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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 15

Leia o novo capítulo do romance policial de Nicolas Wolaniuk que o Plural publica em folhetim

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 15

Este é um romance policial. Os capítulos são publicados semanalmente pelo Plural. Para ver todos os capítulos, clique aqui.

Lembrei que precisava voltar ao prédio da Rua do Carmo. Ainda não tinha conversado com Mário Filho desde que ele tentou me convencer a não voltar para a delegacia. Quando estava quase virando a Visconde, vi Sylvio Terra caminhando distraído na minha direção. Tive a mesma impressão de quando o tinha visto pela primeira vez, lá na delegacia: um menino debaixo de um chapéu importado. Mas, dessa vez, ele não caminhava com seus passos estrênuos de investigador diligente. Pelo contrário: ia com a cabeça baixa, o chapéu quase caindo e as mãos afundadas nos bolsos do paletó. Me cumprimentou cabisbaixo, quase sem surpresa nenhuma. Perguntou sobre minha conversa com Raymundo e disse que tinha que me contar como tinha sido sua entrevista com Antônio Alves. Concordei e ele foi me acompanhando em direção à Crítica enquanto comentava.

“Não será, Amália, uma surpresa para você que diga que acredito no mistério do mundo. Acredito que a verdade é frequentemente mais complicada do que parece ser e que a investigação trivial não é capaz de conhecer segredos pelos quais vale a pena investigar. Também não será surpresa que não consiga agir senão enviesando esteticamente minhas opções e opiniões. Como eu disse, para mim é obrigatório que uma investigação seja bela, porque a beleza é a condição da verdade. Não desprezo nenhum detalhe. Quanto mais banal é um objeto em uma cena de um crime, mais é possível que seja justo esse objeto a guardar, calado, o segredo do crime e do universo.”

“Suas divagações são de fato interessantes, comissário”, menti “mas estou morrendo de curiosidade sobre a entrevista.”

“É exatamente por isso que divago. A entrevista foi a ruína da beleza.”

“Isto quer dizer que...”

“Estou quase certo que Antônio Alves é o culpado. Mas me dói tanto... A solução é uma sensaboria indigna do meu esforço intelectivo.”

Sylvio, inconsolável, exprimia suas esperanças com ar sonhador:

“Deve haver, nessa solução, uma contradição, um segredo hermético que tenho que descobrir. Algo que faça elegante o trivial. Do contrário, não seria verdade.”

“Mas você acredita, então, que o caso está encerrado? Achamos o culpado?”

“Tudo aponta para ele. O delegado levou ontem Adelaide Crespo para a delegacia, enfim! Como eu queria, aliás, que a investigação tivesse mais a ver com ela! Talvez seja a mulher mais bonita que eu já vi. Já disse isso? Uma escultura! Melancólica e bela! Ela esteve na delegacia ontem e identificou Antônio. Disse que estava praticamente certa de que tinha visto Antônio Alves saindo do apartamento da Candelária naquela noite. O delegado foi cauteloso, afinal de contas, a identificação foi feita a partir de uma visão parcial, de costas. Adelaide não conseguiu ver o rosto do homem que saia do apartamento naquele dia. Mas depois o marido também confirmou. Disse que o homem corpulento que tinha visto parecia de fato o cabo eletricista.”

Tentei animá-lo, mas Sylvio continuava angustiado. Disse-lhe que a mim parecia que uma investigação honesta em seu propósito não podia se dar ao luxo de avaliar esteticamente suas conclusões. Era preciso aceitá-las, fossem como fossem.

“Mas é uma dor quase física que sinto...”, respondeu o comissário. “As circunstâncias da descoberta são absolutamente banais. Um funcionário da delegacia apurou que o marinheiro saiu do encouraçado enganando seus superiores. Isto é: segundo a escala da marinha, na noite de terça-feira, o cabo Antônio Alves devia ter permanecido dentro do encouraçado, sem descer para a terra. Ele só conseguiu sair do navio emprestando a tarracha de um outro marinheiro. A princípio, o próprio Antônio negou isso, mas depois ficou tão encurralado que não teve opção.”

“Ele deu alguma razão? Para ter feito isso? Isto é, sair assim do encouraçado?”

“Disse que saiu porque não se aguentava de saudade da mulher e da filha.” disse Sylvio.

“A polícia conversou com a mulher? Os álibis batem?”

“Não batem. A mulher mora na casa dos pais, sogros de Antônio. Foi aí que o cerco fechou para o marinheiro. Segundo os sogros, Antônio realmente passou em casa, mas só chegou às três horas da madrugada, dizendo que estava muito atarefado com o trabalho no encouraçado.”

Pensei comigo. Segundo a sequência sugerida por Sylvio Terra, Antônio Alves teria tempo de sair do encouraçado, ir até a Rua da Candelária, assassinar Haroldo de Alencar e depois visitar a esposa e o filho. Sylvio continuava consternado pelo andamento do caso.

“Tem algo, Amália, nessa história que ainda me inquieta...”

