Defensoria Pública pede reabertura de maternidades em Curitiba | Jornal Plural
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16 abr 2020 - 18h19

Defensoria Pública pede reabertura de maternidades em Curitiba

Duas das maiores maternidades do SUS deram lugar a pacientes de baixa complexidade. Gestantes foram enviadas a hospitais gerais, como HC e Evangélico, e temem contaminação pela Covid-19

Para liberar leitos nos hospitais de referência no atendimento a contaminados pela Covid-19, a prefeitura de Curitiba reorganizou o serviço de saúde do município. No plano de contingenciamento para a doença foi incluído o fechamento de duas maternidades de parto humanizado que atendiam pelo SUS. Todos os partos das maternidades Victor Ferreira do Amaral e Bairro Novo foram transferidos para o Hospital das Clínicas e Hospital Evangélico.

A mudança vem causando preocupação em gestantes e profissionais da saúde. A Defensoria Pública do Paraná ingressou com uma ação civil pedindo a reabertura das instituições. “Buscaremos restabelecer os serviços normais das maternidades e retirar a possibilidade de transferência de gestante do plano de contingenciamento da pandemia”, adianta Lívia Salomão Brodbeck, coordenadora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), da Defensoria Pública.  

Ela lembra que as puérperas (mulheres que deram à luz recentemente) são consideradas grupo de risco, estão mais suscetíveis a contaminações e complicações, além de não se saber ao certo se os recém-nascidos estão sendo infectados pelas mães ou nos hospitais.

“Diante das recentes mortes de puérperas e recém-nascidos contaminados pelo coronavírus, pedimos que o município voltasse atrás e reconsiderasse a decisão, mas eles informaram que não há nenhuma intenção, pois foi o plano de contingenciamento definido. Diante disso, ajuizamos a ação”, afirma a coordenadora do Nudem.

Segundo ela, a transferência aumenta o risco de contaminação de gestantes, puérperas e recém-nascidos, já que os hospitais para onde elas foram encaminhadas, atendem contaminados pela Covid-19.

A redução de maternidades – de cinco para três – também aumentou a aglomeração nos hospitais, que já registram problemas de superlotação, conforme alertam diversos enfermeiros.

Fusão catastrófica

Maternidade Victor Ferreira do Amaral, administrada pela Ebserh, transferiu as gestantes para o Hospital de Clínicas. Foto: Sesa

Em denúncia feita ao Ministério Público do Paraná (MP-PR), enfermeiros obstetras do Hospital de Clínicas (HC) e da Victor Ferreira do Amaral asseguram que a transferência das gestantes – iniciada em 25 de março – tem repercutido de forma catastrófica na Unidade Materno-Infantil do HC.

“A superlotação nos setores é diária. Gestantes têm aguardado vaga para internamento por até 12 horas no pronto atendimento, devido à falta de vagas no centro obstétrico e no alojamento conjunto. Algumas são transferidas para outros setores do hospital, como o sétimo andar (onde ficam os pacientes com Covid-19), para liberar leitos para puérperas, colocando-as em situação ainda maior de exposição”, diz o relato a que o Plural teve acesso.

A superlotação somada ao remanejamento interno de alguns funcionários de enfermagem, e ainda afastamentos por motivos de saúde, prejudicam consideravelmente a assistência prestada às mulheres e seus bebês, asseguram os profissionais da saúde, que atentam ainda para as condições e sobrecarga de trabalho.

“Faltam funcionários para cumprir tarefas administrativas e todo o serviço cai nas mãos da enfermagem, que em teoria deveria prestar assistência direta e contínua às mulheres.”

Além da contratação imediata dos funcionários aprovados no concurso de fevereiro, os enfermeiros pedem a construção de hospitais de campanha e a reabertura das maternidades. “Nos causa profunda preocupação e estranheza que as ações no nosso município caminham para retirá-las (as gestantes) de um ambiente seguro, misturá-las com outros pacientes em hospitais gerais e superlotar as maternidades para gestantes de risco. As mulheres gestantes da cidade estão sendo jogadas e tendo a assistência completamente comprometida”, concluem os profissionais.

