A remessa de meu pai tinha chegado por debaixo da porta e jazia no chão da entrada do quarto, me dando boas vindas. Guardei a carta para ler depois e me apressei a contar o dinheiro. O montante nunca tinha sido menor. O aluguel atrasaria mais um mês.
Da outra carta, a carta que eu realmente esperava, nada.
Comprei o exemplar assim que saí de casa no dia seguinte. Dei uma olhada na capa (meu desenho não estava lá) e fui direto para a página final de crimes. A ilustração estava com a assinatura trocada. No lugar do meu nome, se lia o pseudônimo de Umberto: Wantik.

Cheguei na redação tão discretamente quanto pude. Nas tardes de terça, algumas dezenas de pessoas se entulhavam na porta da redação para disputar a chance de vender sua história por cem mil réis. O prediozinho do jornal se tornava uma ebulição de gente e barulho. Uma vez perguntei a Mário Filho como continuava permitindo que tanta gente entrasse de maneira tão fácil na redação depois do que havia acontecido com seu irmão. Ele me respondeu que, se o pai dele nunca tinha fechado o jornal, não seria ele a fazê-lo: “As pessoas têm que acreditar que, de alguma maneira, esse jornal pertence a elas.”
Para minha sorte, trabalhava afastada da algazarra, em uma sala cuja única companhia eram as chapas de metal e o linotipo, um elefante de chumbo. Depois de vencer a multidão com a cabeça baixa e os passos rápidos, sentei na minha cadeira, me sentindo vulnerável como a criança que sabe que a travessura foi descoberta.
Sentada, refletindo, aquela espera começou a me parecer um tanto covarde.
Não era para eu assinar, mas assinei.
Alguém notou e apagou minha assinatura. Mas e daí? Seria melhor tomar a dianteira da conversa do que esperar sentada. A resolução era heroica e o punho jazia cerrado sobre a mesa. Já me levantava quando duas batidas tímidas na porta anunciaram a chegada do irmão mais novo de Mário Filho, assistente não oficial da redação e ocasional redator da seção criminal.
“Mário te chamou na sala dele.”
A sala de Mário Filho ficava na primeira porta à direita depois de um corredor abarrotado de arquivos metálicos cinzentos e móveis bagunçados. Tropecei sobre uma escrivaninha deitada que atravancava quase toda a extensão do pequeno corredor. O cheiro dos charutos se intensificava à medida em que a porta se aproximava. Segurei a maçaneta durante um longo suspiro antes de entrar.
A porta emperrou. Ainda que eu a forçasse para dentro, não se movia sob seu eixo. Uma estante de madeira quase encostando no teto obstruía a passagem. Esgueirei a cabeça pela fresta diminuta que consegui abrir. Enciclopédias e jornais antigos enchiam estantes compridas que atravessavam a sala. Em cima das estantes, caixas empilhadas de rolos de filme. A sala de Mário Filho tinha se tornado um armazém de entulhos e uma biblioteca provisória. Nenhum sinal de Mário.
Olhei para a porta no final do corredor. Era onde ficava a sala de Mário Rodrigues, pai de Mário Filho. Desde que o fundador da Crítica morreu, ninguém nunca tinha ousou ocupar a sua sala.
Quando enfim tomei coragem para girar a maçaneta e adentrar a sala, me deparei com uma cena peculiar. O editor-chefe de Crítica me esperava sentado no chão da sala de seu pai, que estava rigorosamente vazia.
“Sente-se.”
Sem saber onde, sentei de pernas cruzadas no chão, à sua frente. Além do próprio Mário, havia, na sala, alguns papéis estendidos à sua frente e um cinzeiro. Dentre os papéis, reconheci meu desenho.
“As cadeiras e os arquivos são um convite à sonolência e à letargia. Os móveis são a representação física mais exata do perigo da inércia. Me diga, Amália, o que são os cupins se não o sintoma entômico da pedantice apática das escrivaninhas?"
