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Leia o segundo capítulo de "O Mysterioso Assassinato de Haroldo de Alencar"

Acompanhe o romance em folhetim de Nicolas Wolaniuk publicado semanalmente pelo Plural

Leia o segundo capítulo de "O Mysterioso Assassinato de Haroldo de Alencar"

Capítulo 2

O homem de costume preparava a navalha para o segundo ataque, segurando, com a outra mão, a cabeça da esposa pelos cabelos. O primeiro golpe atingira a bochecha, pouco abaixo do olho esquerdo. Ela gritava de dor e susto e seu marido, com determinação sádica, comprazia-se de ver o sangue manchar o colar de pérolas e o vestido de bolinhas.

Mário Filho subiu com a casaca pingando de chuva e, quando suas mãos molhadas tomaram o desenho das minhas, borraram o grafite. O editor observou o desenho demoradamente, com o deleite de seu costumeiro prazer semanal: a minha espera ansiosa de seu veredicto.

Havia mais de três meses, desde que seu pai me aceitara na redação, não havia momento mais angustiante do que aquele em que eu entregava nas mãos do editor a minha ilustração. O seu rigor era lendário entre os jornalistas cariocas e nunca consegui conter o tremor involuntário que sentia antes de submeter meu trabalho ao seu escrutínio. Com o passar das semanas, comecei a suspeitar que seus trejeitos de perfeccionista compenetrado não eram, como se cria, os sintomas de sua altíssima dedicação ao jornalismo, mas passos de um jogo cuidadosamente ensaiado para que ele se divertisse às custas da minha insegurança.

O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar - Plural

Engoli seco quando ele me devolveu o desenho. Segurei o papel enquanto esperava em vão algum comentário, quase me arrependendo de minha pequena ousadia. Não devia ter feito aquilo, não daquele jeito... Mário tirou do bolso um punhado de réis surrados com os quais pagou a sua entrada e — não podia, naquele momento, negar seu favor — a minha. O condutor tomou suas notas com um bocejo. Quando Mário Filho enfiou as moedas do troco no bolso interior, percebi que as mangas do paletó que tinha herdado do pai eram largas demais. O editor, erguendo a mão, solicitou o desenho de volta e eu, cumprindo a sina de súdita, devolvi. O exame não tinha acabado, pensei, enquanto virava o rosto para observar os edifícios recém-construídos da Avenida Central.

Não era a primeira vez que eu apresentava minhas ilustrações para o editor no bonde. Mário levava a sério o imperativo da produtividade muito antes do que qualquer um na imprensa. Sua obstinação diária era poupar tempo vital para trabalhar o máximo de horas possível. Examinar ilustrações e reportagens na volta para casa era apenas um de seus esforços.

“Sabe o que eu acho da verdade, não sabe?”, perguntou, demorando para tirar os olhos do desenho.

“É a mais pedante corrupção da mentira?”

“Muito mais do que isso. A verdade é. . .”

“... a grande vilã da nossa vida, mas, principalmente do nosso trabalho.”

Começava mais uma vez a notória ladainha sobre as virtudes da ficção deliberada. Para o editor da Crítica, a busca pela verdade era a forma mais degenerada de jornalismo. Destilara tantas vezes seu desdém pela factualidade em formações sintáticas rigorosamente repetidas que não esboçou uma reação de surpresa quando eu completei suas frases.

“Não tenho mais o que te dizer. Seu desenho é perfeitamente deformado, grotesco, mentiroso, exagerado e perfeito. Meu pai adoraria. Talvez seja a capa.”

O motorneiro gritou para que o condutor acionasse a alavanca, que negou com a mesma força vital com a qual cobrava as passagens. A chuva apertava e nenhum dos dois fez movimento algum para que o bonde parasse. Ao som dos xingamentos vindos da frente, Mário percebeu que teria que pular com o bonde em movimento.

Sozinha, depois, pensei no que havia feito e senti um calafrio de arrependimento. Meu cargo na Crítica era, afinal, tão instável quanto a minha vida no Rio. Na primeira conversa que tive com Mário Rodrigues, pai de Mário Filho, recém-chegada da lavoura, embasbacada com o fulgor âmbar da iluminação a gás e o verde dos chapéus femininos da moda, não consegui responder nem mesmo meu nome. Tinha certeza de que ele me tomava desde então por uma caipira incompetente e intrometida e não teria hesitado em me mandar o mais longe possível da Rua do Carmo não fosse a influência remanescente do nome do meu pai.

Eu tinha, então, um punhado de textos confusos cheios de ardor juvenil que julgava conterem um exemplo sucinto e elegante da minha genialidade literária. A reação de Mário Rodrigues a eles foi um balde de água fria. Demorou apenas uns poucos segundos sobre a primeira crônica do maço. Deve ter sido o pior primeiro parágrafo da história da literatura, porque ele rapidamente deixou de lado o amontoado manuscrito de folhas e me perguntou com um desdém sem rodeios:

“O que mais você sabe fazer?”

Foi assim que entrei na imprensa carioca como copista de ilustrações.

