16 out 2021 - 15h37

Nhengue: a menstruação e a saúde das mulheres indígenas do Paraná

Duas lideranças femininas Guarani Mbya contam sobre suas relações com a menstruação e os cuidados necessários nesse período

Era uma manhã de 2006 quando Eliane de Castro sentiu o sangue descer pela primeira vez. Conhecida por Eli ou para mirī Paty, seu nome indígena, ela conta que assim que viu a mancha vermelha na calcinha foi logo comunicar a mãe. Eli, então com 12 anos, já conhecia os procedimentos que estavam por vir.

Em silêncio, ela teve seus longos cabelos pretos cortados e foi encaminhada a uma casa onde ficou oito dias resguardada, dormindo em uma cama a vários metros do chão. O contato com outras pessoas da aldeia era proibido, a não ser pela mãe e avó, que a supervisionavam e levavam alimentos. Eli também precisou seguir uma dieta: nada de gordura, açúcar e carne de caça, apenas comidas leves como sopa e grãos. Quando precisava sair da casa para ir ao banheiro ou tomar banho (somente com água morna ou quente), sua cabeça era coberta por um pano e ela devia andar olhando sempre para o chão.

Passados os oito dias guardada, Eli foi mandada à casa de reza para que fossem feitos os cantos sagrados e ela renascesse, agora como uma mulher. 

Hoje, aos 27 anos, a indígena da etnia Guarani Mbya explica que todas as mulheres de sua aldeia, a Kuaray Haxa, localizada na divisa dos municípios de Antonina e Guaraqueçaba, passaram pelo ritual, chamado de Nhengue – palavra Guarani que, se traduzida para o português, significa algo como a “primeira menstruação”.

“A gente acredita que quando está virando mocinha tem vários espíritos maus que podem se aproximar. Nesse período da menstruação a gente fica com o nosso espírito muito fraco, por isso podemos atrair várias coisas negativas”, esclarece. 

Para os Guarani Mbya, a reclusão preserva as meninas dos seres perversos e transforma seus corpos para a nova fase: a de mulher preparada para reproduzir e começar uma família. “Tem algumas coisas da cultura da gente que eu não consigo explicar direito. Às vezes não sei a palavra em português para falar, sei na minha língua.”

Depois do Nhengue, em todos os ciclos seguintes a mulher não deve cozinhar, pois quem comer a comida corre risco de sentir dores, não deve lavar roupa nem tocar nas crianças porque, assim como aos alimentos, o toque do corpo menstruado pode causar cólicas e outros sofrimentos. “Nesse período, quem toma à frente para cuidar dos filhos, da alimentação, da limpeza é o marido, ou outro parente que more com a mulher. Os homens cuidam e respeitam muito o ciclo menstrual da mulher na aldeia, sabem que têm que cuidar e ajudar. Não podemos fazer nada quando estamos menstruadas”, relata Eli.

Cuidados necessários 

Durante o período menstrual, há uma intensidade dos cuidados com o corpo e o espírito justamente para que, no futuro, as meninas não adoeçam ou tenham dores. Na visão dos Guarani Mbya, o que acontece com a mulher durante a primeira menstruação a moldará para o resto da vida e, por isso, é dada uma atenção especial à saúde nesse período. “Temos todo esse cuidado desde menina. É preciso cuidar desde a primeira menstruação para não ter essas dores mais para frente, se não a gente passa a ter para o resto da vida. Quando ficamos mulher temos esse cuidado para não deixar doente as crianças e o marido. Os espíritos negativos sempre estão ao redor.”

Segundo Eli, é preciso cuidar também com a possibilidade de uma gravidez precoce. Pela lua, as mulheres da Kuaray Haxa calculam o próximo ciclo e se preparam pois sabem que, nos 10 dias que precedem e nos 10 que sucedem o período menstrual, as chances de engravidar são mais altas. 

Quando sentem alguma dor, as parentes buscam a curandeira, a Xaryi (mulher líder espiritual) ou o Xamoī (homem líder espiritual) que curam através da relação particular com o mundo espiritual e a natureza. A folha do boldo, por exemplo, é muito utilizada para fazer compressas na barriga e outras ervas medicinais para remédios para cólica.

Em casos de desconfortos mais graves, as mulheres são levadas aos Postos de Saúde Indígena, mantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além da introdução dessas unidades, a inserção da cultura não-indígena na aldeia acabou modificando alguns costumes relacionados ao corpo feminino, como o uso de anticoncepcionais e do absorvente comum. “Antigamente, a minha mãe, minha avó e minha bisavó me contavam que elas usavam a fibra de uma árvore, de um tipo de palmeira, que virava tipo um paninho. Elas usavam a casca (que tinha essa fibra) como absorvente”, relembra Eli.