Tive medo de que a pergunta não fosse retórica. Depois da longa tragada no charuto, contudo, Mário retornou espontaneamente à arenga:
“Ter que caminhar até o fundo do corredor para alcançar minha Underwood ou a matéria de algum de vocês na gaveta da escrivaninha faz meu sangue circular e me deixa desperto e atento.”
O editor, como que para exibir sua prontidão, despiu o paletó e saiu da sala para, presumivelmente, prendê-lo no mancebo que, na nova configuração, ficava próximo à escada no fim do corredor.
Enquanto esperava sua volta, sozinha na sala cinza, espiei os papéis dispostos diante de mim. Ao lado do meu desenho, disposto na ponta do leque, havia uma série de reportagens datilografadas que, ao que parecia, Mário Filho lia em sentido horário. Duas estavam rabiscadas do começo ao fim, uma apenas parcialmente, e as da ponta oposta estavam ainda intactas, esperando os desmandos de sua caneta. Antes que pudesse me perguntar por que, tinha nas mãos uma das matérias que já tinha sido revisada.
Assim como seu pai, Mário Filho comprazia-se mais em acrescentar do que censurar. Pelas suas canetadas, intuía uma imaginação de ficcionista, ávida de dramaticidade nominal. Os sofrimentos se tornavam, depois da revisão de Mário Filho, infindáveis. As navalhadas do marido não deixavam apenas marcas, deixavam marcas inapagáveis. Onde o jornalista tinha escrito Aos quinze anos, Percilliana era já uma mulher, uma flor que desabrochara, Mário Filho sobrescreveu Aos quinze anos, Percilliana era já uma mulher, não uma flor que desabrochara, mas uma mulher no apogeo de sua belleza. A princípio, o jornalista escrevera A sua cabelleira e sua dialética encantaram a moça, leitora de romances, mas, depois dos floreios da pena de Mário, lia-se A sua cabelleira crespa, onde cabellos em desalinho caiam-lhe pela testa, aquella dialética muito decorada e trabalhada, encantaram a moça que afinal era como todas as outras, leitora assidua de romances antigos. Ouvi seus passos retornando no corredor e quase não consegui recolocar o texto na posição de antes a tempo.
“Calor, não?” Suava frio.
“Sabe porque eu te chamei?”
“Trata-se da assinatura da ilustração de ontem?” Mário fez que sim, continuando em silêncio.
“Sei que o combinado era que eu não assinasse os desenhos” disse, reparando que a calça de seu terno estava esfolada nos joelhos. “Não assinar, contudo, é um desconsiderar a minha obra. E não é uma questão de orgulho ou egoísmo. É simplesmente um registro de posse, um gesto tão moderno quanto a sua alma ou o comércio de carvão. Além do mais, é inegável que meus pastiches nada devem ao original.”
Por um breve momento, duvidei do mérito da minha argumentação. Antes que eu refletisse demais, continuei, aproveitando o embalo:
“O que quero dizer é: não faz sentido manter a assinatura dele. A partir de hoje, Mário, assinar meus trabalhos é a condição de meu trabalho.”
Mário olhou para algum ponto fixo atrás de mim, ponderando. Esperei o pior dos cenários. Para ele, esse suspense devia ser ainda mais divertido do que o de sempre. Pensei em me entregar. Diria: foi uma brincadeira inconsequente, me desculpe o excesso, amanhã assino Wantik novamente...
Mário, no entanto, assentiu com a cabeça. “Condição aceita. Mais alguma coisa?”
“Sim.” Antes que pudesse refletir demais, continuei: “quando pisei aqui pela primeira vez, seu pai me disse que eu era uma escritora extremamente talentosa e me prometeu uma chance de um dia escrever para a Crítica. Quero reivindicar essa promessa. Sei consultar um dicionário e não tenho medo de apertar as vírgulas na máquina. Não é muito, mas já me faz melhor que a maioria dos seus jornalistas.”
