17 jan 2019 - 0h00

Designer põe o feminismo no peito das brasileiras

Pouca gente fez mais pela disseminação do feminismo no Brasil do que a designer Karina Gallon. Ela tem no currículo a estampa que já figurou…

Pouca gente fez mais pela disseminação do feminismo no Brasil do que a designer Karina Gallon. Ela tem no currículo a estampa que já figurou no peito de Roger Waters, Angela Davis, Manuela D’Ávila e a viúva de Marielle Franco, a urbanista Mônica Benício. É dela a marca curitibana Peita, que produz camisetas com frases feministas desde 2017 e que vendeu 10 mil camisetas em 2018 em todo o Brasil.

A inspiração para o projeto veio em janeiro de 2017, quando milhares de mulheres ocuparam Washington DC, nos EUA, para protestar contra o governo de Donald Trump. “Pensei: isso precisa acontecer no Brasil. A gente precisa levar o feminismo para o cotidiano”, lembra.

Karina percebeu que o movimento tinha boas frases e que havia um “desejo de expressão” por parte das mulheres. O produto que ela idealizou se concretizou no dia 8 de março de 2017, na marcha das mulheres, em Curitiba. “Um amigo meu, que é tipógrafo, tinha uma oficina de serigrafia. Fizemos as camisetas e fomos para a marcha”, conta.

No fim da marcha, Karina já tinha inúmeras encomendas. Surgia a Peita. “Aí que eu fui pensar na cadeia, na estruturação da empresa”, diz. A fonte usada nas primeiras camisetas e que é criação do mesmo amigo que cedeu a oficina de serigrafia, permanece como marca da empresa até hoje.

Rede de mulheres

Obra da curitibana Maria Zefferina ilustra uma das paredes da sede da Peita. Foto: acervo Peita

Não é só nas mensagens impressas nas camisetas que a militância feminista de Karina aparece. A empresa é composta majoritariamente por mulheres, assim como as fornecedoras. “É uma puta rede de mulheres”, comemora Karina. Nas paredes da sede da empresa, no Bigorrilho, grafites e ilustrações de mulheres decoram o espaço.

O marketing da Puta Peita é quase totalmente espontâneo, fruto do que a designer vê como identificação das mulheres com a marca. “É comum uma cliente voltar de viagem sem as camisetas, porque foi distribuindo no caminho”, conta.

É mais ou menos isso que aconteceu com uma das principais garotas-propaganda da marca: a ex-deputada federal e ex-candidata a vice-presidência, Manuela D’Ávila (PCdoB). A primeira compra foi feita pelo site. “Acho que ela deve ter visto na rua, em Porto Alegre”, aposta. Quando identificou quem era a cliente, Karina resolveu colocar no pacote um bilhete e alguns cartazes.

Manuela D’Ávila

Aparição de Manuela D’Ávila no Roda Viva com uma camiseta Puta Peita alavancou as vendas. Foto: Karla Boughoff

Era da Puta Peita a camiseta que Manuela usou no Roda Viva, quando foi entrevistada como candidata à presidência pelo PCdoB. A aparição provocou um pico de vendas para a marca. Quando esteve em Curitiba, para o comício do ex-presidente Lula na praça Santos Andrade, em março de 2018, Manuela conheceu Karina num encontro promovido pela assessoria da então deputada.

Além da camiseta “Lute como uma garota”, carro-chefe da marca, Manuela usou outras estampas da Puta Peita durante a campanha, além de divulgar a empresa em suas redes sociais. “Ela foi muito gente boa”, elogia.

A proximidade, no entanto, fez muita gente pensar que a Puta Peita era uma marca da ex-parlamentar e que a camiseta era um material de campanha da chapa dela com o petista Fernando Haddad. Também fez as clientes pedirem camisetas com frases usadas por Manuela, mas que não são da Peita.

A confusão criou situações curiosas. No segundo turno da eleição de 2018, uma mesária de Curitiba, Cassia Bruel Moro, foi dispensada do trabalho por estar com a camiseta da marca. Ela teria sido denunciada por um fiscal de partido que considerou a roupa propaganda eleitoral. A Peita entrou em contato com Cassia e ofereceu assistência jurídica.

No dia seguinte, uma funcionária da Puta Peita, Vera Ramos, 60, foi agredida verbalmente na rua por estar com a mesma camiseta. Dois rapazes num carro teriam mandado Vera tirar a camiseta aos gritos, fazendo sinal de arma com as mãos e dizendo que ela era da “petezada”. “Achei um desrespeito”, declarou.

Marielle Franco

Outra notável que usa camisetas da Peita com frequência é a viúva da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em março de 2018, Mônica Benício. Logo após o crime, Karina produziu e enviou para a irmã de Marielle, Anielle, camisetas com a estampa “Lute como Marielle Franco”. “Foi uma forma de homenagem”, conta.

Meses depois Karina conheceu Mônica quando esteve na casa dela para gravar o minidoc “O que é lutar como uma garota?”.

Minidoc “O que é lutar como uma garota?”

Desde então a marca passou a abastecer Mônica com camisetas que são distribuídas por ela em eventos no Brasil e no exterior.

Trabalho social

Para Karina, o feminismo da Peita não está só nas camisetas vendidas. Para a designer, as frases estampadas no peito de milhares de pessoas “ajudam a começar um diálogo”, mesmo que quem compre nem entenda direito o que é que está vestindo. “Mesmo no site, não me importo se a pessoa entrar e não comprar nada. Quero que ela leia, se informe”, diz.

Além da divulgação de frases feministas, a Puta Peita também apoia causas sociais ligadas ao feminismo e ao público LGBT. A camiseta Meu corpo é político, por exemplo, tem parte da produção entregue para uma organização do Rio de Janeiro, a Casa Nem, que acolhe pessoas trans e travestis. A instituição fica com o valor integral do lucro das camisetas que recebe da marca. Ela também divulga um documentário de mesmo nome.

Teaser do documentário Meu Corpo é político

Em Curitiba, as camisetas da empresa patrocinam ações da ong Teto, o movimento negro no Parolin (ocupação urbana de Curitiba) e um grupo de curitibanas que viaja anualmente para o Haiti para trabalhar voluntariamente.

Onde comprar?

Balaio de Gato Brechó 
Pres. Carlos Cavalcanti, 450
seg à sex 10h -18h :: sáb 10h-16h
(41) 3092-5319 

Loja online: https://peita.me/collections/all

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias

Radiocaos Convescote

Neste episódio os textos e ideias prazerosas de Otto Leopoldo Winck, William Cruzoé Teca, Guilherme Zarvos, Sergio Viralobos, Edilson Del Grossi, Gabriele Gomes, Bernardo Pellegrini, Amarildo Anzolin, Francisco Cardoso de Araujo, Marielle Loyola, Flavio Jacobsen, Maurício Popija, Adriano Samniotto, Leonard Cohen, Wally Salomão, Natalia Barros, Trin London, Daniel Quaranta, Marcelo Brum-Lemos, Michel Melamed, Julio Cortazar, Mauricio Pereira, entre outros não menos alvissareiros.

Redação Plural.jor.br