Xondaria Kuery Jera Rete

Nascida na Terra Indígena de Mangueirinha, no Paraná, hoje, Eli é uma das coordenadoras do Movimento Xondaria Kuery Jera Rete (a tradução para o português seria algo como “movimento de guerreiras de almas fortes”), um coletivo de mulheres indígenas do Paraná que busca informar, debater, defender e lutar pelos direitos de indígenas de todo o estado. O coletivo, que existe desde 2018, leva o nome da tia de Eli, a primeira cacica do Paraná, que faleceu há oito anos. 

Fotos: Arquivo pessoal

“Na nossa cultura, a mulher é muito importante na criação dos filhos, na questão espiritual, de ervas medicinais, as mulheres são muito sábias. Têm mulheres que caçam, que fazem artesanato, cada um tem seu dom. A gente não escolhe o que temos que ser, Nhanderu é que nos dá o dom, que nos guia para ser o que a gente é.”

O novo projeto do Movimento Xondaria Kuery Jera Rete tem justamente a menstruação como foco: o objetivo é levar conhecimento sobre o uso de absorventes ecológicos – como os de pano ou as calcinhas absorventes – para as meninas indígenas do Paraná. “Esse [absorvente] comum, comprado, além de poluir, pode causar infecções nas mulheres”, destaca Eli.

Um dos apoiadores do movimento coordenado por Eli é o Projeto Origem, criado em 2019 por Nathalia Sibuya, Bruna Kamaroski e Juan Schenone como uma rede de apoio e fortalecimento aos povos originários do Paraná. Atualmente, além da Kuaray Haxa, o projeto atende outras seis aldeias no litoral do estado e na Região Metropolitana de Curitiba (RMC): Guata Porã, Tupã Nhe’é Kretã, Tekoa Takuaty, Pindoty, Guaviraty, Aldeia Araçaí.

Nathalia Sibuya, pesquisadora socioambiental do Projeto Origem, destaca que o projeto já realizou diversas ações com base na vulnerabilidade socioambiental de cada comunidade, inclusive sobre a saúde da mulher indígena. No ano passado, por exemplo, em parceria com a campanha “1 Milhão de 1 Real”, foram distribuídas calcinhas absorventes para as mulheres das aldeias.

“Uma coisa que é muito presente nas aldeias é essa união entre as gerações, esse respeito à ancestralidade e aos anciãos, às mulheres anciãs e mães – essa relação é muito forte e traz à tona esse conhecimento que deve ser valorizado. São laços muito fortes e aprendizados entre as gerações.”

Nathalia esteve presente em alguns encontros promovidos pelo Movimento Xondaria Kuery Jera Rete e relata sobre as discussões em torno da saúde feminina, exames preventivos e medicina indígena. “A gente sabe das diferenças que existem e de todo esse conhecimento tradicional, que é também técnico e de grande força e potencial, principalmente em relação às plantas medicinais. Falava-se muito desse processo entre o mundo não-indígena e o mundo indígena e como fazer essas questões dialogarem de uma forma mais receptiva, como fazer com que o estado e as políticas públicas respeitem as especificidades e a autonomia das indígenas.”

Tradição ancestral

Juliana Kerexu, de 32 anos, vem de uma linhagem de mulheres fortes. A única filha mulher entre sete irmãos, Ju Kerexu, como é conhecida, sempre defendeu o protagonismo feminino dentro da comunidade. Bisneta de uma pajé e neta de parteira, a atual cacica da Tekoa Takuaty, terra indígena na Ilha da Cotinga, em Paranaguá, aprendeu muito com as mulheres de sua família. Quando veio a primeira menstruação, não foi diferente.

Ju Kerexu tinha 12 anos quando levou um susto no banheiro da aldeia onde vivia. “Chorei um pouco, mas lembrei que minha mãe sempre me falava como era e que não era para esconder”, conta. “Ela conversou comigo dizendo que era normal, que era um processo natural do corpo da mulher e ela me explicou tudo, então me acalmei.”

Assim como na aldeia de Eli, na comunidade de Ju Kerexu, a menstruação é um ritual de passagem. A indígena Guarani Mbya conta que as tias vieram vê-la, cortaram seu cabelo para que ela não crescesse com “cabelo de criança” e para evitar algumas doenças relacionadas à mente. Ju Kerexu também passou pelo Nhengue e ficou de resguardo em uma cama afastada do chão. Durante 24 dias ela não comeu açúcar, sal e carnes vermelhas – isso é feito, segundo ela, para diminuir o fluxo sanguíneo. Na reclusão, aprendeu a fazer artesanatos manuais e a costurar.

Nas duas primeiras menstruações, segundo ela, não é preciso usar absorvente. Isso porque como as meninas ficam reclusas, o fluxo acaba sendo menor. “Depois passamos a usar absorventes de pano, mas só se precisar. Eu particularmente não uso porque não tenho muito fluxo de sangramento.”

“Todos sabem como é a menstruação para nós e quando estamos nesses dias é um trabalho mais interno nosso [das mulheres]. Não fazemos nenhuma outra atividade. Para nós é algo natural. Quando a mulher está menstruada, os parentes deixam ela no resguardo. Ficamos mais reclusas, não participamos de coisas coletivas. Esses dias da menstruação são nossos, o tempo é nosso”, conta.

