Era uma vez uma escola onde se amava aprender | Jornal Plural
3 jul 2019 - 5h58

Era uma vez uma escola onde se amava aprender

Papel da escola não é só passar conteúdos, diz Marianna Canova

Tenho visitado muitas escolas, acompanhando mães cujos filhos em breve deixarão o ensino infantil para ingressar no ensino fundamental. Com isso, vejo todo tipo de escola, e me pego pensando que são poucas aquelas realmente sintonizadas com as necessidades das crianças de hoje, nossos jovens de amanhã.

Os conteúdos da Base Nacional Comum Curricular dizem respeito a habilidades, competências, campos de experiência a serem trabalhados, tais como aprender a pensar, ter noções de medidas e construções – e tudo isso pode ser desenvolvido em relação a qualquer tema.

A escola precisa parar de pensar que o seu papel é apenas entregar conteúdo, porque na verdade ela possui uma função ainda maior: a de desenvolver as habilidades das pessoas. É muito mais importante ensinar a criança a lidar com o imprevisível e a se relacionar do que cumprir um cronograma de conteúdos que podem ser obtidos de diferentes formas e em diferentes momentos.

A escola precisa mudar para que a criança possa acompanhar o mundo de hoje. Para alcançar isso, é preciso mudar principalmente o olhar destinado à criança.

A pedagogia já não olha mais para a criança como um ser frágil e incapaz, que precisa ser defendido, e sim como alguém em formação, com muitas capacidades, que pensa e questiona.

Se você estimula isso, a tendência é que a criança se torne um adulto que seja muito mais crítico, consiga resolver seus problemas e tenha estrutura para sair de situações emocionalmente complicadas.

Para citar um exemplo, a alfabetização que se faz hoje na maioria das escolas parte dos professores. Por mais que haja criatividade nas propostas executadas, elas partem de cima. Normalmente não há escuta.

Se você ouve o que os estudantes trazem e transforma aquilo num aprendizado mais significativo, a criança vai amar aprender. Mas, se você entra só injetando conteúdo, ela vai se aborrecer.

É preciso encontrar o interesse da criança e tirar o conteúdo lá de dentro! Isso é plenamente possível se você tem um adulto que consiga escutar a criança e possua flexibilidade mesmo enquanto executa o costumeiro excesso de tarefas diárias. Esse adulto precisa estar bem capacitado para ter um olhar sensível e completo sobre a criança.

Algumas escolas trabalham com contextos, e eles acabam sendo mirabolantes – e isso é bom, porque partem daquilo que a criança quer saber. Alguns exemplos que tenho visto são: “Laranja é cor ou fruta”? “Por que o sol fica atrás de mim quando estou no carro?” A partir dessas perguntas inocentes, você pode trabalhar desde o respeito às diferenças até princípios de astronomia. E eles amam pesquisar sobre coisas que partem de sua curiosidade.

As crianças querem aprender, mas é muito mais fácil e prazeroso se você aceitar o interesse que parte delas. Se elas querem saber sobre borboletas, é frustrante você dizer “isso não está programado, não vai dar”.

Vejo isso em viagens de pesquisa que estou fazendo e até mesmo pela procura de escolas menores que nos veem como referência, pois percebem que a educação mais tradicional não está funcionando. Algumas escolas-referência não têm sala física, e sim professores tutores que recebem os estudantes; outras conseguiram aliar as habilidades do escotismo com o uso das tecnologias, trazendo autonomia e vontade de aprender.

Existem ainda conceituadas escolas mundiais que, aos poucos, estão chegando ao Brasil com um conceito diferenciado, focado nas habilidades. Uma frase da qual gosto muito é: “A escola não prepara para a vida, pois a escola é vida”, de Loris Malaguzzi. A boa escola proporciona oportunidades de vida e não apenas atividades em folhas de papel pré-estabelecidas.

Os pais também precisam ter um novo olhar, pensar qual educação querem para o filho, e não escolher uma escola só por indicações de conhecidos.

Como pedagoga, me considero uma otimista: acredito que, no período de uma década, as escolas estarão muito mais sintonizadas com o olhar da criança do que estão hoje, muitas vezes ainda extremamente semelhantes às do século retrasado. Precisamos mudar o que é necessário, para melhor!

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