Naquela época, o ilustrador oficial do jornal era Umberto Della Latta, um italiano mal-humorado e o primeiro cocainômano que conheci. Minha função era transpor o desenho criado por ele o clichê de metal, de maneira a torná-lo reproduzível. Suas ilustrações vívidas eram a imagem do caso policial jornalístico desde o começo da década e os boatos sobre seus costumes eram igualmente notórios. Nos meses em que trabalhei com ele, percebi que ele fazia questão de ostentar seu desapreço pela raça humana até nos menores gestos. Contava-se que ele se sentia pessoalmente ultrajado sempre que lhe pediam para ilustrar roubos ou acidentes sem vítimas fatais. Desenhar qualquer cena em que não houvesse pelo menos um homem morrendo era, para ele, um desperdício imperdoável de seu talento.

Sua rotina de trabalho era, naquele tempo, uma senoide que alternava entre picos noturnos de hiperconsciência estimulada e vales vespertinos de entorpecimento alcóolico. Diariamente, me entregava suas ilustrações em papéis molhados cheirando a cigarro para que eu copiasse. Um dia chegou mais bêbado do que de costume e entregou a ilustração do dia rabiscada em um saco de cartucho. Era um de seus melhores trabalhos: um médico grotesco, munido de uma seringa ameaçadoramente grande, debruçava-se sobre uma paciente desacordada, que sugestivamente abria as pernas com um sorriso entorpecido. Uma freira, espiando a cena da porta do consultório, esgarçava os lábios em um círculo de susto. Como sempre, Umberto tinha conseguido pincelar a notícia com o generoso toque de insinuação sexual que agitava os ânimos dos leitores pudicos nas manhãs de segunda. Disse isso a ele, que não compreendeu e respondeu balbuciando, apoiando-se nas mesas da redação para não cair. Meses mais tarde, pouco antes do fim do jornal, encontrei na gaveta de sua escrivaninha um esboço cuidadoso da cena feito em papel adequado.

Com a morte de Mário Rodrigues, as relações da Crítica com Umberto esfriaram. Nenhum dos filhos foi condescendente com as excentricidades de Umberto. Ainda mais porque o próprio italiano que, apesar de seus excessos, até então sempre tinha cumprido com os compromissos com uma assiduidade impecável, não achou que os filhos de Mário Rodrigues mereciam a reverência que ele dirigia ao pai. E, muito rapidamente, a volúpia produtiva de Mário Filho entrou em conflito com o espírito anárquico de Umberto. Cada vez mais frequentemente, eu, sempre presente na redação, me tornava a alternativa mais fácil para remediar o problema. Na falta de uma ilustração do célebre europeu, Mário me pedia gravuras de minha própria lavra.

“O erro dele” sentenciou o editor na primeira vez que me pediu para ilustrar uma matéria da Crítica “é confundir a libertinagem do artista com o ofício do repórter. Não se esqueça: o seu senhor não é a subjetividade moderna, nem a dor do mundo, a verdade intrínseca das coisas ou o diabo que o parta. Seu senhor é o dinheiro. Não queremos mudar o mundo, tampouco queremos deixá-lo como está. Nosso objetivo é mais nobre do que as duas coisas: vender mais jornais do que os concorrentes. A edição fecha às três, preciso do desenho duas horas antes disso. Alguma pergunta?”

Nem tive tempo.

“Seu salário, obviamente, continua o mesmo.”

As semanas que seguiram foram de calmaria e satisfação. Aprendi a esperar com ansiedade a hora de comprar o jornal nas bancas e apreciar a alegria egoísta de encontrar meus próprios desenhos impressos. Como as caricaturas eram privilégio dos artistas, em geral estrangeiros, que tinham acesso aos costureiros de renome e gosto apurado para os sapatos, minha área de atuação se restringia aos casos policiais, ainda que vez ou outra eu tenha sido incumbida de registrar o caminho que as bolas de football percorriam nos jogos dos times da capital. Aprendi, em uma lição tácita, que as ilustrações criminais participavam de um delicado jogo de aceitabilidade, cujas condições eram a violência e a perversão, embora as representações mais diretas dessas virtudes humanas fossem consideradas inapropriadas. Até aquele dia do bonde, sempre que solicitada, eu tinha seguido à risca todos os termos desse jogo.

Sozinha no banco, não pude deixar de pensar que a assinatura poderia implicar no fim da minha breve carreira jornalística. Essa era, afinal, outra das condições inegociáveis do meu cargo estipuladas pelo editor naquele dia: as ilustrações minhas continuariam assinadas com o pseudônimo de Umberto. Mas assim que terminei o desenho do ataque nas imediações da Rua Goyaz, reforçando a lápis a última e desesperada gota de sangue da menina, soube que ali estava uma cópia tão exata e própria do estilo de Umberto que me doeu não assiná-la. Veio a mim uma vontade de autoria tão coercitiva que escrevi, como quem segue um imperativo moral, meu nome em letras cursivas, logo abaixo do terno do assassino.

Ao sacolejar metálico do bonde, a angústia aos poucos se iluminou de alívio. O plano tinha, no final das contas, funcionado. A lupa de Mário Filho tinha deixado escapar a minha assinatura, que apareceria, triunfante e secreta, em cada um dos exemplares da tiragem milionária do próximo jornal.

A chuva amainara quando, vendo despontar a viela do meu apartamento, desci.

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