No caminho da delegacia, enquanto tentava com custo equilibrar minha maleta de ilustrações sobre a caixa de filmes que havia surrupiado do armazém da Crítica, pensei que deveria ter sido mais diligente na minha pesquisa sobre o comissário Sylvio Terra.
Algumas horas antes, tinha acordado, desorientada, com a cabeça em meio a pilha de jornais, na escuridão da sala de linotipia. A cabeça doía de sono e cansaço. Na minha mesa, além dos recortes que Mário tinha me dado em mãos sobre o caso, eu tinha me munido de vários jornais do arquivo da Crítica e começado a anotar todas as menções ao comissário Sylvio Terra.
O básico eu sabia antes mesmo da pesquisa. Sylvio tinha sido um repórter de destaque na primeira metade da década, com passagens pelos jornais populares mais importantes da época. Abandonou sua promissora carreira jornalística no auge de sua trajetória para assumir o cargo de comissário na delegacia. Varrendo os jornais antigos com os olhos em busca de seu nome, encontrava principalmente elogios. O jovem comissário despontava como um baluarte da honestidade em meio à corrupção da corporação.
Demorei para encontrar alguma coisa mais suculenta na prosa empoeirada daqueles jornais. Era justamente em meio ao caso Conrado Niemayer que surgia uma sugestiva rede de polêmicas envolvendo o nome do comissário Sylvio Terra. O caso era confuso: Conrado Niemayer era um comerciante que parecia ter sido executado pela polícia. Alguns jornais acusavam Sylvio Terra, encarregado do inquérito do caso, de encobrir o crime de seus pares em uma nuvem proposital de boatos e mistérios. Aquela leniência certamente não combinava com o personagem intrépido que os jornais pintavam de Sylvio: por que alguém supostamente tão corajoso em sua honestidade faria vistas grossas aos crimes de seus colegas? No entanto, quanto mais tentava entender o ocorrido, aparando as arestas das reportagens e tentando equacionar as versões em uma só verdade original, mais a vista me pesava e foi assim que, sem que eu desse por isso, adormeci babando sobre um exemplar antigo d’O Globo.
“Encomenda para Sylvio Terra”, disse, na porta da delegacia. O policial na porta me olhou, arqueando as sobrancelhas.
“Alguns pertences da falecida mãe que não encontraram seu caminho até o filho” menti. “Onde posso encontrá-lo?”
As sobrancelhas do policial fecharam ainda mais seu arco em uma expressão de incredulidade total.
“Pergunte lá novamente se tiver dúvidas.”
No segundo andar, topei com um policial apoiado em um balcão, os olhos adormecendo contra sua vontade. Pela placidez dos agentes da lei, daria para acreditar que o Rio era um bálsamo de paz eterna. Repeti a mesma mentira, mais confiante:
“Encomenda para o Comissário Sylvio Terra. Pode me indicar onde é sua sala?” O policial acordou com um susto e apenas apontou para o corredor.
De lá, vinha com passos ligeiros um homenzinho de terno surrado. Lendo as reportagens sobre o comissário, imaginei que era alto e imponente, mas, de corpo presente, Sylvio parecia um adolescente. O único detalhe dele que me remeteu à imagem que conheci lendo os jornais era o chapéu. Sylvio vestia um modelo daqueles que os pianistas de jazz vestiam nas revistas ilustradas e que chegavam no Rio depois de cruzarem o Atlântico. Calculei que não era bom mencionar o nome de Mário Rodrigues, minha carta na manga, ali, com o outro policial ouvindo. Pela terceira vez, insisti:
“Comissário Sylvio Terra, tenho uma entrega para o senhor...”
O comissário continuou a caminhar em passos apressados que eu, ao seu lado, penava para acompanhar.
“Do que se trata?”
Olhei de relance para o policial encostado na parede e percebi seu pescoço girando cento e oitenta graus sob o eixo do tronco para acompanhar nossa passagem. Apostando que seus ouvidos estavam tão atentos quantos os olhos, não tive opção senão continuar mentindo.
“Assunto particular”, improvisei.
Sylvio me concedeu o benefício da dúvida.
“O que acha de me acompanhar e entregar no caminho?”
Ele disse que estava indo para o centro da cidade. Recebera uma ligação de um funcionário alto do ministério da justiça. Aparentemente, o irmão desse funcionário estava desacordado, talvez morto, em um apartamento da Rua da Candelária.
“Como você vai até lá? Charrete policial?”
Sylvio sorriu e apontou para o bonde da Light descendo a Mem de Sá.
Pedi que ele me contasse mais sobre o inquérito que estava prestes a iniciar. Sylvio inicialmente se surpreendeu com a pergunta, mas deu detalhes superficiais enquanto subíamos no elétrico.
Léo de Alencar, funcionário do gabinete do ministro da justiça, tinha ligado para a polícia dizendo que seu irmão, Haroldo de Alencar, estava inconsciente, talvez morto, em um apartamento da Rua da Candelária. Segundo o comissário, Haroldo não era visto desde a noite anterior, quando não retornou à casa de sua tia Clarisse, onde vivia.