Ju Kerexu explica que a cultura Guarani Mbya é bastante matriarcal, a mulher é a base estrutural da aldeia. “O mundo foi gerado através da primeira mulher, então somos filhos e filhas dessa primeira mulher. Elas são as referências, ainda mais as mais velhas, que já têm todo um processo de caminhada no mundo.” Assim como em outros aspectos da vida na aldeia, com a menstruação, os conhecimentos são passados de geração em geração.

Culturas particulares

Conforme explica Florencio Rékayg Fernandes, indígena Kaingang, antropólogo, escritor e pesquisador pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), para cada etnia, a cultura e a realidade da menstruação são diferentes. Mas há pelo menos um entendimento comum: a menstruação marca a passagem da fase infantil para a adulta. 

Florencio é originário de Rio das Cobras, a maior Terra Indígena do Paraná, com quase 19 mil hectares, 85% dos quais compostos por mata nativa. São 3.500 indígenas das etnias Kaingang e Guarani divididos em 11 aldeias, que ficam em dois municípios paranaenses, Espigão Alto do Iguaçu e Novas Laranjeiras, cerca de 400 km distante de Curitiba.

Para os Kaingang, explica ele, a primeira menstruação marca o início de uma nova vida. “A ideia é que a menstruação mostraria que a menina estava pronta para formar uma família, ter um marido e filhos. Quando a menina tinha a primeira menstruação ela ficava de resguardo em média 30 dias para poder lidar com a situação. Ela ficava fechada em um quartinho onde recebia todos os tratamentos, cuidados das mais velhas, além do aconselhamento. Hoje não é mais assim.”

Segundo Florencio, a discussão a respeito da menstruação entre os povos indígenas ainda é um tabu, considerando a falta desse tema nas rodas de conversas e nas escolas. “Por uma questão cultural e tradicional, a menstruação é mais comum nas conversas só dentro de casa, entre mãe e filha principalmente. É um assunto que fica mais restrito às famílias.”

Assim como acontece na Kuaray Haxa, em caso de dores, as meninas de Rio das Cobras são levadas às curandeiras para serem tratadas através da reza e das ervas, principalmente na fase pré-menstruação, em que geralmente muitas têm dores de cabeça e cólicas. Caso o quadro seja mais grave, elas são encaminhadas ao posto de saúde para o atendimento médico ocidental. 

A saúde indígena no Brasil

No Brasil, a responsabilidade por coordenar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e conduzir o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASISUS), no âmbito do SUS, recai sob a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde.

Por intermédio dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), a SESAI orienta o desenvolvimento de ações de atenção integral à saúde indígena e de educação em saúde segundo as particularidades, o perfil epidemiológico e a condição sanitária de cada Distrito.

Segundo dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (SIASI), são 738.624 indígenas atendidos pela secretaria, que estão em 5.361 aldeias e pertencem a 305 etnias. Os povos encontram-se dispersos numa extensão territorial indígena de 1.173.776 km2, conforme o Instituto Socioambiental (ISA).

Cada DSEI conta com postos de saúde, com os polos-base (que podem estar localizados dentro da aldeia ou em um município próximo de referência) e as Casas de Saúde Indígena (Casais).

Imagem: SESAI

O DSEI Litoral Sul, que abrange as aldeias de Eli e Ju Kerexu, atende 25.784 indígenas de 25 etnias em 129 aldeias distribuídas em um território de 174.521,07 km2. São 26 Unidades Básicas de Saúde Indígena, 14 Polos Base e 1 Casai. 

De acordo com a SESAI, as ações são realizadas dentro do território indígena, sendo desenvolvidas “respeitando os saberes e as práticas tradicionais de saúde, mediante a organização da rede de atenção integral, hierarquizada e articulada com o SUS”.

“Os serviços de saúde ofertados perpassam por atendimentos e consultas médicas, ações de educação em saúde, campanhas preventivas, entre outros, por intermédio das Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) compostas por: médicos, enfermeiros, auxiliares técnicos de enfermagem, cirurgiões dentistas, auxiliares técnicos de saúde bucal e agentes indígenas de saúde. Além disso, contempla ações de articulação com os serviços de média e alta complexidade, de modo a atender integralmente as necessidades de saúde dos indígenas, assim como o apoio para o acesso desses povos à referida rede de serviços. Diante do exposto, informa-se que não faz parte do escopo desta secretaria, a distribuição de absorvente”, diz a SESAI, em nota.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria da Justiça, Família e Trabalho (SEJUF), responsável pelo ​​Conselho Estadual de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais (CPICT), mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.

*A publicação desta reportagem é uma parceria entre o Plural e o Menstruô, um projeto de conclusão de curso desenvolvido por cinco estudantes de jornalismo da PUCPR – Isabelli Pivovar, Maria Cecília Zarpelon, Maria Fernanda Coutinho, Marina Prata e Sofia Magagnin.

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