A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), gestora do HC e da Maternidade Victor Ferreira do Amaral, não respondeu aos questionamentos do Plural sobre as mudanças no atendimento às gestantes nem sobre a denúncia dos profissionais de saúde.

Suportando

O Hospital Evangélico Mackenzie confirma que houve um aumento no fluxo de pacientes, mas que a instituição “está suportando o acréscimo”. De 26 de março a 12 de abril, 122 gestantes foram encaminhadas da Maternidade Bairro Novo para o hospital, sendo necessários 28 internamentos.

Os pacientes com suspeita de Covid-19 estão sendo atendidos no quinto andar da instituição, que isolou todo o espaço, tendo 61 leitos de enfermaria, 10 leitos de UTI e 14 respiradores. “Dos 61 leitos de enfermaria, 13 podem ser transformados em leitos de UTI caso haja necessidade.”

Neste andar, estão reservadas duas salas de cirurgia exclusivas para pacientes que possam estar com a doença. “Uma destas salas está preparada para receber gestantes com suspeita de coronavírus, caso seja necessária uma interrupção por cesárea, com equipamentos específicos para o recém-nascido, como berço aquecido. O andar conta com ultrassom, raio-x portátil, eletrocardiograma, gasometria e laboratório. O isolamento é total, inclusive com esquema de barreiras físicas de proteção”, enfatiza o Evangélico.

Para o Hospital Evangélico foram encaminhadas 122 gestantes, das quais 28 precisaram de internamento. Até agora, nenhuma testou positivo para a Covid-19. Foto: HUEM

De acordo com o hospital, nenhuma gestante foi confirmada com coronavírus até agora. Em caso suspeito, ela é encaminhada para a ala especifica no andar isolado, onde existe uma sala obstétrica reservada para situações em que seja necessário fazer o parto.

De maternidade a hospital de retaguarda

A queda de 40% no número de partos na Maternidade Bairro Novo (de 200 para 120 ao mês) foi uma das avaliações que pesou para a prefeitura de Curitiba no momento de fechar a instituição para partos e transformá-la em um hospital de retaguarda.

“Com a redução nos partos e a pandemia, tentamos ver como seria possível trabalhar no enfrentamento da Covid-19. Com uma média de 4/5 partos por dia, redimensionamos a Rede para uma retaguarda, para receber pacientes não suspeitos de coronavírus dos hospitais de Reabilitação, do Trabalhador e do Idoso”, explica o diretor-executivo da maternidade, Peterson de Souza.

Ele lembra que o Evangélico, para onde foram encaminhadas as gestantes, não é um hospital referência para a Covid-19, mas um hospital geral, com mais de 400 leitos, sendo 40 de UTI neonatal e mais 40 que foram expandidos para suprir a nova demanda.

“Esse redirecionamento foi calculado em cima disso. E o Evangélico garantiu a segurança a estas gestantes, de baixo risco e risco habitual. Se alguma evoluir para um quadro de alto risco, o Evangélico tem como dar suporte”, garante o diretor.

Desta forma, reforça ele, os 40 leitos da maternidade começaram a dar retaguarda para os três hospitais citados e receber pacientes sem sintomas de coronavírus.

Com isso, abrem-se estes leitos nos hospitais para os contaminados com a doença. Assim, não há previsão de reabertura da maternidade. “Estamos nos preparando pra um cenário que ainda vamos encontrar. Acreditamos que maio e junho seja a pior fase para Curitiba, que é uma região fria”, justifica.  

Com relação aos profissionais de saúde da maternidade, o diretor explica que eles foram redirecionados internamente, pois são do nível de assistência. “Os obstetras foram para os distritos sanitários e para a central de regulação. O pediatra ainda atende recém-nascidos até 28 dias que continuam na maternidade.”

Sobre as denúncias de gestantes e enfermeiros, Peterson Souza diz que não recebeu nenhuma reclamação sobre o atendimento no Evangélico.  

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