“É muito simples: você é um idealista, assim como Raymundo. Ele ama Haroldo, você ama uma boa história de crimes. Vocês dois têm dificuldades de aceitar a realidade tal qual ela se mostra. Essa sua perturbação é apenas dificuldade em aceitar a realidade pedestre das obviedades cotidianas.”

O comissário defendeu-se da minha inventiva improvisando mais uma vez um discurso sobre as possibilidades de descoberta da verdade através da caça sistemática pelo extraordinário.

“Vivemos em mundo de mentiras”, dizia ele “há tantas mentiras e desentendimentos quanto há coisas para serem entendidas. Como disse Galileu: la vérité ne fera pas dʼaveux.”

“Disse o quê?”

“Ele disse que a verdade, Amália, dentro desse lamaçal, só tem dois esconderijos: ou atrás ou além das coisas comuns. Ela é justamente o que se descobre depois de despir a realidade de sua fantasia de normalidade e previsibilidade. Esta é a única certeza que tenho. Este é o princípio que orienta meu trabalho de detetive. Isso deve explicar porque penso que a solução corrente deve estar bastante errada. Há algo que perdemos no caminho, algo que deixamos passar...”

Concordei vagamente. Podia até ser que tivéssemos deixado passar algo. Quando estávamos aos pés do prédio da Crítica, desertamos. Sylvio foi descendo a Rua do Carmo no caminho da delegacia. Observei a curiosa figura do comissário descendo a rua, com sua tristeza inevitável.

Quando cheguei à sala de Mário Filho, me surpreendi ao ver que os móveis tinham voltado ao seu lugar.

“As escrivaninhas não eram o...”

“Não me lembre disso, por favor” respondeu Mário, sufocando uma risada relaxada.

Depois, me fitando através da fumaça de seu charuto: “Me conte, Amália, como?”

“Como o que?”

“Como você conseguiu se integrar tanto na investigação da polícia?”

A verdade era que, mesmo sendo sincera, eu não sabia explicar. Fiquei tão absorta no inquérito que só então percebi que minha continuidade na investigação tinha algo de insólito. Improvisei uma resposta segundo a qual Sylvio Terra teria visto um excepcional poder dedutivo nas minhas observações e me proposto um acordo privilegiado. Segundo os termos desse acordo, ele me daria passe livre para acompanhar de perto as entrevistas e as diligências se ajudasse a polícia com minhas habilidades de dedução. A partir dessa mentira inicial, contei mais ou menos o que tinha acontecido desde que passara a acompanhar a investigação, desde a primeira entrevista com Raymundo até a segunda, acontecida horas antes.

Não sei bem se Mário Filho comprou a história, mas não perguntou mais. Puxou uma das gavetas com uma força exagerada e tirou dela um papel datilografado. Reconheci a reportagem que eu tinha escrito no dia anterior, a bombástica notícia sobre o assassinato do neto de José de Alencar. Hoje, estava repleta de rabiscos de tinta.

“Escute, Amália. Você conseguiu um feito e tanto se aproximando tanto da investigação desse crime e principalmente se aproximando de Sylvio Terra, mas, se quiser escrever neste jornal, vai ter que fazer bem melhor que isso. Eu tenho meia dúzia de repórteres incapazes de seduzir um comissário...”

“Eu não seduzi o comissário.”

“Eu não disse isso.”

“Mário...”

“Eu tenho meia dúzia de repórteres, como dizia, incapazes de seduzir um comissário...”

“Eu não seduzi o comissário.”

“Mas aposto um conto de réis que eles, contudo, sem nenhum atributo físico para angariar a simpatia de Sylvio Terra, sem saber de nenhum dos fatos, sem nenhuma informação privilegiada, contariam uma história pelo menos três vezes mais interessante que essa aqui.”

Mário Filho me olhou com uma argúcia estudada, espremendo os olhos, como se pudesse ver, através de mim, os meus pensamentos.

“Tem uma coisa muito curiosa nisso tudo, Amália. Você sabe qual é?”

Engoli seco.

“Não poderia imaginar, Mário.”

“Acho que eu conheço bem direitinho o gosto do meu pai, Deus o tenha. Não digo que você escreva mal, mas não acho que você conquistou o velho de verdade. Ele gostava mesmo de dramaticidade brega, de frases de efeito e isso tudo.”

“Eu... eu nunca disse que ele... bom, eu nunca disse que ele me disse que...”

Mário Filho relaxou os olhos e se reclinou na cadeira. Acho que foi a gagueira que me entregou. O editor disse olhando para longe, na janela, como se falasse sozinho:

“Foi uma mentira bastante oportuna. Meus parabéns! Saber quando mentir é uma das virtudes da profissão. Quase tão importante quanto saber como mentir.” Depois, virando-se claramente para mim: “Você tem futuro, Amália. Se eu pudesse te dar um conselho, diria: continue assim nas mentiras, mas melhore na escrita. Em pouco tempo você será um sucesso. Mas por ora...”

“Trabalho?”