Sylvio Terra rapidamente se enredou na própria história. Em pouco tempo, parecia que narrava para si próprio, não porque eu tinha pedido, mas porque queria organizar em sua cabeça as informações que tinha. Léo, avisado do desaparecimento de Haroldo por um amigo do irmão, resolveu procurá-lo em um apartamento que ele alugava na Rua da Candelária. Lá chegando, acompanhado dos outros dois irmãos de Haroldo e desse amigo, encontrou a porta trancada. Com uma machadinha emprestada de um comerciante local, conseguiu tirar uma lasca da porta, de modo que pode ver o interior do apartamento sem, contudo, entrar. Foi assim que Leo de Alencar descobriu, olhando o interior pelo buraco da porta, entre uma bagunça babélica de móveis jogados no chão e roupas espalhadas pelo quarto, o corpo do irmão sobre as tábuas do apartamento.
“Mas é claro que nada disso diz respeito a você. Agora me diga: o que você quer?”
“Eu sou uma jornalista.”
Sylvio Terra, como se não tivesse escutado minha resposta, emendou:
“Pode começar dizendo por que inventou a mentira da entrega”, apontando para o pacote que eu tinha nas mãos.
“Como você soube que. . .”
“Como eu soube que era mentira? Porque eu consigo ver os rolos de filmes pela fresta da caixa. Minha mãe nunca foi uma grande interessada por cinema”, respondeu Sylvio, indicando a fresta na caixa por onde se via o conteúdo de dentro. “Agora diga: o que você quer?”
“Sou jornalista da Crítica.”
O comissário arqueou as sobrancelhas.
“Quero fazer uma reportagem sobre a atuação da polícia em um caso.”
“As relações da polícia com a Crítica não são exatamente as melhores”, disse o comissário.
“Mário Rodrigues Filho me enviou. Me disse que você deve um favor à família dele.”
Observei atentamente sua falta de reação antes de acrescentar:
“Um favor em recompensa ao que Mário Rodrigues fez por você na época em que vocês trabalhavam no Correio da Manhã.”
Passávamos ao lado do Colégio D. Pedro II e Sylvio Terra, evitando meu pedido, avisou que devíamos descer. Na rua, ele perguntou se eu já tinha estado em uma cena de crime.
“Só nas de grafite.”
Ele deu uma risada que só entendi depois de chegar.
“Venha comigo. Se você sobreviver ao primeiro defunto, penso em te contar mais sobre o caso Conrado Niemeyer.”
O apartamento da Rua da Candelária era um prédio de três andares. No primeiro, havia uma mercearia onde muitos curiosos se juntavam cochichando sorrateiramente. Sylvio abriu espaço entre eles até chegar a um homenzinho atravancando a porta. O sujeito conversava com outros por ali, acentuando os gestos expansivos acentuados com sua risada volumosa. Seu rosto estava vermelho e, assim que Sylvio se aproximou para falar com ele, senti o sopro de conhaque que lhe escapava dos lábios.
“Muito bom dia, comissário”, disse esse sujeito. “Sim, é aqui sim, nesse mesmíssimo prédio. O irmão? Sério mesmo? O irmão do Haroldinho é aquele ministro que subiu aí? Loiro, terno de linho e broche da república na lapela? Que coisa, um cretino como o Haroldo ter um irmão engomado que nem aquele! Eles estão lá em cima, o irmão e os outros. Pode pegar o elevador, senhor comissário, é mais rápido. Range pra burro, mas não caiu... até hoje.”
Junto com seu séquito, gargalhou sonoramente. Fui entrando logo atrás de Sylvio, que não fez muito caso do espirituoso senso de humor do porteiro de ocasião. Tão logo Sylvio cruzou a soleira da porta, ele ergueu o braço, barrou minha passagem, arqueou a sobrancelha e me perguntou quem eu era.
“Estou com a polícia civil do Rio de Janeiro. Desenhista forense da 4ᵃ Delegacia Auxiliar, Amália de Oliveira, muito prazer.”
Ergui minha débil prova: a maleta que carregava com meus lápis e papéis. O homenzinho virou-se para Sylvio Terra, que avançava pelo corredor. Senti que minha primeira investida jornalística terminaria ali, na soleira daquela porta. O comissário não tinha, afinal, nenhuma razão para mentir por mim. Apesar disso, ele se virou e gritou, lá do meio do corredor:
“O que está esperando?”
O homenzinho abriu a passagem e entrei no apartamento.
Subimos lentamente imersos em um silêncio medroso que só o atrito das cordas tinha coragem de profanar. Saímos quando o elevador parou no terceiro andar.
Ao fundo do corredor, vimos dois irmãos de Haroldo esperando, mudos de angústia à soleira da porta. A madeira ao redor da fechadura estava destruída, mas a tábua da porta, resistindo, continuava em pé.
O comissário, afastando um dos irmãos, destruiu a fechadura com um tiro. A madeira já lanhada pela machadinha girou para dentro com um rangido.
Sentimos irradiar o ar quente e viciado de dentro do quarto.
Livros, caixas e roupas amontoavam-se pelo chão em desordem. Adivinhavam-se, através da algazarra, cartazes pregados à parede em que homens posavam em posturas heróicas. Reconheci galãs de Hollywood — Ramón Navarro com seu traje real — e esportistas variados — Hilário Martinez com seus punhos em riste. Muitos dos cartazes estavam rasgados e alguns estavam manchados de púrpura. Na parede à esquerda, brilhavam tons arroxeados de tinta ainda molhada. Segui os contornos da cor pelo quarto. Uma cicatriz roxa se arrastava por toda parede branca, revelando, quase na altura do chão, a impressão de uma mão arrastando seus dedos nítidos e desesperados.
Debaixo e no centro de tudo, jazia, nu e pálido, o corpo de Haroldo de Alencar.