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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 6

Leia o capítulo semanal do folhetim que o Plural publica a cada domingo sobre a história do neto de José de Alencar

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 6

Os legistas fizeram o trabalho e o óbito foi confirmado oficialmente no meio da tarde. Sentindo que minha presença era cada vez mais injustificada, retomei a meia-voz com o comissário assunto que me trouxera até ali.

“Será que podemos retomar nossa entrevista sobre o Niemeyer mais tarde?”

“Defuntos são...”

“Só uma vez por dia, já entendi. Amanhã, quem sabe?”

O comissário ignorou minha pergunta. As perspectivas do meu primeiro trabalho como jornalista eram péssimas. Por um pedido do próprio Sylvio Terra, deixei que ele descesse antes. Só quando os repórteres lá embaixo já se avolumavam ao redor dele com suas perguntas frenéticas que fui até o elevador.

Por um momento, a coletiva improvisada foi interrompida quando vários dos jornalistas olharam para cima. No janela do segundo andar, apareceu uma mulher, jovem e loira, que os embasbacados ao meu redor confudiram com uma deusa. Ela, indiferente aos seus admiradores, deu uma olhada panorâmica no movimento e fechou as cortinas. Era o apartamento imediatamente abaixo daquele onde eu estivera há pouco. Desviando dos curiosos, deixei a Rua da Candelária.

Em casa, depois, desabei no sofá, sem tirar da cabeça a imagem do jovem cadáver no centro do quarto riscado de roxo. Em um sonho inquieto, via a cena da manhã repetir-se indefinidamente. Ereções post-mortem, cadernetas pretas e alfabetos circulares me nocautearam em espirais até as últimas horas da noite.

Segundo me lembro, naquele dia apenas acordei quando batidas urgentes sacudiram minha porta da frente.“Bom dia, senhorita”.

Ainda embargada pelo sono pesado, abri a porta.

“Desculpe a intromissão. Eu sou o Malta, investigador da quarta delegacia auxiliar. Esse que está comigo é o Abílio, investigador também.”

“Fique calma”, foi completando o outro “que não viemos prendê-la e tampouco pretendemos usar de maneiras indevidas nossas prerrogativas de investigadores.”

“Viemos”, Malta tomava a palavra novamente, “a pedido do comissário de polícia Sylvio Terra. O comissário nos contou que você realizou um trabalho para a polícia do Rio de Janeiro. Trata-se da ilustração da cena de um crime. O comissário disse, contudo, que, no calor do inquérito, acabou não entregando o desenho para as partes contratantes.”

“Precisamente por essa razão estamos aqui”, continuava Abílio. “A polícia solicita o cumprimento do seu contrato de ilustração forense.”

“A polícia quer o desenho que fiz do quarto da Candelária?” perguntei.

Malta: “Com urgência, senhorita.”

Abílio: “O pedido veio, como eu disse, do Comissário Sylvio Terra.”

Será que Sylvio achava sinceramente que o desenho podia ajudá-lo no seu inquérito? Um tanto surpresa e contrariada (a polícia não tinha me dado, afinal, nem um conto de réis por esse desenho), fui até o quarto e abri a maleta.

Me espantei. A ilustração era decididamente diferente daquilo que eu me habituara a fazer. Para a Crítica, meus desenhos eram sempre dramáticos, situações sadicamente concebidas para suscitar o desespero e a insegurança. Mas, para aquele desenho do quarto de Haroldo de Alencar, eu me designara um compromisso inédito com a realidade. Eu tinha decidido tentar representar aquele quarto tão fielmente quanto possível em cada detalhe: na costura das peças de roupa jogadas pelo chão, na posição dos móveis e na proporção de abertura das janelas. Apesar disso, em uma contradição que eu custaria a explicar para Mário Filho, o desenho não resultava menos impactante. Muito pelo contrário: a sobriedade resignada da cena dava ao corpo de Haroldo uma dramaticidade inevitável.

Os policiais, impacientes, me chamaram pelo nome três vezes, cada vez mais alto.

“Não temos o dia todo!”

Era minha chance, pensei, olhando para a maleta aberta. Se tinha alguma possibilidade de conseguir entrevistar Sylvio a respeito do caso Conrado Niemeyer, era essa a minha carta na manga. Fechei a maleta e voltei para a porta com as mãos vazias.

“Não consigo achar o desenho. Devo ter deixado cair em algum lugar.” Malta e Abílio franziram o cenho da mesma maneira, como autômatos.

“Me desculpem” continuei, apesar do olhar de suspeita, “eu sou um tanto desorganizada. Volta e meia perco meus trabalhos por aí. Mas sei que vou encontrar rapidinho. Só me deixem procurar mais uma vez...”

“Temos mais trabalho a fazer, senhorita...”

“Será que eu não poderia levar na delegacia o desenho mais tarde? Deve estar por aqui, em algum lugar entre os meus papéis.”

Os dois policiais se entreolharam. Um deles defendeu que eles esperariam o tempo que fosse necessário, o outro objetou que não haveria problema que eu mesma entregasse lá na delegacia. Respondi que procuraria mais um pouco. Voltei ao quarto e revirei papéis velhos e jornais antigos, aumentando a bagunça aparente do quarto sem sequer me aproximar da ilustração real, dentro da maleta fechada.

Cansado de esperar enquanto eu procurava pretensamente desesperada a ilustração, Malta concordou com o parceiro.

“Senhorita, acho melhor que você mesma se dirija à delegacia para entregar o desenho.”

“Mas com urgência", completou Abílio. “As palavras de Sylvio Terra foram bastante claras. Ele precisa do desenho assim que possível.”

