o meu apartamento naquela segunda, encontrei Eugênia olhando para a rua sentada no batente da porta. Ela segurava alguma coisa escondida atrás das costas.

“Posso te mostrar uma foto?” perguntou. Me estendeu um retrato novo, em papel recente. Era um jovem, de terno.

“De onde é isso, Eugênia?” 

“É o doutor.”

“Ele te deu esse retrato?”

Ela deu de ombros e depois se encolheu, de vergonha.

“Você pegou do escritório dele? Por que você fez isso?” 

“Você não acha ele bonitinho?”

“Você gosta dele?”

“Será que um dia eu vou casar com ele?” 

“Você é muito nova”, respondi.

Ela concordou, ligeiramente aborrecida. “E você? Você não vai casar nunca?”

“Você acha que eu devia casar?”

“Meu pai tem dó, porque você é sozinha e não consegue pagar o aluguel.” Ela ficou quieta por um instante. Depois, teve uma ideia de súbito:

“Eu deixo você casar com o meu médico, se você quiser.” Fiz um cafuné no cabelo de Eugênia.

“Não conta pro seu pai que você me falou isso pra mim, tá bom?” 

“Isso o quê?”

“Do aluguel.”

“Que ele tem dó porque você não paga?” 

“Isso.”

“Não quero que você vá embora.”

Estava já subindo o primeiro lance de escadas, Eugênia me perguntou se eu tinha esquecido o jornal. Ela ainda não sabia ler, mas se divertia com as caricaturas da Crítica. Como era costume, saquei as folhas do caderno de crimes antes de entregar o seu deleite diário.

Eugênia era, afinal, muito nova para ver as minhas ilustrações.

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