“Precisamente: trabalho! Faz parte da nossa sina. Sem trabalho, nenhuma notícia se vende sozinha. Sem trabalho, nem um maníaco esquartejador de bebês tira nossos exemplares das bancas. É isso que você quer?”

“Um maníaco esquartejador de...”

“Eu também não quero. Sei que faria bem para todo mundo, mas tem meia dúzia de coisas mais importantes do que vender jornais e a saúde dos bebês cariocas é uma delas. Por ora, o mais próximo que temos é o assassinato de Haroldo de Alencar. E confie em mim, Amália, esse caso vale ouro. Vai vender muito jornal: na verdade, já está vendendo muito jornal. Temos nele todos os ingredientes de um grande crime de sensação.”

“Um enigma, pra começar...”

“Não só. Tudo é um enigma. A maioria dos assassinatos são enigmas. Os enigmas se tornam  mistérios  na  medida  em  que  se  singularizam,  tornam-se  dignos  de  nota, extraordinários. O caso Haroldo de Alencar vai vender jornal porque se trata de um pessoal com conexões evidentes e explícitas com nosso passado literário e com a atualidade de nossa burocracia. O caso Haroldo é importante porque envolve homens que gostam de homens e não há nada tão satisfatório para a imprensa quanto repreender um amor imoral. Quanto mais sincero e apaixonante é o desejo que repreendemos, mais bela é a nossa retórica em represália. Os boatos sobre as festas nem um pouco pudicas na garçonnière vão servir de motivação para que vocês redatores, finalmente liberados da frugalidade jornalística, abandonem a austeridade do estilo em favor das ambiguidades das insinuações. Mas ainda tem mais um fator, além de tudo isso. Algo que você nem me contou ainda.”

Mário Filho respirou longamente, como se se recuperasse do impacto das muitas frentes daquele caso:

“O sobrenatural. Haroldo de Alencar, antes de morrer, estava tentando contatar os espíritos.”

Olhei surpresa para Mário Filho. Eu sequer tinha tido tempo de escrever sobre o interesse espírita de Haroldo.

“Mas como você descobriu?” perguntei.

“Ora, Amália, eu tenho meus contatos, minhas astúcias, minhas intuições. Não há nada que você saiba que eu não possa saber também.”

Depois de um instante, mais sóbrio, como de costume, tomou um charuto da sua caixa importada, acendeu-o e tragou com um prazer singular. Cumprimentei Mário com a cabeça e estava já quase me retirando da sua sala, quando o editor tirou o charuto da boca e sentenciou:

“Ainda não terminei. Precisamos falar sobre o seu desenho.”

“Que tem ele?”

“A sua matéria diz que Haroldo estava pelado. Um homem pelado e morto é tudo que os leitores querem. Por que razão você o desenhou com roupa?”

“Não entendi, Mário. Vocês publicariam a ilustração de um homem nu?”

“Não perderíamos a oportunidade.”

“Você quer que eu desenhe?”

“Não precisa. Della Latta apareceu aí hoje. Acho que todo o bafafá sobre as orgias no apartamento de Haroldo animaram seu espírito saturnino. Ele ficou ultrajado com o desenho de ontem. Não se pode negar, ela tinha um ponto...”

“A falta de nudez?”

“Muito pior: você desenhou Haroldo já morto. O italiano disse, com muita razão, que um homem morrendo é mais belo do que um homem morto. A questão é óbvia: deve ter talvez dois, três homens morrendo neste exato momento no Rio de Janeiro. Mas o cemitério está cheio de mortos. Ele até já passou a ilustração para a pedra. Quer ver?”

Mário Filho tirou da gaveta uma ilustração. Ainda tinha uma ou outra coisa para aprender com Umberto. O italiano tinha desenhado dois homens completamente nus em uma composição bastante erótica. Um deles, deitado sobre o outro, enforcava-o com as mãos agonizantes e os olhos injetados de desejo.

“Vocês vão publicar assim? Isto é, com...”

“Os pintos de fora? Não! Seria pudico demais, muito pouco erótico. Vamos publicar com uma tarja branca na frente.”

Dediquei as horas que me restavam da tarde escrevendo a melhor reportagem que pude, inventando enredos como uma romancista. Na minha matéria, uma suposta hostilidade entre a polícia e a caravana de reportagem da Crítica dificultava a tarefa de nossos heroicos repórteres, que caçavam digitais no ar e entreouviam conversas por frestas de porta. Na minha narrativa delirante, todas as pistas promissoras eram rastros falsos plantados pelos policiais e a linha tênue da factualidade se perdia no rastro de fumaça inventado pelo tamborilar de meus dedos. Sete versões depois, descansei as mãos sobre a mesa. Os dedos já doíam de tanto bater teclas. Foi aí que lembrei que a carta de meu pai ainda esperava sobre o balcão de meu apartamento sem que eu tivesse tido tempo de ler sequer uma de suas linhas. Decidi que lê-la seria a primeira coisa que faria ao chegar.

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