Esperei que os policiais saíssem para dar uma olhada ao redor.

Eugênia, tímida, espiava escondida atrás do corrimão das escadas.

“Você vai ser presa, Amália?”

“Claro que não! Por que você pensou isso?”

“É que os policiais estavam procurando por você. E encontraram.”

“Não, Eugênia. Na verdade, eu tô fazendo um trabalho para a polícia. Eles vieram até aqui buscar um desenho que eu fiz. Esse desenho vai ajudar a polícia a encontrar um criminoso.”

“Você desenhou um criminoso?”

“Sim. Um sujeito muito malvado que anda roubando os piões das crianças na rua. Eu consegui ver a cara dele quando ele saía correndo bem aqui na frente com um belo pião de madeira roubado do garoto que mora aqui do lado. Agora a polícia quer o desenho para ajudar na investigação.”

A menina fez que entendeu.

“Agora que você tem dois empregos, meu pai não vai precisar te colocar pra fora.”

“Você escutou ele dizer que tá pensando em me colocar pra fora?”

Eugênia ficou quieta e olhou para o lado, disfarçando. “Eugênia, vem cá. Você me promete uma coisa?”

“O quê?”

“Se o seu pai ficar muito incomodado com o aluguel, você me avisa, tá?”

“Tá bom.”

“Se ele começar a falar de me colocar pra fora, você me conta?”

“Uhum.”

“Isso é segredo nosso”, comentei, enquanto amarrava meus lábios com um barbante invisível. Eugênia imitou meu gesto, costurando um sorriso travesso.

Me despedi dela e entrei novamente em casa. Enquanto me preparava para ir até a delegacia por conta, tinha duas imagens na cabeça: a primeira era Haroldo de Alencar com a toalha no pescoço, a segunda era Conrado Niemeyer, espatifado na rua depois de ser atirado pela janela. Um dos casos era um crime recente cujo cadáver ainda quente eu vira com os meus próprios olhos. O outro era um caso antigo, sobre o qual eu tinha lido páginas empoeiradas de jornais velhos. Estava ansiosíssima para voltar à delegacia, mas já não sabia se era pelo crime certo.

Antes da Delegacia, fui até a Rua do Carmo para dar a notícia para Mário Filho. Mário escutou o relato do meu primeiro dia de repórter com displicência, quase desdenhoso. Seus olhos só viraram para mim quando eu disse o nome Haroldo de Alencar. O editor quase não acreditou quando disse que estive no apartamento da Candelária.

“Como foi que você...”

“Acho que só tive a sorte de abordar o comissário no lugar certo.”

Mário Filho pulava de animação.

“Você entrou na toca do lobo sem querer, achou um tesouro cavando uma cova. O caso é quente, Amália. Hoje cedo uma boataria toda fervilhou por telegrama. Vai estar em todos os jornais amanhã, com manchetes grandes, nas capas, com fotos! O Haroldo é neto do José de Alencar, não é? Isso vai vender muito jornal. Preciso que você escreva para a edição de amanhã um relato inicial.”

“E o caso Niemeyer?”

“Prioridades!”

Contei para o editor que tinha que ir até a delegacia. Falei da visita e dos policiais que foram até a minha casa e expliquei qual era o meu plano para retomar a atenção de Sylvio.

“Amália, começo a achar que você perdeu o juízo.”

“Achei que estar perto do inquérito seria bom para as reportagens.”

“Uma coisa é entrar lá pela primeira vez, incógnita. Outra é voltar lá quando já sabem quem você é e o que está fazendo. Você está entrando em um covil. E os cães estão com fome. Entenda: esse jornal nunca falou sequer uma palavra boa sobre a polícia. Para a Crítica todo policial é um sádico assassino carniceiro. Não poupamos nem as mães deles, por mais santas que sejam. A polícia deixou impune a assassina do meu irmão, Amália.”

“Eu mal conheci Roberto. Essa mágoa não é minha. Eles sabem disso.”

“Criticamos até não dar mais a prisão dos grevistas ano passado. Atribuímos a polícia o assassinato do Niemeyer. Não tem como um repórter da Crítica entrar lá pela segunda vez e sair inteiro.”

Depois de uma pausa grave, o editor continuou:

“Você sabe o que aconteceu com a gente um tempo atrás?”

“Foram presos.”

“Não só isso. Arranjaram uma acusação qualquer, falsa, sobre meu pai, meus irmãos e eu termos disparado contra um repórter de um jornal concorrente. Prenderam a gente por uns bons dias. É uma idiotice voltar lá, Amália.”

Mário Filho, apontando o indicador para mim, continuou sua campanha de amedrontador.

“Eles já mataram a sangue frio, na porrada, gente muito mais importante que você. Eles já torturaram sem dó gente muito mais importante que você. Esse novo Delegado, da 4ᵃ Delegacia, ele nem hesita. Tem todo tipo de capangas a seu serviço: gente que nem é da polícia vai lá pro porão da Central satisfazer os impulsos do manda-chuva. Me prometa, Amália, que você vai esquecer essa ideia boba de voltar lá.”

Mário Filho tinha uma visão enviesada da polícia, maculada pelo rancor da morte do irmão.

“Eu sou de fora, recém-chegada. Não há ninguém melhor do que eu para amenizar as tensões. Os outros jornais negociam abertamente com a polícia. Por que a gente não pode tentar? Além do mais” finalizei, “eu tenho uma vantagem frente a todos vocês.”

“Seu corpo é a prova de balas?”

“Eu sou mulher. Não teriam coragem de fazer alguma coisa comigo.”

Mário Filho não respondeu.

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