Mário me estudou antes de responder.
“A curiosidade é uma praga, sabia? Matou mais que a gripe espanhola e a Guerra do Paraguai.”
“Mas vende mais jornais do que qualquer virtude. Dar essa chance seria um gesto de respeito à memória do seu pai. Ele percebeu meu talento desde o primeiro parágrafo.”
Pude ver em seu rosto que o golpe baixo surtiu efeito. O editor saiu de novo da sala, me pedindo para esperar ali. Não tive a ousadia de retomar a leitura de seus apontamentos. Apenas esperei. Mário deve ter se esforçado para esconder a surpresa, porque, assim que voltou, respondeu como se já tivesse pisado e repisado a sugestão.
“Queremos uma retrospectiva das ações catastróficas da nossa polícia. Comece pelo caso Conrado Niemeyer. Vá até a Quarta Delegacia, procure por Sylvio Terra. Diga que te mandei lá, ele devia um favor ao meu pai. O resto é por sua conta. Isso aí é pra te adiantar na sua pesquisa”, disse, sinalizando uma pilha de jornais antigos que trouxera de sua última ida ao corredor. “Comecei a pesquisa imaginando que eu mesmo ia escrever a matéria”, completou Mário Filho. “Você dá conta?”
“Não tenho a menor dúvida.”
“Não precisa fingir ser tão confiante. Só os muito tolos são completamente seguros de si.”
Depois, abaixando a voz em um tom mais sério, o editor perguntou:
“Preciso te dizer que você não pode se anunciar como jornalista da Crítica na Delegacia?”
Não precisava. Conhecia a longa senda recente de atritos entre a polícia e o jornal. Parte disso tinha a ver com o assassinato de Roberto Rodrigues, acontecido não muito antes de eu chegar ao Rio. Na ocasião, a Crítica tinha publicado uma matéria escandalosa sobre um suposto caso extraconjugal de uma jornalista casada. Sylvia Thibau, a jornalista, furiosa com a publicação, que alegava ser caluniosa, foi até a redação da Crítica armada para matar Mário Rodrigues, o editor-chefe na época. Não encontrou Mário, mas atirou em Roberto, seu filho. Esse assassinato daria início a uma polêmica da qual o Rio de Janeiro jamais se esqueceria. A Crítica, já famosa por sua veia cáustica, redobrou a acidez de seus adjetivos em uma campanha inédita de difamação pública.
Todas as edições desde então tinham estampada uma imagem de Sylvia Thibau com os dizeres violentos: meretriz assassina. O caso foi para a arena pública, em uma guerra de papel cujas armas eram as manchetes e as caricaturas. Todo o resto da imprensa carioca alegava que o gesto de Sylvia era motivado por um momento justificado de descontrole legítimo. A Crítica, em resposta, passou a incluir em sua campanha destrutiva todos aqueles que, na visão de Mário Rodrigues, eram os responsáveis pela impunidade da assassina de seu filho. Isso incluía, claro, os policiais. No ápice das tensões, alguns jornalistas da Crítica foram presos em retaliação aos artigos ferinos publicados contra a corporação.
“Não fale mal de Sylvio, não fale bem de mais ninguém. A corporação é um antro de asnos incompetentes que não sabem somar dois e dois, Sylvio é um virtuoso que tenta a todo custo sobreviver à influência pérfida de seus pares. Qualquer conclusão diferente dessa não me interessa. Não tenha dó. Aqui somos todos sádicos e perversos, ou seja, somos jornalistas. Se você acha que não consegue destripar um homem vivo, por falta de estômago ou de vocabulário, não perca mais nem um segundo de meu tempo. Alguma dúvida?”
“Só uma: como entro na delegacia?”
“Pela porta”, respondeu simplesmente o editor, desfiando um sorriso.
Engoli seco, assenti em silêncio e tomei o maço de jornais na mão.
